PSICOLOGIA DA INTELEGNCIA
JEAN PIAGET

CINCIAS DA EDUCAO

Volumes publicados nesta coleo:

A ENTREVISTA COM A CRIANA, J. C. Alfouilloux ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DA EDUCAO, C. Backman e P. Secord
0 PODER DA EDUCAO, T. Brameld (2.a ed.) APRENDIZADO MODERNO DA MATEMTICA, Z. P. Dienes (2.a ed.) A CRISE DA EDUCAO E SEUS 
REMDIOS, R. Dottrens CRIANAS E ADOLESCENTES, David EIkind (2.a ed.) IDENTIDADE, JUVENTUDE E CRISE, Erik Erikson (2.a ed.) INFNCIA E 
SOCIEDADE, Erik Erikson (2.a ed.) A LGICA DA EDUCAO, P. R. Hirst e R. S. Peters
0 ASSISTENTE SOCIAL NAS SITUAES DE FAMILIA, W. Jordan INTRODUO  FILOSOFIA DA EDUCAO, G. Kneller (4.a ed.) PSICOLINGUISTICA 
E PEDAGOGIA DAS LINGUAS, Jean-Yvon Lanchec A DIDATICA DA REFORMA Louis Legrand (2.a ed.) PSICOLOGIA APLICADA A EDUCAO 
INTELECTUAL, Louis Legrand HISTRIA DO PENSAMENTO EDUCACIONAL, F. Mayer
0 ENSINO SUPERIOR, W. 14. Morris SOCIOLOGIA DA EDUCAO, Ivor Morrish (3.a ed.) FILOSOFIA DA EDUCAO: UM DIALOGO, H. Ozmon A 
CONSTRUO DO REAL NA CRIANA, Jean Piaget (2.a ed.) A EQUILIBRAO DAS ESTRUTURAS COGNITIVAS, Jean Piaget A FORMAO DO 
SMBOLO NA CRIANA, Jean Piaget (2.a ed.)
0 NASCIMENTO DA INTELIGNCIA NA CRIANA, Jean Piaget (2.a ed.)
0 DESENVOLVIMENTO DAS QUANTIDADES FiSICAS, Jean Piaget (2.a ed.) GNESE DAS ESTRUTURAS LGICAS ELEMENTARES, Jean Piaget (2.a ed.) A 
GNESE DO NMERO NA CRIANA, Jean Piaget (2.a ed.)
0 DESAFIO DA EDUCAO, Sir George Pivkering A ARTE DO MAGISTRIO, E. V. Pullias e J. D. Young (2.a ed.) PRATICA EDUCATIVA E SOCIEDADE, S. 
Pereira Ramalho BASES HUMANISTICAS DA EDUCAO, J. Martin Rich DOUTRINAO E EDUCAO, 1. A. Snook

JEAN PIAGET

o Psico *a

logi

i& o da Inteligne.a

Traduo de

NATHANAEL C. CAIXEIRO Professor de Histria das Idias Contemporneas

na Universidade Gama Filho

RIO DE JANEIRO

ZAHAR EDITORES

Ttulo original:

La Psychologie de Vintelligence

Traduzido da edio publicada em 1976 pela LIBRAIRIE ARMAND OOLIN, de Paris, Frana.

Copyright Q 1967 by Librairie Armand Colin

capa de RICO

Edio para o Brasil

No pode circular e>n outros pases

1977

Direitos para a edio brasileira adquiridos por

Z A H A R E D I T 0 R E S

Caixa Postal 207, ZC-00, Rio que se reservam a propriedade desta verso

Impresso no Brasil

ndice

Prefcio      .................................................                 7

Prefcio  Segunda Edio        .................................              9

PRIMEIRA PARTE: A Natureza da Inteligncia

Capitulo 1. Inteligncia e adaptao biolgica           ............       13

Situao da inteligncia na organizao mental           ..........      14 Natureza adaptativa da inteligncia        .....................         17 Definio 
da 
inteligncia      ...............................           19 Classificao das interpretaes possveis da inteligncia . .           21

Captulo 2. A Psicologia do pensamento e a natureza psi-

colgica das operaes lgicas      ................        28
* interpretao de Bertrand Russell        .....................         28
* psicologia do pensamento: Bhler e Selz           ............       31 Crtica da psicologia do pensamento         ...................        34 Lgica e 
psicologia      
....................................            36 As operaes e seus grupamentos       .. .....................          41 A significao funcional e a estrutura 
dos grupamentos 
.               46 t,) Classificao dos grupamentos e das operaes funda-

mentais do pensamento        ...............................           51 Equilbrio e gnese      ....................................            5(1)

SEGUNDA PARTE: A Inteligncia e as Funes Sensrio-Motoras

Captulo 3. A Inteligncia e a percepo           .................        61

Histrico    ......................................        .........     61 A Teoria da Forma e sua interpretao da inteligncia             ...    64 Crtica da 
Psicologia da Forma .    
   ---------------  ..............   69 As diferenas entre percepo e inteligncia         .............       74 As analogias entre a atividade perceptiva e a 
inteligncia               84

Captulo 4. Hbito e inteligncia sensrio-motora            .........      92-

Hbito e inteligncia: 1. Independncia ou derivaes di-

retas    ...............................................               93 Hbito e inteligncia: II. Tateio e estruturao          .........      98

6                    PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Assimilao sensrio-motora e nascimento da inteligncia na

criana                                                        lor A construo do objeto e das relaes espaciais     ..........   111

TERcEIRA PARTE: 0 Desenvolvimento do Pensamento

Captulo 5. A Elaborao do pensamento. Intuio e ope-

raes    .....................................      123 Diferenas de estrutura entre a inteligncia conceptual e a

inteligncia sensrio-motora    ..........................     124@ As fases da construo das operaes      ...................    127
0 pensamento simblico e pr-conceptual      ................    12@
0 pensamento intuitivo     ................................      M_A As operaes concretas    .................................      149 As operaes formais   
..................  :-~* *** *** 
*** * --- 150
* hierarquia das operaes e sua diferenciaao progressiva       152
* determinao do nvel mental     .......................     155

Captulo 6. Os fatores sociais do desenvolvimento intelectual      157

A socializao da inteligncia individual   .................    159 Grupamentos operatrios e cooperao       ................    164

Concluso. Ritmos, regulaes e grupamentos      ..............    169

Bibliografia resumida    ....................................      177

Prefcio

Um livro sobre a Psicologia da Inteligncia poderia abranger a metade do domnio da Psicologia. As 
pginas que se seguem iro ater-se a esboar um ponto de vista, o da constituio das operaes, e situ-
lo o mais objetivamente possvel no conjunto do modo de ver do autor sobre outros aspectos da Psicologia. 
No primeiro captulo, procuramos caracterizar o papel da inteligncia tomando em consilerao os 
processos adaptativos em geral; no captulo 2, procuramos mostrar, mediante exame da psicologia do 
pensamento% que o ato inteligente consiste essencialmente em grupar operaes segundo certas 
estruturas definidas; no captulo seguinte, tendo concebido a inteligncia como forma de equilbrio a que 
tendem todos os processos cognitvos, examinaremos os problemas suscitados pelas relaes que ela 
mantm com a percepo; as relaes da inteligncia com o hbito so tratadas no captulo 4; no captulo 5, 
as questes sobre o seu desenvolvimento; finalmente, no captulo 6, os problemas da socializao da 
inteligncia.

A despeito da grande quantidade e do valor dos trabalhos conhecidos sobre essa questo, a teoria 
psicolgica dos mecanismos intelectuais ainda est em seus primordios, e mal se comea a vislumbrar o 
gnero de rigor que ela poderia comportar. Neste trabalho, procuro exprimir esse sentimento da pesquisa 
em curso.

Este pequeno volume encerra a substncia das aulas que tive o privilgio de dar no Collge de France, em 
1942, numa hora em que os universitrios sentiam a necessidade de mostrar sua solidariedade diante da 
violncia, e sua fidelidade aos valores permanentes. Ao reescreverestas pginas, no poderia esquecer o 
acolhimento de meu

8               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

auditrio, bem como os contatos que tive naquele momento com meu mestre P. Janet e com meus amigos H. 
Piron, H. Wallon, P. Guillaume, G. Bachelard, P. Masson-oursel, M. Mauss e tantos outros, sem esquecer 
meu querido amigo I. Meyerson, que naquela poca integrava a Resstncia.

Prefcio  Segunda Edio

Este opsculo teve, de um modo geral, acolhimento favorvel, o que nos d coragem para public-lo de 
novo, sem alteraes. Contudo, uma critica tem sido freqente  nossa concepo de inteligncia: acusam-
nos de no nos referirmos ao sistema nervoso, nem ao seu amadurecimento durante o desenvolvimento 
individual. Cremos que haja nisso apenas um mal-entendido. Tanto a noo de Ila.ssimilao como a 
passagem dos ritmos s regulaes, e destas s operaes reversveis, exigem uma interpretao 
neurolgica ao mesmo tempo que psicolgica (e lgica). Ora, longe de contraditrias, essas duas 
interpretaes s podem harmonizar-se. Teremos ensejo de oferecer as explicaes sobre essa questo 
fundamental, mas no nos sentimos no direito de o fazer antes de terminarmos as pesquisas psicogenticas 
de pormenor, de que esse pequeno livro representa precisamente a sntese.

PRIMEIR PARTE

A NATUREZA DA INTELIGNCIA

Inteligncia e Adaptao Biolgica

Qualquer explicao psicolgica cedo ou tarde acaba por apoiar-se na biologia ou na lgica (ou na 
sociologia; mas esta, por sua vez, chega  mesma alternativa). Para alguns, os fenmenos mentais s se 
tornam compreensveis quando relacionados com o organismo. Esse modo de pensar impe-se, de fato, no 
estudo das funes elementares (percepo, motricidade, etc.) de que a inteligncia depende nos seus 
primrdios. Mas n o vemos como a neurologia poder jamais explicar por que 2 mais
2 igual a quatro, nem por que as leis da deduo se impem ao esprito, imperiosamente. Da a segunda 
tendncia, que consiste em considerar como irredutveis as relaes lgicas e matemticas, e incluir em sua 
anlise tambm as funes intelectuais superiores. Trata-se apenas de saber se a lgica, concebida como 
escapando s tentativas de explicao da psicologia experimental, poder legitimamente explicar seja o 
que for na experincia psicolgica como tal. A lgica formal, ou logstica, constitui simplesmente a 
axiomtica dos estados de equilbrio do pensamento, e a cincia concreta correspondente a essa axiomtica 
nada mais  que a prpria psicologia do pensamento. Distribudas desse modo as funes, a psicologia da 
inteligncia certamente deve continuar  tomando em cmsiderao os descobrimentos logsticos, mas estes 
jamais conseguiro ditar ao psiclogo suas prprias solues: iro limitar-se a sugerir problemas ao 
psiclogo.

14               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Temos, portanto, de partir dessa dupla natureza da inteligncia: biolgica e lgica. Os dois captulos 
seguintes tm por objetivo delimitar essas questes prvias, e sobretudo procurar reduzir  maior unidade 
possvel, no estado atual dos conhecimentos, esses dois aspectos fundamentais, embora aparentemente 
irredutveis, da vida do pensamento.

Situao da inteligncia na organizao mental

Toda conduta apresenta-se como uma adaptao ou, melhor dizendo, readaptao, seja uma atividade 
visvel, perceptvel do exterior, ou interiorizada em pensamento.
0 indivduo s age sob o imprio da necessidade, isto , se for por um momento rompido o equilbrio entre 
o meio e o organismo; nesse caso, qualquer ao tende a restabelecer o equilbrio, o que significa 
precisamente readaptar o organismo (Claparde). Conduta , pois, um caso particular de intercmbio entre 
o mundo exterior e o indivduo, mas, contrariamente aos intercmbios psicolgicos, que so de natureza 
material e implicam transformao dos corpos em questo, as condutas estudadas pela psicologia so de 
ordem funcional e se efetuam a distncias cada vez maiores, no espao (percepo, etc.) e no tempo 
(memria, etc.), bem como em conformidade com trajetrias cada vez mais complexas (retornos, desvios, 
etc.). A conduta, assim concebida em termos de intercmbios funcionais, implica por si dois aspetos 
essenciais e intimamente interdependentes: o aspecto afetivo e o cognitivo.

Muito j se debateu sobre as relaes entre afetividade e conhecimento. De acordo com P. Janet,  
preciso distinguir ao primria, ou relao entre o sujeito e o objeto (inteligncia, etc.) e ao 
secundria, ou rea o do sujeito  sua prpria ao: esta reao, que constitui os sentimentos 
elementares, consiste em regulaces da ao primria e garante o consumo das energias internas 
disponveis. Mas ao lado dessas regulaes, que determinam efetivamente o energtico ou a economia 
internas da conduta, parece-nos necessrio reservar um lugar para aquelas que regem sua finalidade ou 
seus valores, e esses valores caracterizam um intercmbio

A NATUREZA DA INTELIGNCIA               15

energtico, ou econmico, com o meio ambiente exterior. De acordo com Claparde, os sentimentos 
atribuem objetivo  conduta, ao passo que a inteligncia restringe-se a fornecer os meios (a tcnica). 
Existe, porm, uma compreenso de objetivos e meios, e ela chega inclusive a modificar incessantemente a 
finalidade da ao. Na medida em que o sentimento dirige a conduta ao atribuir valor a seus fins, devemos 
nos limitar a dizer que ele fornece as energias necessrias para a ao, ao passo que o conhecimento lhe 
impe =a estrutura. Da a soluo proposta pela chamada psicologia da forma: a conduta implica um campo 
total, abrangendo o sujeito com os objetos, e a dinmica desse campo constitui os sentimentos (Lewin), 
enquanto sua estruturao  assegurada pelas percepes, motricidade e inteligncia. Adotaremos frmula 
anloga, salvo o esclarecimento de que nem os sentimentos, nem as formas cognitivas dependem 
exclusivamente do campo atual, mas tambm de toda a histria anterior do sujeito ativo. Por conseguinte, 
diremos apenas que cada conduta implica um aspecto -energtico ou afetivo, e um aspecto estrutural ou 
cognitivo, o que engloba de fato os diversos pontos de vista precedentes.

Todos os sentimentos consistem, de fato, ou em regulaes das energias internas (sentimentos 
fundamentais de P. Janet, interesse de Claparde, etc.), ou em normalizaes das trocas de energia com 
o exterior (valores de todos os tipos, reais ou fiducirios, desde as desejabilidades prprias do campo 
total de K. Lewin, e as valncias de E. S. Russe11, at os valores interindividuais ou sociais). Deve-se 
conceber a prpria vontade como um jogo de operaes afetivas, portanto energticas, referente a 
valores superiores, e tornando-os suscetveis de reversibilidade e conservao (sentimentos morais etc.), 
paralelamente com o sistema das operaes lgicas em relao aos conceitos.

Mas se toda conduta, sem exceo, implica assim uma energtica ou economia, que constitui seu aspecto 
afetivo, as trocas que ela suscita como meio comportam igualmente uma forma ou estrutura, determinante 
dos diversos circuitos possveis que se estabelecem entre o sujeito e os objetos. Nessa estruturao da 
conduta  que consiste seu aspecto cognitivo. Percepo, aprendizagem sensrio-motora (hbito, etc.), ato 
de compreenso, racio-

16               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

cnio etc. equivalem todos a estruturar, de um modo ou de outro, as relaes entre o meio e o organismo. 
Nisso apresentam certo parentesco entre si, que os contrasta com os fenmenos afetivos. A seu respeito, 
falaremos de funes cognitivas, no sentido amplo (abrangendo, ademais, as adaptaes sensrio-motoras).

Vida afetiva e vida cognitiva so pois inseparves, embora distintas. E so inseparveis porque todo 
intercmbio com o meio pressupe ao mesmo tempo estruturao e valorizao, mas nem por isso ficaro 
menos dstintas, visto que esses dois aspectos da conduta no podem reduzir-se um ao outro. Assim  que 
no se poderia raciocinar, inclusive em matemtica pura, sem vivenciar certos sentimentos, e que, por outro 
lado, no existem afeies sem um mnimo de compreenso ou de discriminao. 0 ato de inteligncia 
pressupe, pois, uma regulao energtica interna (interesse, esforo, facilidade, etc.) e externa (valor das 
solues procuradas e dos objetos sobre os quais recai a pesquisa), mas essas duas regulaes so de 
natureza afetiva e comparveis a todas as demais regulaes dessa ordem. Reciprocamente, os elementos 
perceptivos ou intelectuais que deparamos em todas as manifestaes intelectuais emocionais interessam  
vida cognitiva como qualquer reao perceptiva ou inteligente. 0 que o senso comum chama de 
sentimentos e inteligncia, considerando-os como duas faculdades opostas entre si, so simplesmente 
as condutas relativas s pessoas e as que se referem a idias ou coisas: mas em cada uma dessas condutas 
intervm os mesmos aspectos afetivos e cognitivos da ao, aspectos sempre reunidos de fato e que 
portanto no caracterizam de modo algum faculdades independentes.

Alm do mais, a inteligncia em si no consiste numa categoria isolada e descontnua de processos 
cognitivos. Rigorosamente falando, ela no  uma estruturao entre as demais:  a forma de equilbrio a 
que tendem todas as estruturas cuja formao se deve procurar desde a percepo, o hbito e os 
mecanismos sensrio-motores elementares. Com efeito, deve-se compreender que, se a inteligncia no  
uma faculdade, essa negao acarreta certa continuidade funcional radical entre as formas superiores de 
pensamento e o conjunto dos tipos inferiores de adaptao cognitiva ou motora: a inteligncia, pois, s 
poderia ser a foma de equilbrio a que tendem estes.

A NATUREZA DA INTELIGNCIA              17

Evidentemente, isso no significa que qualquer raciocnio consista de uma coordenao de estruturas 
perceptivas, nem que perceber equivalha a raciocinar de modo inconsciente (muito embora ambas essas 
teses tenham defensores), porque a continuidade funcional no exclui de modo algum a diversidade nem 
mesmo a heterogeneidade das estruturas. Deve-se conceber cada estrutura como uma forma particular de 
equilbrio, mais ou menos estvel em seu campo restrito e que se torna instvel nos limites deste. Mas essas 
estruturas, escalonadas por degraus, devem considerar-se como se sucedendo segundo uma lei de 
evoluo tal que cada uma assegure um equilbrio mais amplo e mais estvel aos proceessos que intervm 
j no seio da precedente. Desse modo, a inteligncia no passa de termo genrico designando as forma 
superiores de organiza o ou de equilbrio das estruturaes cognitivas.

Essa maneira de falar equivale, primeiro, a insistir no papel capital da inteligncia na vida do esprito e do 
pr prio organismo: equilbrio estrutural ao mesmo tempo mais malevel e mais durvel da conduta, a 
inteligncia  essencialmente um sistema de operaes vivas e atuantes. Ela  a adaptao mental mais 
extremada, isto , o instrumento indispensvel do intercmbio entre o sujeito e o universo, enquanto seus 
circuitos ultrapassam os contatos imediatos e momentneos para atingir as relaes extensas e estveis. Por 
outro lado, porm, essa mesma linguagem impede-nos de delimitar a inteligncia quanto a seu ponto de 
partida: ela  ponto de chegada, e suas fontes se confundem com as da adaptao sensriomotora em geral, 
assim como, alm desta, com as da prpria adaptao biolgica.

Natureza adaptativa cla inteligncia

Se inteligncia  adaptao, convm antes de mais nada definir o que vem a ser adaptao. Ora, a fim de 
afastar as dificuldades da linguagem finalista, a adaptao deve ser caracterizada como um equilbrio entre 
as atuaes do organismo sobre o meio e as atuaes inversas. Pode-se falar de assimilao, tomando este 
ter-

18               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

mo no sentido mais amplo, referindo-nos  atividade do organismo sobre os objetos que o cercam, na 
medida em que essa atividade dependa das condutas anteriores sobre os mesmos objetos ou sobre outros 
objetos anlogos. Com efeito, toda relao entre um ser vivo e seu meio apresenta esse carter especifico: 
o primeiro, em vez de estar submetido passivamente ao segundo, modifica-o ao impor-lhe certa estrutura 
prpria. ]@ desse modo que, do ponto de vista fisiolgico, o organismo absorve substncias e as transforma 
em funo da sua prpria. Ora, psicologicamente acontece o mesmo, exceto em que as modificaes que 
ento ocorrem no so de ordem substancial, mas exclusivamente funcional, e so determinadas pela 
motricidade, pela percepo ou pela conjugao de atividades reais ou virtuais (operaes conceptuais, 
etc.). Assimilao mental , pois, a incorporao dos objetos nos esquemas da conduta, e esses esquemas 
nada so do que esboos das atividades suscetveis de serem repetidas ativamente.

Reciprocamente, o meio age sobre o organismo, e pode-se designar essa atuao inversa  maneira dos 
bilogos, mediante o termo acomodao% tendo-se em mente que o ser vivo jamais sofre puramente a 
reao dos corpos que o circundam, mas que ela apenas modifica o ciclo assimilador ao acomodar o ser 
vivo a esses corpos. Psicologicamente, encontramos o mesmo processo, no sentido em que a presso das 
coisas culmina sempre, no numa submisso passiva, mas em simples modificao da atividade que recai 
sobre elas. Dito isto, pode-se ento definir adaptao como um equilbrio entre assimilao e acomodao, 
o que equivale a dizer: equilbrio dOS intercmbios entre o sujeito e os objetos.

Ora, no caso da adaptao orgnica, sendo esses intercmbios de natureza material, eles implicam uma 
interpenetrao entre uma parte qualquer do corpo vivo e determinado setor do meio externo. Pelo 
contrrio, a vida psicolgica comea, como vimos, com os intercmbios funcionais, isto , no ponto em que a 
assimilao n o mais altera de modo fsico-qumico os objetos assimilados, mas os incorpora simplesmente s 
formas da atividade prpria (e em que a acomodao apenas modifica essa atividade). Compreende-se 
ento que,  interpenetrao direta do organismo e meio, superpem-se, com a vida mental, intercmbios 
imediatos entre o sujeito e

A NATUREZA DA INTELIGNCIA               19

os objetos, que se efetuam a distncias espao-temporais cada vez maiores e segundo trajetos cada vez 
mais complexos. Todo o desenvolvimento da atividade mental, da percepo e do hbito at a 
representao e a memria, assim como s operaes superiores do raciocnio e do pensamento formal,  
assim funo dessa distncia paulatinamente aumentada dos intercmbios; por conseguinte, do equilbrio 
entre uma assimilao de realidades cada vez mais distanciadas da atividade prpria e uma acomodao 
destas quelas.

E nesse sentido que a inteligncia, cujas operaes lgicas constituem um equilbrio ao mesmo tempo 
mvel e permanente entre o universo e o pensamento, estende e conclui o conjunto dos processos 
adaptativos. A adaptao orgnica no assegura, com efeito, seno um equilbrio imediato, e, por 
conseguinte, limitado, entre o ser vivo e o meio atual. As funes cognitivas elementares, tais como a 
peroepo, o hbito e a memria, estendem-na no sentido da extenso presente (contato perceptivo com 
os objetos distantes) e antecipaes ou reconstituies prximas. S, a inteligncia, capaz de todos os 
desvios e retornos pela atividade e pelo pensamento, tende ao equilbrio total, tendo em mira assimilar o 
conjunto do real e nele acomodar a atvidade, que ela liberta de sua sujeio ao hic e ao nunc iniciais.

Definio da Inteligncia

Se nos ativermos a definir inteligncia, o que se impe, sem dvida, para delimitar o domnio de que nos 
ocuparemos sob essa designao, bastar entendermo-nos sobre o grau de complexidade dos intercmbios 
a distncia, a partir dos quais ser conveniente cham-los de inteligentes. No caso, porm, surgem 
dificuldades, visto que a linha inferior de demarcao  arbitrria. Para alguns estudiosos, como Claparde 
e Sterri, a inteligncia  uma adaptao mental s circunstncias novas. Claparde contrape assim a 
inteligncia ao instinto e ao hbito, que so adaptaes, hereditrias ou adquiridas, nas circunstncias que 
se repetem; mas para ele a inteligncia tem incio a partir dos tateios empricos mais elemen-

20               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

tares (origem dos tateios interiorizados que iro caracterizar posteriormente a procura da hiptese). Para 
B hler, que divide tambm as estruturas em trs tipos (instinto, adestramento e inteligncia), essa definio 
 demasiado ampla: a inteligncia aparece apenas com as atividades de compreenso sbita (AhaErIffinis), 
ao passo que o tateio pertence  fase de adestramento. Por sua vez, tambm KhIer reserva o termo 
inteligncia para as atividades de reestruturao brusca e exclui dentre essas o tateio. j2 inegvel que 
este aparece desde a formao dos hbitos mais simples, os quais so, por sua vez, no momento em que se 
constituem, adapta es a circunstncias novas. Por outro lado, a questo, a hiptese e o controle, cuja 
reunio caracteriza tambm a inteligncia, ao ver de Claparde, esto j em germe nas necessidades, nos 
ensaios e erros e na sano emprica prpria das adaptaes sensrio-motoras menos evoludas. Por 
conseguinte, de duas, uma: ou nos contentamos com uma definio funcional, sob o risco de abranger a 
quase totalidade das estruturas cognitivas, ou ento escolhemos como critrio certa estrutura particular: mas 
a escolha permanecer convencional e correndo o risco de desprezar a continuidade real.

Contudo,  ainda possvel definir a inteligncia pelo sentido em que se orienta seu desenvolvimento, sem 
insistir nas questes de fronteiras, que se convertem em questo de fases ou formas sucessivas de 
equilbrio. Podemos, ento, colocar-nos simultaneamente nos pontos de vista da situao funcional e do 
mecanismo estrutural. Quanto ao primeiro desses pontos de vista, pode-se dizer que uma conduta  tanto 
mais inteligente quanto as trajetrias entre o sujeito e os objetos de sua atividade deixam de r simples e 
exigem uma composio progressiva. Assim e que a percepo comporta apenas trajetos simples, mesmo 
que o objeto percebido esteja muito distante. Poderia parecer que um hbito fosse mais complexo, mas suas 
articulaes espao-temporais fundem-se num todo nico, sem partes independentes nem componveis 
distintamente. Pelo contrrio, um ato de inteligncia, tal como o de achar um objeto escondido, ou a 
significao de uma imagem, implica certa quantidade de trajetos (no espao e no tempo), ao mesmo tempo 
isolveis e suscetveis de composio. Do ponto de vista do mecanismo estrutural, por conseguinte, as 
adaptaes sensrio-motoras e'.ementares so ao mesmo tempo rgidas e de sentido nico, ao

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 21

passo que a inteligncia envereda na direo da mobili. dade reversvel. Veremos que, precisamente nisso 
cons. titui-se o carter essencial das operaes que caracterizam a lgica viva e em atuao. Mas se v ao 
mesmo tempo que a reversibilidade nada mais  que o critrio do equilbrio (como nos ensinaram os 
fsicos). Definir a inteligncia pela reversibilidade progressiva das estruturas mveis que ela constri  o 
mesmo que dizer, em outras palavras, e sob forma nova, que a inteligncia constitui o estado de equilbrio 
no sentido a que tendem todas as adaptaes sucessivas de ordem sensrio-motora e cognitiva, assim como 
todas as trocas assimiladoras e acomodadoras entre o organismo e o meio.

Classificao das inierpretaes possveis da inteligncila

Do ponto de vista biolgico, a inteligncia aparece, pois, como uma das atividades do organismo, ao passo 
que os objetos aos quais ela se adapta constituem setor particular do meio ambiente. Mas, na medida em que 
os conhecimentos elaborados pela inteligncia realizam um equilbrio privilegiado, visto ser termo 
necessrio dos intercmbios sensrio-motores e representativos, quando da extenso indeterminada das 
distncias no espao e no tempo, a inteligncia cria o prprio pensamento cientfico, inclusive o 
conhecimento biolgico. , portanto, natural que as teorias psicolgicas da inteligncia venham inserir-se 
entre as teorias biolgicas da adaptao e teorias do conhecimento em geral. Nada h de surpreendente 
em que haja parentesco entre as teorias psicolgicas e as doutrinas epistemolgicas, visto que, se a 
psicologia 111 bertou-se das tutelas filosficas, persiste felizmente algum vnculo entre o estudo das 
funes mentais e o dos processos do conhecimento cientfico. Mas  sobretudo interessante que exista um 
paralelismo, at bastante estreito, entre as grandes doutrinas biolgicas da variedade evolutiva (portanto, 
da adaptao) e as teorias restritas da inteligncia, na medida em que fato psicolgico:  freqente, de fato, 
que os psiclogos no tenham conscincia das correntes de inspirao biolgica que do vida s suas 
interpretaes, mesmo quando, s vezes, os bilogos tenham adotado naturalmente uma posio 
psicolgica de

22               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

preferncia a outras possveis (ef. o papel do hbito em Lamarck, ou da concorrncia e luta pela vida em 
Darwin); alm do mais, dado o parentesco dos problemas, pode haver simples convergncia de solues, e 
esta confirma ento aquele.

Do ponto de vista biolgico, as relaes entre o organismo e o meio comportam seis interpretaes 
possveis, de acordo com as combinaes seguintes (todas as quais deram ensejo a solues distintas, 
clssicas ou atuais) : ou se rejeita a idia de uma evoluo propriamente dita (1) ou se admite a sua 
existncia (II); por outro lado, nos dois casos (I e ID, atribui-se as adaptaes ou a fatores externos ao 
organismo (1), ou a fatores internos (2), ou a uma interao entre os dois (3). Do ponto de vista fixista (I), 
pode-se assim atribuir a adaptao a certa harmonia pr"stabelecida entre o organismo e as propriedades do 
meio Q,), a um preformismo que permita ao organismo reagir a qualquer situao tomando reais suas 
estruturas virtuais (I,,), ou ainda ao surgimento de estruturas de conjunto, irredutveis a seus elementos e 
determinadas simultaneamente de dentro e de fora (13). Quanto aos pontos de vista evolucionistas (H), eles 
explicam paralelamente as variaes adaptativas, seja pela presso do meio (lamarckismo, [III] seja pelas 
mutaes endgenas com posterior sele o (mutacionismo (112)2 ou por uma interao progressiva dos 
fatores internos e externos (113).

1 A harmonia pr-estabelecida (I,)  a soluo inerente ao criacionismo clssico e constitui a nica explicao da adaptao de que dispe de 
fato o vitalismo sob forma pura. 0 preformismo (12) CSteve por vezes ligado s solues vitalistas, mas pode tornar-se independente dele e se 
perpetua, no raro, sob aparncias mutacionistas entre os autores que negam  evoluo qualquer carter construtivo, e consideram todo 
carter novo como efetivao de potencialidades at ento simplesmente latentes. Pelo contrrio, o ponto de vista da emergncia (I.) pretende 
explicar o novo que surge nas hierarquias dos seres mediante estruturas de conjunto irredutveis aos elementos do estgio anterior. Desses 
elementos emerge uma totalidade nova, que  adaptativa, porque abrangendo num todo indissocivel os mecanismos internos e suas relaes 
com o meio exterior. Admitindo ao mesmo tempo o fato da evoluo, a hiptese da emergncia a reduz assim a uma seqncia de hipteses 
irredutveis umas s outras, o que a fragmenta numa sria de criaes distintas.
2 Nas explicaes mutacionistas da evoluo, a seleo, se deve ao prprio meio. Para Darwin, ela estava relacionada com a competio.

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 23

Ora,  notvel verificar-se o quanto se encontram as mesmas grandes correntes de pensamento na 
interpretao do prprio conhecimento, na medida em que relao entre o sujeito pensante e os objetos.  
harmonia pr-estabelecda, prpria do vitalismo criacionista, corresponde o realismo dessas doutrinas que 
vem na razo uma adequao inata a formas ou essncias eternas (I,); ao preformismo corresponde o 
apriorismo que explica o conhecimento por estruturas internas anteriores  experincia (4), e  
emergncia das estruturas n o construdas corresponde a fenomenologia contempornea, que analisa 
apenas as diversas formas de pensamento, recusando-se, ao mesmo tempo, a retir-las geneticamente umas 
das outras e a dissociar nelas a parte do sujeito e a dos objetos (13). As interpretaes evolucionistas 
encontram-se, por outro lado, nas correntes epistemolgicas contribuindo para a construo progressiva da 
razo; ao lamarckismo corresponde o empirismo que explica o conhecimento pela presso das coisas (II,); 
ao mutacionismo correspondem o convencionalismo e o pragmatismo, que atribuem a adequao do 
esprito ao real  livre criao de noes subjetivas selecionadas com o tempo segundo um princpio ae 
simples comodidade (112) - 0 interacionismo, por fim, enseja um relativismo que far do conhecimento o 
produto de uma colaborao indissocivel entre a experincia e a deduo (113).

Sem insistir nesse paralelismo, sob sua forma geral, ser conveniente observar agora que as teorias 
contemporneas e propriamente psicolgicas da inteligncia inspiram-se de fato nas mesmas correntes de 
idias,ora dominando a. nfase no biolgico, ora se fazendo sentir as influncias filosficas em relao com 
estudo do prprio conhecimento.

Em primeiro lugar, no h dvida alguma de que uma oposio essencial distingue duas espcies de 
interpretaes: as que, ao mesmo tempo reconhecendo a existncia dos fatos do desenvolvimento, no 
podem eximir-se de considerar a inteligncia como um dado primeiro, e com isso reduzem a evoluo 
mental a uma espcie de tomada de conscincia paulatina. sem construo verdadeira, e as que pretendem 
explicar a inteligncia pelo seu prprio desenvolvimento. Notemos, de resto, que as duas escolas 
colaboram no descobrimente, e anlise dos prprios fatos experimentais. Eis por que ser pertinente 
classificar obje-

24               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

tivamente todas  as atuais interpretaes de conjunto, na medida em que     serviram para ressaltar esse ou 
aquele aspecto especial dos fatos a explicar: a linha de demarcao entre as teorias psicolgicas e as 
doutrinas filosficas , de fato, algo a procurar nessa aplicao  experincia, e no nas hipteses iniciais.

Entre as teorias fixistas, h em primeiro lugar as que continuam fiis, apesar de tudo,  idia de uma 
intelgncia-faculdade, espcie de conhecimento direto dos seres fsicos e das idias lgicas ou 
matemticas, mediante harmonia pr-estabelecida entre o intelecto e a realidade (I,). Deve-se confessar 
que poucos psiclogos experimentais continuam fiis a essa hiptese. Mas os problemas suscitados pelas 
fronteiras comuns  Psicologia e  anlise do pensamento matemtico deram ensejo a certos cultores da 
logstica, como Bertrand Russell, de dar rigor a essa concepo de inteligncia e mesmo de querer impIa 
 prpria Psicologia (ef. A Anlse da Mente*).

Mais em voga  a hiptese Q2) segundo a qual a inteligncia  determinada por estruturas internas, que 
tampouco se constroem, mas se explicitam paulatinamente, no curso do desenvolvimento, graas a uma 
reflexo do pensamento sobre si mesmo. Essa corrente apriorista inspirou de fato boa parte dos trabalhos 
da Denkpsychologie alem, e acha-se, por conseguinte, na origem de numerosas pesquisas experimentais 
sobre o pensamento, mediante os conhecidos mtodos de introspeco provocada, que se diversificaram a 
partir de 1900-1905 at hoje. Isso no significa, evidentemente, que todo emprego desses mtodos de 
investigao conduza a essa explicao da inteligncia: a obra de Binet atesta o contrrio. Mas com K. 
Bhler, Selz e muitos outros, a inteligncia acabou por tomar-se como um espelho da lgica% impondo-se 
esta de dentro sem explicao causal possvel.

Em terceiro lugar (L), aos pontos de vista da emergncia e da fenomen    logia (com influncia histrica 
efetiva desta ltima) corresponde uma teoria recente da inteligncia, que renovou as questes de modo 
muito sugestivo: a teoria da Forma (Gestalt). Surgida das pesquisas experimentais sobre a percepo, a 
noo de forma de conjunto consiste em admitir que uma totalidade

* Bertrand Rtissell, A Anlise da Mente, publicado por esta editora. (N. do T.)

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                25

 irredutvel aos elementos que a compem, enquanto regida por leis prprias de organizao ou de 
equilbrio. Ora, aps haver analisado essas leis de estruturao no domnio perceptivo e as ter encontrado 
nos terrenos da motricidade, da memria, etc., a Teoria da Forma aplicou-se  inteligncia, e sob seus 
aspectos tanto reflexivos (pensamento lgico) quanto sensrio-motores (inteligncia animal e infantil antes 
da fala). Desse modo foi que Khler, a propsito dos chipanzs, e Wertheimer, a propsito do silogismo, 
etc., falaram de reestruturaes imediatas, procurando explicar o ato da compreenso pela pregnncia 
de estruturas bem organizadas, que nem so endgenas nem exgenas, mas abrangem o sujeito e os 
objetos num circuito total. Ademais, essas Gelstalt, comuns  percepo,  motricidade e  inteligncia, no 
evoluem, mas representam formas permanentes de equilbrio independentes do desenvolvimento mental 
(pode-se, quanto a isso, encontrar todos os intermedirios entre o apriorismo e a teoria da Forma, embora 
essa se coloque em geral na perspectiva de um realismo fsico ou fisiolgico das estruturas).

Essas so as trs principais teorias no-genticas da inteligncia. Verifica-se que a primeira reduz a 
adaptao cognitiva a uma acomodao pura, visto que o pensamento no passa para ela de um espelho de 
idias inteiramente feitas; que a segunda a reduz a uma assimilao pura, visto que as estruturas 
intelectuais so consideradas por ela como exclusivamente endgenas; e que a terceira confunde 
assimilao com acomodao num nico todo, visto que s existe, do ponto de vista da Gestalt, o circuito 
que relaciona os objetos ao sujeito, sem atividade deste nem existncia isolada daqueles.

Quanto s interpretaes genticas, encontramos aquelas que explicam a inteligncia apenas pelo meio 
exterior (empirismo associacionista correspondente ao lamarckismo); pela atividade do sujeito (teoria do 
tateio correspondente, no plano das adaptaes individuais, ao mutacionismo no plano das variaes 
hereditrias), e pela relao entre o sujeito e os objetos (teoria operatria).

0 empirismo (I11) j no mais  sustentado sob a forma associacionista pura, a no ser por alguns autores de 
tendncia sobretudo fisiolgica, que pensam poder reduzir a inteligncia a um jogo de condutas 
condicionadas. Mas, sob formas mais maleveis, encontramos o empiris-

26               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

mo nas interpretaes de Rignano, que reduz o raciocnio  experincia mental, e sobretudo na 
interessante teoria de Spearman, ao mesmo tempo estatstica (anlise dos fatores da inteligncia) e 
descritiva: desse segundo ponto de vista, Spearman reduz as operaes da inteligncia  apreenso da 
experincia e  educo das relaes e dos correlatos, isto , a uma interpretao mais ou menos 
complexa das relaes dadas no real. Essas relaes no so pois construdas, mas descobertas por simples 
acomodao  realidade exterior.

A noo das tentativas e erros (112) ensejou vrias interpretaes da aprendizagem e da prpria inteligncia. 
A teoria do tateio elaborada por Claparde constitui sob esse aspecto a mais apurada atualizao: a 
adaptao inteligente consiste de tentativas ou hipteses, devidas  atividade do sujeito e  sua seleo 
efetuada no decorrer do tempo sob a presso da experincia (xitos ou fracassos). Esse controle emprico, 
que seleciona de incio as tentativas do sujeito, interioriza-se em seguida sob a forma de previses devidas 
 conscincia das relaes, assim coffio o tateio motor se prolonga em tateio representativo ou imaginao 
de hipteses.

Por fim, a nfase dada s interaes do organismo e meio conduz  teoria operatria da inteligncia (113). 
De acordo com esse ponto de vista, as operaes intelectuais cuja forma superior  lgica e matemtica, 
constituem atividades reais, sob o duplo aspecto de produo peculiar ao sujeito e de uma experincia 
possvel na realidade. 0 problema ento  compreender como as operaes se elaboram a partir da 
atividade material e mediante que leis de equilbrio sua evoluo  regida: as operaes so assim 
concebidas como grupando-se necessariamente em sistemas de conjunto, comparveis s formas da 
teoria da Gestalt, mas que, longe de serem estticas e dadas desde o incio, so mveis, reversveis, e no 
se encerram em si mesmas, seno no final do processo gentico ao mesmo tempo individual e social que as 
caracteriza@3

Desenvolveremos este sexto ponto de vista. Quanto s teorias do tateio e s concepes empiristas, 
deixaremos

3 Notemos, quanto a isso, que, embora a natureza social das operaes se identifique com seu carter de atividade efetiva e com seu g-
upamento gradual, reservamos, porm, para clareza da exposio,, a discusso dos fatores sociais do pensamento para o Captulo 6.

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                27

para analis-las sobretudo a propsito da inteligncia sensrio-motora e suas relaes com o hbito (Cap. 
4). A teoria da Forma exige discusso em separado, que concentraremos no problema essencial das 
relaes entre a percepo e a inteligncia (Cap. 3). No que se refere a doutrinas de uma inteligncia pr-
adaptada s entidades lgicas subsistentes em si ou quanto ao pensamento que reflita uma lgica a priori, 
vamos encontr-las no incio do captulo seguinte. De fato, elas suscitam, ambas, aquilo que poderamos 
chamar de a questo prvia do estudo psicolgico do intelecto: poder-se- esperar uma explicao 
propriamente dita da inteligncia, ou constituir esta um fato primeiro irredutvel, na medida em que 
espelho de uma realidade anterior a toda experincia, e que seria a lgica?



A Psicologia do Pensamento e a Natureza Psicolgica das Operaes Lgicas

A possibilidade de uma explicao psicolgica da inteligncia depende da maneira como se interpretem as 
operaes lgicas: sero elas reflexo de uma realidade inteiramente feita ou expresso de uma atividade 
verdadeira? S a noo de uma lgica axiomtica permite, sem dvida,. escapar a essa alternativa, ao 
submeter as operaes reais do pensamento  interpretao gentica, ao mesmo tempo conservando o 
carter irredutvel de suas conexes formais,. enquanto estas so analisadas axiomaticamente: o lgico 
procede, ento, como, o gemetra quanto aos espaos que, constri dedutivamente, ao passo que o 
psiclogo se assemelha ao fsico que mede o espao do mundo real. Em outras palavras, o psiclogo estuda 
o modo como se constitui o equilbrio de fato das aes e operaes, ao passo, que o lgico analisa o 
mesmo equilbrio sob sua forma ideal, isto , tal como ele seria se fosse concretizado int<3gralmente, e tal 
como se impe assim, normativamente, ao esprito.

A interpretao de Bertrand Russell

Comecemos com a teoria da inteligncia de Bertrand Russel, que assinala o mximo de submisso possvel 
da psicologia  logstica. Quando percebemos uma rosa branca, diz RusselI, concebemos ao mesmo tempo 
as noes

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 29

de rosa e brancura, e isso por um processo anlogo ao da percepo: apreendemos diretamente, e como 
de fora, os universais correspondentes aos objetos sensveis e subsistentes independentemente do 
pensamento do sujeito. Mas que dizer, ento, das idias falsas? Trata-se de idias como as demais, e as 
qualidades de falso e verdadeiro aplicam-se aos conceitos como h rosas brancas e rosas vermelhas. 
Quanto s leis que regem os universais e que determinam suas relaes, elas decorrem apenas da lgica, e 
a psicologia no pode seno curvar-se diante desse conhecimento prvio, que lhe  dado inteiramente 
feito.

Essa a hiptese. De nada vale rotul-la de metafsica ou metapsicolgica, porque choca o senso comum dos 
experimentadores: o do matemtico acomoda-se a ela muito bem, e a psicoolgia deve contar com os 
matemticos. Tese to radical como essa  mesmo de molde a fazer refletir. Em primeiro lugar, ela suprime 
a noo de operao, visto que, se captamos os universais de fora, no os construmos. Na expresso 1 + 1 
= 2, o sinal + nada mais designa seno uma relao, entre as duas unidades e de modo algum uma atividade 
que engendra o nmero 2: como o disse, claramente Couturat, a noo de operao  essencialmente 
antropomrfca. A teoria de Russell dissocia, pois, a fortiori, os fatores subjetivos do pensamento (crena, 
etc.) dos fatores objetivos (necessidade, probabilidade, etc.). Em suma, ela suprime o ponto de vista 
gentico . certo russelliano ingls dizia certa vez, para provar a inutilidade das pesquisas sobre o 
pensamento infantil, que o lgico se interessa pelas idias verdadeiras, ao passo que o psclogo acha 
prazer em descrever idias falsas.

Mas se deliberamos comear este captulo evocando as idias de Russell  para assinalar desde logo que a 
linha de demarcao entre o conhecimento logstico e a psicologia no pode ser transposta impunemente 
pela primeira. Mesmo que, do ponto de vista da axiomtica, a operao aparecesse como despida de 
significao, seu antropomorfismo por si s lhe daria uma realidade mental. Geneticamente, as operaes 
so, de fato, atividades propriamente ditas, e no apenas verificaes ou apreenses de relaes. Quando 
se soma 1 mais 1,  o sujeito que rene duas unidades num todo, ao Dasso que os poderia manter isolados. 
Sem dvida, essa atividade, efetuando-se em pensamento, adquire um carter sui generis que a distir)gue 
das atividades quaisquer: ela  reversvel, isto , aps reu-

30                   PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

nir as duas unidades o sujeito pensante pode dissoci-las e voltar desse modo ao ponto de partida. Mas nem 
poi isso deixa de ser uma atividade propriamente dita, bem diferente da simples leitura de uma relao tal 
como 2 > 1. Ora, a isso no respondem os russellianos, a no ser por um argumento extrapsicolgico: trata-
se, dizem eles, de uma atividade ilusria      visto que 1 + 1 esto reunidos em
2 desde a eternidade (ou, como dizem Carnap e von Wittgenstein, visto que 1 + 1 = 2 no passa de 
tautologia, caracterstica dessa linguagem que  a sintaxe lgica e no abrangendo o pensamento em si, 
cujas fases so especificamente experimentais). De um modo geral, o pensamento matemtico se ilude 
quando acredita construir ou inventar, ao passo que se limita a descobrir os diversos aspectos de um 
mundo inteiramente feito (e, acrescentam os adeptos do Crculo de Viena, inteiramente tautolgico). Resta 
apenas, mesmo que recusemos  psicologia da inteligncia o direito de se ocupar da natureza dos seres 
lgico-matemticos, que o pensamento individual no poderia permanecer passivo diante de Idias (ou 
signos de uma linguagem lgica), muito menos diante de entidades fsicas, e que, para as assimilar, ela os 
reconstrua por meio de Operaes psicologicamente reais.

Acrescentemos que, do ponto de vista puramente logstico, as

afirmaes de Bertrand Russell e do crculo de Viena sobre a existncia independente dos seres lgico-matemticos, a respeito das operaes 
que parecem engendr-los, so to arbitrrias quanto do ponto de vista psicolgico: elas se chocaro sempre, com efeito, com a dificuldade 
fundamental do realismo das classes, relaes e nmeros, que  a das antinomias relativas  classe de todas as classes, e ao nmero infinito 
real. Pelo contrrio, do ponto de vista operatrio, ,os seres infinitos nada mais so que a expresso de operaes suscetveis de repetir-se 
infinitamente.

Por fim, da perspectiva gentica,  mais quimrica ainda a hiptese de uma apreenso direta, pelo 
pensamento, de universais subsistentes independentemente dele. Admitamos que as idias falsas do adulto 
tenham existncia ,comDarvel  das idias verdadeiras. Que pensar, ento, dos conceitos sucessivamente 
construidos pela criana no -curso dos estgios lieterogneos de seu desenvolvimento? E Os esquemas 
da inteligncia prtica pr-verbal, subsistiro eles, acaso, fora do sujeito? E os esquemas da inteligncia 
animal? Se reservarmos a subsistncia eterna

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                31

apenas s idias verdadeiras, em que idade comea a sua apreenso? E mesmo, de um modo geral, que as 
fases do desenvolvimento assinalem apenas aproximaes sucessivas da inteligncia em sua conquista de 
idias imutveis, que prova temos de que o adulto normal ou os lgicos da escola de Russell tenham 
chegado a capt-las e que no venham a ser ultrapassados sem cessar pelas geraes futuras?

A psicologia do pensamewto11: Bhler e Selz

As dificuldades que acabamos de encontrar na interpretao da inteligncia segundo Bertrand Russell e o 
c rculo de Viena encontram-se em parte na interpretao a que foi levada a Denkpsychologie alem, 
embora se trate agora exclusivamente de psiclogos. Certo  que, para os autores filiados a essa escola, a 
lgica no se impe ao esprito externamente, mas a partir de dentro: o conflito entre as exigncias da 
explicao psicolgica e as da deduo peculiar aos lgicos atenuou-se, sem dvida; mas como veremos, 
no est inteiramente suprimido, e a sombra da lgica formal continua a pairar, como dado irredutvel, 
sobre o empenho explicativo e causal do psiclogo, desde que ele no se coloque de uma perspectiva 
decididamente gentica. Ora, os psiclogos do pensamento alemes de fato se inspiraram em correntes 
propriamente aprorstas ou em correntes fenomenolgicas (a influncia de Edmund Husserl foi 
sobremodo ntida), com todos os matizes entre essas duas orientaes.

Enquanto mtodo, a psicologia do pensamento nasceu simultaneamente na Frana e na Alemanha. 
Decorrente inteiramente do associacionismo, Binet defendeu-a em seu opsculo sobre A Psicologia do 
Raciocnio, retomando a questo das relaes do pensamento com as imagens mediante um mtodo 
interessante de introspeco provocada, e descobriu, gracas a ele, a existncia de um pensamento sem 
imagens: as relaes, os julgamentos, as atitudes, etc. ultrapassam o quadro das imagens, e pensar no se 
reduz a contemplar o Epinal, afirma ele em 19,03, em seu Estudo Experimental da Inteligncia, Quanto a 
saber em que consistem essas atividades do pensamento que resistem  interpretao associacionista, Binet 
mantm-se reservado, limitando-se a observar o parentesco entre as atitudes

32               PSICOLOGIA DA INTIELIGNCIA

intelectuais e motoras, e conclui que, do ponto de vista exclusivo da introspeco, o pensamento  uma 
atividade inconsciente do esprito. Lio sobremodo instrutiva, mas sem dvida decepcionante quanto aos 
recursos de um mtodo que se revelou fecundo mais para a prpria formulao dos problemas do que para 
a sua soluo.

Em 19.00, Marbe (Experimentelle Untersuchungen -ber das Urtheil) indagava tambm em que o juizo 
difere de uma associao, e tinha esperana de resolver a questo por um mtodo de introspeco 
provocada. Marbe depaTou, ento, com os mais diversos estados de conscincia: representaes verbais, 
imagens, sensa es de movimentos, atitudes (dvida, etc.), mas nada de constante. Enquanto j observa 
que a condio necessria do juizo  o carter pretendido ou intencional da relao, ele no considera 
essa condio como suficiente, e conclui por uma negao que lembra a frmula de Binet: no h estado de 
conscincia constantemente ligado ao juizo e que possa ser considerado como seu determinante. Mas 
acrescenta, e esse acrscimo nos parece ter infludo diretamente ou indiretamente em toda a 
Denkpsychologie alem, que o juizo implica, por conseguinte, a interveno de um fator extrapsicolgico, 
visto que inerente  lgica pura. V-se que no exagervamos ao declarar o reaparecimento, neste novo 
plano, das dificuldades prprias do logicismo dos prprios platnicos.

Em seguida, vieram os trabalhos de Watt, Messer e Btihler, inspirados por Klpe, e que ilustraram a escola 
de Wurzburg. Watt, estudando, sempre por introspeco .provocada, as associaes fornecidas pelo 
sujeito em cumprimento a uma ordem dada (por exemplo, associaes por superordenao, etc.), descobriu 
que a ordem pode atuar, seja acompanhando-se de imagens, seja no estado de conscincia sem imagem (de 
Bewusstheit), ou, enfim, no estado inconsciente. Formula ento a hiptese de que a inlt-,eno de Marbe 
 precisamente efeito das ordens (externas e internas) e pensa resolver o problema do juizo ao fazer 
deste uma sucesso de estados condicionados por um fator psquico anteriormente consciente e de 
influncia durvel.

Messer acha demasiado vaga a descrio de Watt, visto que se aplica tanto a um jogo regulamentado 
quanto ao juizo, e retoma o problema mediante tcnica anloga: dis-

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 33

tingue ento associao regulamentada e o prprio jufzo, que ser uma relao aceita ou rejeitada, e 
dedica o essencial de seus trabalhos a analisar os diferentes tipos mentais de juizo.

K. BhIer, finalmente, assinala a culminao dos trabalhos da escola de Wurzburg. A pobreza dos 
resultados iniciais do mtodo de introspeco provocada parece-lhe resultar do fato de que as questes 
levantadas recaram sobre processos demasiado simples, e se aplica a partir da a analisar com seus sujeitos 
a soluo de problemas propriamente ditos. Os elementos do pensamento obtidos por esse processo 
dividem-se em trs categorias: as imagens, cujo papel  acessrio, e no essencial, como o pretendia o 
associacionismo; os sentimentos intelectuais o atitudes; finalmente, e sobretudo, os pensamentos em si 
mesmos (Bewusstheit). Por seu turno, estes se apresentam sob a forma ou de conscincia de relao 
(p.ex., A < B) , ou de  conscincia das regras (pex., pensar no inverso do quadrado da distncia sem 
saber de que objetos nem de que distncias se trata), ou de intenes (no sentido escolstico) puramente 
formais (p. ex., pensar na arquitetura de um sistema). Concebida desse modo, a psicologia do pensamento 
chega, pois, a uma descrio exata e, no raro, muito sutil, dos estados intelectuais, mas paralela  anlise 
lgica e no explicando de modo algum as operaes como tais.

Por outro lado, com os trabalhos de Selz, os resultados da escola de Wurzburg so ultrapassados no 
sentido de uma anlise do prprio dinamismo do pensamento, e no mais apenas de seus estados isolados. 
Selz, como Bhler, estuda a soluo dos prprios problemas; porm, procura menos descrever os 
elementos do pensamento do que captar como so obtidas as solues. Aps haverestudado, em 1913, o 
pensamento reprodutivo% tenta, portanto, em 192,2 (Zur Psychologie des produktiven Denkers und des 
Irrtums), descobrir o segredo da construo mental. Ora,  interessante verificar que, na medida em que as 
pesquisas so assim orientadas no sentido da atividade como tal do pensamento, elas se distanciam por isso 
mesmo do atomismo lgico, que consiste em classificar as relaes, juizos e esquemas isolados, e se 
aproximam das totalidades vivas, segundo o modelo ilustrado pela Psicologia da Forma e de que 
encontraremos, logo a seguir, um

34               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

modelo diferente no que se refere s operaes. Para Selz, com efeito, todo o trabalho do pensamento 
consiste em completar um conjunto (teoria da Kompiergnzung): a soluo de um problema no se deixa 
reduzir ao esquema estirnulo-respos-La, mas consiste em preencher as lacunas que subsistem no interior 
cLos complexos de noes e relaes. Quanao levantado um problema, dois casos podem ento se 
apresentar: ou se trata de uma que6to cie reconstituio,nao exigindo uma construo nova, e a soluo 
consiste simplesmente em recorrer aos complexos j existentes: vernica-se da a ---concretizao cio 
saber, portanto, pensamento apenas reproclutivo; ou ento se trata de verdadeiro problema, provando a 
existncia de lacunas no seio dos complexos at ento admitictos, e sendo necessrio concretizar no mais 
o saber, mas os m@odos de soluo (aplicao dos mtodos conhecidos ao caso novo), ou mesmo de 
abstrair novos mtodos a partir dos antigos: h, neste ltimo caso, pensamento produtivo% e  este que 
consiste propriamente em completar as totalidades ou complexos j existentes. Quanto a esse 
preenchimento de lacunas,  sempre orientado por esquenias antecipadores (comparveis ao 
esquema dinmico de Bergson), que tecem, entre os dados novos e o conjunto do complexo 
correspondente, um sistema de relaes provisrias globais constituindo o esboo da soluo a encontrar 
(portanto a hiptese diretriz). Essas relaes em si so, por fim, pormenorizadas, segundo um mecanismo 
sujeito a leis rigorosas: essas leis nada mais so que as leis da lgica, de que o pensamento , afinal, o 
espelho.

Lembremos tambm a obra de Lindworski, que se intercala entre as duas obras de Selz e anuncia as 
concluses deste. Quanto ao estudo de Claparde sobre a gnese da hiptese, falaremos dela a propsito 
do tateio (Captulo 4).

Crtica da psicologia do pensamento

1,2 elai@o que os trabalhos precedentes prestaram grandes servios ao estudo da inteligncia. Libertaram 
o pensamento da imagem, concebida como elemento constitutivo, e redescobriram, depois de Descartes, 
que o juizo  uma atividade. Descreveram com rigor os diversos estados do pensamento e mostraram 
assim, contra Wundt, que a

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 35

introspeco pode ser promovida  categoria de mtodo positivo quando  provocada, isto , quando  
de fato controlada por um observador.

Mas convm notar desde logo que, mesmo no plano da simples descrio, as relaes entre a imagem e o 
pensamento foram muito simplificadas pela escola de Wurzburg. No h dvida de que a imagem no 
constitui elemento do pensamento em si. Ela apenas o acompanha e serve de smbolo, smbolo individual 
completando os signos coletivos da lngua. A escola do Significado, surgida da lgica de Bradley, mostrou 
bem que todo pensamento  um sistema de significaes, e foi essa noo que Delacrox e seus discpulos, 
sobretudo I. Meyerson, desenvolveram no que se refere s relaes de pensamento e imagem. As 
significaes comportam, de fato, significados que so o pensamento como tal, mas tambm sjgnificantes, 
constitudos pelos signos verbais ou os smbolos dotados de imagem construindo-se em correlao ntima 
com o prprio pensamento.

Por outro lado,  claro que o prprio mtodo da Denkpsychologie lhe impede de ultrapassar a pura 
descrio, e ele fracassa em explicar a inteligncia em seus mecanismos propriamente construtivos, porque 
a introspeco, mesmo controlada, certamente recai apenas sobre os produtos do pensamento e no sobre 
sua formao. Alm do mais, ela se aplica apenas aos sujeitos capazes de reflexo: ora,  talvez antes dos 7 
a 8 anos de idade que se deve procurar o segredo da inteligncia!

Faltando-lhe, pois, a perspectiva gentica, a psicologia do pensamento analisa exclusivamente os estgios 
finais da evoluo intelectual. Falando em termos de estados e de equilbrio acabado, no surpreende que 
ela acabe num panlogismo e seja obrigada a interromper a anlise psicolgica diante do dado irredutvel 
das leis da lgica. Desde Marbe, que pura e simplesmente invocava a lei lgica a ttulo de fator 
extrapsicolgico interferindo causalmente e preenchendo as lacunas da causalidade mental, at Selz, que 
chega a uma espcie de paralelismo lgico-psicolgico, convertendo o pensamento em espelho da lgica, 
o fato lgico permanece inexplicado em termos psicolgicos para todos esses autores.

Sem dvida, Selz se libertou em parte do mtodo demasiado estreito de anlise dos estados e elementos, 
para tentar acompanhar o dinamismo do ato inteligente. Des-

36               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

cobriu tambm as totalidades que caracterizam os sistemas de pensamento, bem como o papel dos 
esquemas antecipadores na soluo de problemas. Mas, ao mesmo tempo assinalando freqentemente as 
analogias entre esses processos e os mecanismos orgnicos e motores, ele no reconstitui sua formao 
gentica. Alia-se tambm ao panlogismo da escola de Wurzburg, e o faz inclusive de modo paradoxal, cujo 
exemplo vale a pena meditar por quem quiser libertar a psicologia dos empreendimentos do apriorismo 
logstico ao mesmo tempo em que procurando explicar o fato lgico.

De fato, ao descobrir o papel essencial das totalidades no funcionamento do pensamento, Selz poderia ter tirado * concluso de que a lgica 
clssica  incapaz de traduzir * juzo, em ao, tal como se apresenta e se constitui no,
6< pensamento produtivo. A lgica clssica, mesmo sob sua forma infinitamente abrandada pela tcnica sutil e rigorosa do clculo logstico, 
continua atomstica; classes, relaes, proposies so nela analisadas em suas operaes elementares (adio e multiplicao lgicas, 
implicaes e incompatibilidades, etc.). Para traduzir o jogo dos esquemas antecipadores e da Komplexergnzung, portanto totalidades 
intelectuais que intervm no pensamento vivo e atuante, seria necessrio que Selz recorresse a uma lgica das prprias totalidades, e ento o 
problema das rela es entre a inteligncia, na medida em que fato psieGlgicO, e a lgica como tal, se teria colocado em termos novos que 
demandassem soluo propriamente gentica. Pelo contrrio, Selz, por demais respeitoso quanto aos quadros lgicos a priori, no obstante seu 
carter descontnuo e atomstico, acabou naturalmente por encontr-los integralmente a titulo de resduos da anlise psicolgica, e por invoe-
los no pormenor das elaboraes mentais.

Em suma, a psicologia do pensamento acabou por fazer do pensamento o espelho da lgica, e nisso reside a origem das dificuldades que ela 
no pde superar. A questo , pois, de saber se no conviria simplesmente inverter os termos e fazer da lgica o espelho do pensamento, o que 
restituiria a esta sua independncia construtiva.

Lgica e Psicologia

A lgica como o espelho do pensamento, e no o in- verso, tal o ponto de vista a que fomos levados (Classes>

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                37

Relaes e Nmeros. Ensaio sobre os Grupamentos da Logstica e a Reversibilidade do Pensamento, 1942) 
pelo estudo da formao das operaes na criana, e isto aps nos havermos persuadido, no ponto de 
partida, da justeza do postulado da irredutibilidade em que se inspiram os psiclogos do pensamento. Isso 
equivale a dizer que a lgica  uma axiomtica da razo da qual a psicologia da inteligncia  a cincia 
experimental correspondente. Parece-nos indispensvel insistir um pouco mais nesta questo de mtodo.

Axiomtica  cincia exclusivamente hipottico-dedutiva, isto , ela reduz ao mnimo os recursos da 
experincia (e ambiciona inclusive elimin-los inteiramente) para reconstruir livremente seu objeto por 
meio de proposies indemonstrveis (axiomas) que devem combinar-se mutuamente de acordo com todas 
as possibilidades e do modo mais rigoroso. Desse modo, a Geometria realizou grande progresso, quando, 
procurando abstrair toda intuio, construiu os espaos mais diversos, meramente definindo os elementos 
primitivos admitidos por hiptese e as operaes aos quais esto submetidos. 0 mtodo axiomtico , pois, o 
mtodo matemtico por excelncia, e encontrou numerosas aplicaes, no apenas em matemtica pura, 
mas em diversos domnios da matemtica aplicada (da fsica terica  economia matemtica). A utilidade da 
axiomtica ultrapassa, com efeito, os da demonstrao (ainda que, nesse campo, ela constitua o nico 
mtodo rigoroso) : diante de realidades complexas e resistindo  anlise exaustiva, ela permite construir 
modelos simplificados do real e fornece assim ao estudo deste os insubstituiveis instrumentos de disseco. 
De modo geral, uma axiomtica constitui, como o demonstrou muito bem Gonseth, um esquema da 
realidade, e pelo prprio fato de que toda abstrao conduz a uma esquematizao, o mtodo axiomtico 
estende no total a esquematizao da prpria inteligncia.

Mas, precisamente em vista de seu carter esquemtico, uma axiomtica no pode pretender a 
fundamenta o, nem, sobretudo, substituir a cincia experimental correspondente, isto , aquela cincia 
que trata de certo setor da realidade de que a axiomtica constitui o esquema. Por isso, a geometria 
axiomtica no tem condies de nos ensinar o que vem a ser o espao do mundo real (e que a economia 
pura no esgota absolutamente a complexidade

38               PSICOLOGIA DA I=LIGNCIA

dos fatos econmicos concretos). A axiomtica, no poderia substituir a cincia ndutiva que lhe 
corresponde, em vista da razo essencial de que sua prpria pureza no passa de um limite jamais atingido 
ria plenitude. Como ainda o diz Gonseth, resta sempre um resduo intuitivo no esquema, por mais apurado 
que seja (assim como j entra um elemento de esquematizao em toda intuio). Basta essa nica razo 
para dar a compreender por que a axiomtica jamais fundamentar a cincia experimental e por que a 
toda axiomtica pode corresponder tal cincia (assim como, sem dvida, o inverso).

Em vista do exposto, -o problema das relaes entre a lgica formal e a psicologia da inteligncia  
suscetvel de obter soluo comparvel quela que ps fim, aps sculos de discusso, ao conflito entre a 
geometria dedutiva e a geometria real ou fsica. Assim como no caso dessas duas espcies de disciplina, a 
lgica e a psicologia do pensamento comearam por ser confundidas ou indiferenciadas: Aristteles 
acreditava escrever uma histria natural do esprito (como, de resto, da prpria realidade fsica) ao 
enunciar as leis do silogismo. Quando a psicologa se constituiu como cincia independente, os psiclogos 
compreenderam (levando para isso um tempo considervel) que as reflexes dos manuais de lgica sobre 
o conceito, juizo e raciocnio no os eximia de procurar o deslindamento do mecanismo causal da 
inteligncia. S que, por um efeito residual da indissociao primitiva, continuaram a enxergar a lgica 
como cincia da realidade, situada, no obstante seu carter normativo, no mesmo plano que a psicologia, 
mas ocupando-se to-somente do pensamento verdadeiro% contrastando com o pensamento em geral, 
com abstrao de qualquer norma. Da essa perspectiva ilusria da Denkpsychologie, segundo a qual o 
pensamento, na medida em que fato psicolgico, constituiria o reflexo das leis lgicas. Em contrapartida, se 
a lgica se considerava uma axiomtica, o falso problema dessas relaes de interferncia se dissiparia pela 
prpria inverso das posies.

Ora, parece evidente que, na medida em que a lgica renunciou  impreciso da linguagem verbal para 
constitUir, sob o nome de logstica, um algoritmo cujo rigor iguala ao da linguagem matemtica, ela se 
transformou eIn tcnica axiomtica. Por outro lado, sabe-se o quanto el@sa tcnica rapidamente interferiu 
com as partes mais

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                39

gerais das matemticas, a tal ponto que a logstica adquiriu hoje uni valor cientfico independente das 
filosofias particulares dos logsticos (platonismo de Russell ou nominalismo do Crculo de Viena). 0 prprio 
fato de qu-- as interpretaes filosficas deixam inalterada a sua tcnica interna mostra, de resto, por si s, 
que esta atingiu o nvel axiomtico: a logstica constitui, pois, meramente um moclelo ideal do pensamento.

No caso, porm, as relaes entre a lgica e a psicologia mostram-se indevidamente simplificadas. A 
logstica no precisa recorrer  psicologia, visto que uma questo de fato no intervm absolutamente numa 
teoria hipottico-dedutiva. Inversamente, seria absurdo invocar a logstica para resolver uma questo que 
implique a experincia, tal como a do mecanismo real da inteligncia. Todavia, na medida em que a 
psicologia se aplica a analisar os estados de equilbrio finais do pensamento, h, no um paralelismo, mas 
uma correspondncia entre esse conhecimento experimental e a logstica, como h correspondncia entre 
um esquema e a realidade que ele representa. Cada questo suscitada por uma das duas disciplinas 
corresponde, ento, a uma questo da outra, embora nem seus mtodos nem suas solues prprias possam 
interferir.

Essa independncia de mtodos pode ser ilustrada mediante exemplo muito simples, cuja discusso nos 
ser  til em vista dos assuntos a serem ventilados nos captulos
5 e 6, deste livro.  comum dizer que o pensamento (real) aplica o princpio de contradio% o que, 
tomado literalmente, suporia a interveno de um fator lgico no contexto causal dos fatos psicolgicos e 
contradiria assim o que acabamos de sustentar. Ora, examinando os termos de mais perto, afirmao desse 
tipo mostra-se despida de significao. De fato, o princpio de contradio limita-se a impedir a afirmao e 
negao simultneas de certo aspecto dado: A  incompatvel com no-A. Mas, para o pensamento efetivo 
de um sujeito real, a dificuldade comea quando ele indaga se tem o direito de afirmar ao mesmo tempo A e 
B, porque jamais a lgica prescreve diretamente se B implica ou no no-A. Pode-se, por exemplo, falar de 
uma montanha que tem apenas 100 metros de altura, ou isto ser contraditrio? Pode-se ser ao inesmo 
tempo comunista e patriota? Pode-se conceber um quadra-

40               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

do de ngulos desiguais? etc. Para responder a essas questes, existem apenas dois processos. 0 lgico, 
que consiste em definir teoricamente A e B e procurar se B implica no-A. Mas, ento, a aplicao do 
princpio de contradio recai exclusivamente sobre as definies, isto , sobre conceitos axiomatizados, 
e no sobre noes vivas de que o pensamento se vale na realidade. 0 processo empregado pelo 
pensamento real consiste, pelo contrrio, no em raciocinar sobre definies apenas, o que no tem 
interesse para ele (dado que, desse ponto de vista, a definio no passa de uma tomada de conscincia 
retrospectiva, e no raro incompleta), mas em atuar e operar, elaborando os conceitos segundo as 
possibilidades de composio dessas aes e operaes. De fato, o conceito no passa de um esquema de 
ao ou de operao, e  ao executar as aes que engendram A e B que se h de verificar se so 
compatveis ou no. Longe de aplicar um princpio% as aes se organizam segundo condies internas 
de coerncia, e  a estrutura dessa organizao que constitui o fato de pensamento real correspondente ao 
que se chama, no plano axiomtico, o princpio de contradio.

 verdade que, alm da coerncia individual das aes, intervm no pensamento interaes de ordem 
coletiva e, por conseguinte, normas impostas por essa prpria colaborao. Mas a cooperao  apenas 
um sistema de aes ou mesmo de operaes executadas em comum, e pode-se refazer o raciocnio 
precedente a propsito das representaes coletivas, que tambm permanecem, no plano das estruturas 
reais, em oposio s axiomatizaes de natureza formal.

Assim, o problema continua inteiro para a psicologia, no sentido de compreender mediante que mecanismo 
a inteligncia chega a construir estruturas coerentes, suscetveis de composio operatria: e de nada vale 
invocar
44princpios que essa inteligncia aplicasse espontaneamente, visto que os princpios lgicos nada mais 
so que um esquema terico formulado atravs do tempo, uma v,ez elaborado o pensamento, e no essa 
prpria elaborao viva. Diz Brunschvieg com profundidade que a inteligncia ganha as batalhas ou se 
entrega, como a poesia, a uma criao contnua, ao passo que a deduo logstica s  comparvel aos 
tratados de estrat gia e s artes poti-

A NATUREZA DA INTELIGNCIA               41

cas, que codificam as vitrias passadas da ao ou cio esprito, mas no garantem suas conquistas futuras.4

Entretanto, e precisamente porque a axiomtica lgica esquematiza o trabalho real do esprito, qualquer 
descobrimento num dos dois planos pode ensejar um problema no outro. No h dvida de que os 
esquemas lgicos tenham freqentemente ajudado, por sua sutileza, a anlise dos psiclogos: a 
Dimkpsychologie  um bom exemplo disso. Mas, inversamente, quando esses psiclogos descobrem, com 
Selz, os gestaltistas e muitos outros, o papel das totalidades e das organizaes de conjunto no trabalho 
do pensamento, no h razo alguma para considerar a lgica clssica ou mesmo a logstica atual, que 
permaneceram um modo descontnuo e atomstico de descrio, como intangveis e definitivas, nem para 
fazer delas um modelo de que o pensamento fosse o espelho: muito pelo contrrio, trata-se de elaborar 
uma lgica das totalidades, se quisermos que sirva de esquema adequado para os estados de equilbrio do 
esprito, e de analisar as operaes sem as reduzir a elementos isolados, insuficientes do ponto de vista das 
exigncias psicolgicas.

As operaes e seus grupamentos

0 grande obstculo a uma teoria da inteligncia que parta da anlise do pensamento sob suas formas 
superiores  o fascnio que as facilidades do pensamento verbal exercem sobre a conscincia. P. Janet 
demonstrou de modo excelente como a linguagem substitui em parte a ao, ao ponto em que a 
introspeco sente a maior dificuldade em discernir s por seus meios que ela  ainda um comportamento 
verdadeiro: a conduta verbal  uma atividade. sem dvida amenizada e que permanec,:- interior, um 
esboo de ao que chega a correr o risco de no sair do estado de projeto, mas, de qualquer modo, ao, 
que substitui simplesmente as coisas por signos e os movimentos por sua evocao, e que operam ainda, em 
pensamento, mediante esses intrpretes. Ora, desprezando esse aspecto ativo do pensamento verbal, a 
introspeco s enxerga nele o reflexo, o discurso e a representao conceptual: da a iluso dos 
psiclogos introspectivos de que a inteli-

4 L. Brunschvieg, Les Etapes de la philosophie mathmatique, p. 426,
2.a ed.

42               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

gncia se reduz a esses estados terminais privilegiados, e dos lgicos, de que o esquema lostico mais 
adequado deva ser essencialmente uma teoria das proposies.

Para atingir o funcionamento real da uitengncia, iniporta, pois, inverter esse movimento natural CIO 
esprito e recolocar-se na perspectiva da prpria ao: s entao aparece com toda nitidez o papel ciessa 
ativicLade interior que  a operao. E por isso mesmo se impe a continuidade que relaciona a operao 
com a atividacle verdadeira, fonte e meio da inteligncia. Nada mais apropriado para esclarecer essa 
perspectiva do que a meditao sobre essa espcie de linguagem - linguagem ainda, mas purament,:, 
intelectual, transparente e estranha s iluses da imagem
- que  a linguagem matemtica. Numa expresso qualquer, tal como (x2 + y - z - u), cada termo designa em 
definitivo uma atividade: o sinal (--) exprime a possibilidade de uma substituio; o sinal (+) uma reunio; o 
sinal (-) uma separao; o quadrado X2 a atividade de reproduzir x vezes x, e cada um dos valores u, x, y e 
z, a atividade de reproduzir certo nmero de vezes a unidade. Cada um desses smbolos se refere, pois, a 
uma atividade que poderia ser real, mas que a linguagem matemtica limita-se a designar abstratamente, sob 
a forma de aes interiorizadas, isto , de operaes do pensamento.5

Ora, se a coisa  evidente no caso do pensamento matemtico, mais real ainda se apresenta no caso do 
pensamento lgico e da linguagem corrente, do duplo ponto de vista da anlise logstica e da anlise 
psicolgica.  assim que duas classes podem ser adicionadas como dois nmeros. Na proposio: Os 
vertebrados e os invertebrados so todos os animais, a palavra c (ou o sinal logstico +) representa uma 
ao de reunir que pode ser efetuada materialmente, na classificao de um conjunto de objetos, mas que o 
pensamento pode tambm efetuar mentalmente. Pode-se tambm classificar sob vrios pontos de vista ao 
mesmo tempo, como numa tabela de coluna dupla, e essa operao (que a logstica chama de multiplicao

5 Esse carter ativo do raciocnio matemtico foi bem observado por Goblot em seu Trait de Logique: deduzir, dizia ele,  construir. Mas a 
construo operatria lhe parecia regulada simplesmente pelas proposies anteriormente admitidas% ao passo que a regulagem das opera 
es lhes  imanente e constituda por sua capacidade de composies reversveis, em outras palavras, por sua natureza de grupos.

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                43

lgica: sinal X)  to natural ao esprito que o psiclogo Spearman, fez dela, sob o nome de educao dos 
correlatos, uma das caractersticas do ato inteligente: Paris est para a Frana como Londres est para a 
Inglaterra. Podem-se seriar relaes: A < B; B < C, e essa dupla relao, que permite concluir que C  
maior que A,  a reprocluo em pensamento da ao que se poderia efetuar materialmente alinhando-se 
trs objetos segundo suas grandezas crescentes. Pode-se, igualmente, ordenar segundo vrias relaes ao 
mesmo tempo, e recamos em outra forma de multiplicao lgica ou de correlao, etc.

Se encararmos agora os termos como tais, isto , os chamados elementos do pensamento, conceitos de 
classes ou relaes, veremos neles o mesmo carter operatrio que os existentes em suas combinaes. 
Um conceito de classe, uo pokfito de vista psicolgico, nada mais  que a expr,@sso da identidade de 
reao do sujeito para com objetos que ele rene numa classe: logicamente, essa assimilao ativa se traduz 
pela equivalncia qualitativa de todos os elementos da classe. Do mesmo modo, uma relao assimtrica (-z 
pesado ou grande) exprime as diversas intensidades da ao, isto, , as diferenas em contraposio s 
equivalncias, e se traduz logicamente pelas estruturas seriais.

Em resumo, o carter essencial do pensamento lgico  de ser operatrio, isto , de estender a ao ao 
interioriz-la. Quanto a isso, juntar-se-o os pontos de vista das mais diversas correntes, desde as teorias 
empricas e pragmatistas que se limitam a essa afirmao elementar atribuindo ao pensamento a forma de 
uma experincia mental (Mach, Rignano, Chaslin), at as interpretaes de inspirao apriorista 
(Delacroix). Alm do mais, essa hiptese concorda com as esquematizaes logsticas, quando se limitam a 
constituir uma tcnica e n o se estendam numa filosofia que negue a existncia das mesmas operaes que 
elas utilizam sem cessar na realidade.

E isso no  tudo, porque a operao no se reduz. a uma ativdade qualquer, e, se o ato operatrio 
decorre do ato efetivo, a distncia a percorrer continua considervel entre os dois, conforme veremos em 
pormenor ao examinar o desenvolvimento da inteligncia (Caps. 4 e 5). A operao racional no pode ser 
comparada a uma atividade simples, salvo sob condio de a encarar em estado isolado; mas  precisamente 
o erro fundamental das

44               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

teorias empiristas da experincia, mental a especulao sobre a operao isolada: uma operao nica 
no pode ser chamada de operao, visto que permanece em estado de simples representao intuitiva. A 
natureza especfica das operaes, comparadas s aes empricas, decorre do fato de que jamais existem 
em estado descontnuo.  por uma abstrao totalmente ilegtima que se fala de uma operao: uma nica 
operao no poderia ser operao, visto que o peculiar das operaes  constiturem sistemas. Neste 
ponto, impe-se reagir com energia contra o atomismo lgico, cujo esquema pesou duramente sobre a 
psicologia do pensamento. Para captar o carter operatrio do pensamento racional,  preciso atingir os 
sistemas como tais, e se os esquemas lgicos comuns lhe mascaram a existncia,  necessrio elaborar uma 
lgica das totalidades.

 desse modo, para comear com o caso mais simples, que tanto a psicologia quanto a lgica clssicas falam 
do conceito enquanto elemento do pensamento. Ora, uma
4classe no poderia existir por si mesma, e isso independentemente do fato de que sua definio recorre 
a outros co;nceitos. Na medida em que instrumento do pensamento real, e com abstrao de sua definio 
lgica, ela no passa de elemento estruturado% e no 11estruturante, ou pelo menos ela  j estruturada 
na medida em que estruturante: ela s tem realidade em funo de todos os elementos aos quais se ope ou 
nos quais estiver encaixada (ou que encaixe ela mesma). Classe supe classificao, e o fato primeiro  
constitudo por esta ltima, porque so as operaes de classificao que engendram as classes 
particulares. Independentemente de classificao de conjunto, o termo genrico no designa uma classe, 
mas uma coleo intuitiva.

Do mesmo modo, uma relao assimtrica transitiva, como A<B, no existe como relao (mas apenas na 
medida em que relao perceptiva, ou intuitiva) sem a possibilidade de construir toda uma seqncia de 
outras relaes seriadas tais como A<B<C<... E quando dizemos que ela s existe como relao,  preciso 
tomar essa afirmao no sentido mais concreto do termo, porque, como veremos (Cap. 5), a criana no  
rigorosamente capaz de pensar por relaes antes de saber seriar. A seriao  pois a realidade 
primeira, da qual uma relao assimtrica

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 45

qualquer  apenas um elemento momentaneamente abstrato.

Outros exemplos: um correlato no sentido que lhe d Spearman (o co est para o lobo assim como o gato 
est para o tigre) s tem sentido em funo de uma tabela de dupla entrada. Uma relao de parentesco 
(irmo, tio, etc.) refere-se ao conjunto constitudo por uma rvore genealgica, etc. Ser necessrio 
lembrar que um nmero inteiro s existe psicolgica como logicamente (malgrado Russe11) a ttulo de 
elemento da prpria seqncia dos nmeros (engendrada pela operao + 1)? Que uma relao espacial 
pressupe todo um espao? Que uma relao temporal implica a compreenso do tempo a ttulo de 
esquema nico? E, noutro terreno, ser necessrio insistir no fato de que um valor s vale em funo de 
uma escala completa de valores, momentnea ou estvel?

Em suma, em qualquer domnio do pensamento constitudo (em contraste precisamente com os estados de 
desequilbrio que caracterizam a sua gnese), a realidade psicolgica consiste de sistemas operatrios de 
conjunto e no de operaes isoladas concebidas a ttulo de elementos anteriores a esses sistemas:  pois 
apenas enquanto aes ou representaes intuitivas se organizam em tais sistemas que elas adquirem (e o 
adquirem por isso mesmo) a natureza de operaes. 0 problema essencial da psicologia do pensamento , 
ento, o de extrair as leis de equilbrio desses sistemas, assim como o problema central de uma lgica que 
pretendesse ser adequada ao trabalho real do esprito parece-nos ser o de formular as leis dessas 
totalidades como tais.

Ora, a anlise de ordem matemtica h muito descobriu essa interdependncia das operaes que 
constituem certos sistemas bem definidos: a noo de grupo que se aplica  srie de nmeros inteiros, s 
estruturas espaciais, temporais, s operaes algbricas, etc. tornou-se, assim, noo central na prpria 
ordenao do pensamento matemtico. No caso dos sistemas qualitativos prprios do pensamento 
simplesmente lgico, tais como as classificaes simples, as tabelas de dupla entrada, as seriaes de 
relaes, as rvores genealgicas, etc., chamaremos de <grupamentos os sistemas de conjunto 
correspondentes. Do ponto de vista psicolgico, o grupamento consiste de certa forma de equilbrio das 
operaes, portanto, de

46               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

aes interiorizadas e organizadas em estruturas de conjunto, e o problema  de caracterizar esse 
equilbrio, ao mesmo tempo em relao aos diversos nveis genticos, que o preparam e em oposio s 
formas de equilbrio prprias a outras funes que no a inteligncia (as estruturas perceptivas ou 
motoras, etc.). Do ponto de vista logstico, o grupamento apresenta uma estrutura bem definida (parente 
da estrutura do grupo, mas diferindo dela em alguns pontos essenciais), e que exprime uma sucesso de 
distines dicotmicas: suas normas operatrias constituem, pois, precisamente essa lgica das totalidades 
que traduz num esquema axiomtico ou formal o trabalho efetivo do esprito, no nvel operatrio de seu 
desenvolvimento, isto , em sua forma de equilbrio final.

A significao funcional e a estrutura dos grupamentos

Comecemos por relacionar ligeiramente as reflexes que precedem ao que aprendemos da psicologia do 
pensamento. De acordo com Selz, a soluo de um problema pressupe, em primeiro lugar, um esquema 
antecipador, que relaciona o objetivo a atingir com um complexo de noes, em relao ao qual ele cria 
uma lacuna; depois, em segundo lugar, o preenchimento desse esquema antecipador por meio de 
conceitos e de relaes que vm completar o complexo, ordenando-se segundo as leis da lgica. Da 
uma srie de questes: quais so as leis de organizao do complexo total? Qual a natureza do esquema 
antecipador? Poder-se- suprimir o dualismo que parece subsistir entre a formao do esquema 
antecipador e o pormenor dos prccessos que determinam seu preenchimento?

Tomemos como exemplo uma interessante experincia feita por nosso colaborador Andr Rey: num 
quadrado de alguns centmetros, desenhado numa folha de papel tambm quadrado (de 19 a 15 em de 
lado), pede-se  pessoa que desenhe o menor quadrado possvel a lpis, bem como c maior quadrado 
possvel de representar-se na referida folha. Ora, enquanto os adultos (e as crianas desde
7/8 anos) conseguem, sem dificuldade, fazer um quadrado de 1 a 2 em de lado, assim como um quadrado 
margeando de perto as bordas do papel, as crianas de menos

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                47

de 6 a 7 anos s conseguem, a princpio, desenhar quadrados ou um pouco menores ou um pouco maiores 
que o modelo, procedendo depois por tentativas sucessivas, e, no raro, sem xito, como se no 
antecipassem em momento algum as solues finais. Nesse caso, percebe-se imediatamente a interveno 
de um grupamento'1 de relaes assimtricas (A<B<C... ), presente nos adultos e que parece ausente 
abaixo dos sete anos: o quadrado percebido est situado em pensamento numa srie de quadrados virtuais 
cada vez maiores e cada vez menores em relao ao primeiro. Pode-se ento admitir: LI, que o esquema 
antecipador  o prprio esquema de grupamento, isto , a conscincia da sucesso ordenada das opraes 
possveis; 2.o, que o preenchimento do esquema  a simples execuo dessas operaes; 3.0 que a 
organizao do complexo das noes prvias tem a ver com as prprias leis do grupamento. Se essa 
soluo fosse geral, a noo de grupamentos introduziria, assim, a unidade entre o si,,>tema anterior de 
noes, o esquema antecipador e seu preenchimento controlado.

Pensemos agora no conjunto de problemas concretos que o esprito em movimento apresenta sempre: Que 
 isso? Isso  mais ou menos (pesado, distante, etc.)? Onde? Quando? Por qu, Em que sentido? Quanto? 
etc. etc. Verificamos que cada uma dessas questes  necessariamente funo de um grupamentoll ou de 
um grupo prvios: cada indivduo est de posse de classificaes, seriaes, sistemas de explicao, um 
espao e uma cronologia pessoais, uma escala de valores, etc., assim como do espao e do tempo 
matemticos, seqncias numricas. Ora, esses grupamentos e esses grupos no surgem a propsito da 
questo feita, mas duram toda a vida: desde a infncia, ns classificamos, comparamos (diferenas ou 
equivalncias), ordenamos no espao e no tempo, explicamos, avaliamos nossos objetivos e meios, 
contamos, etc. e  relativamente a esses sistemas de conjunto que os problemas se colocam, na exata 
medida em que surgem novos fatos, que no est o ainda classificados, seriados, etc. A questo que orienta 
o esquema antecipador procede, pois, do grupamento prvio, e o esquema antecipador em si nada mais  
que a direo impressa ao pensamento pela estrutura desse grupamento. Assim cada problema, tanto no 
que se refere  hiptese antecipadora da soluo quanto ao controle pormenorizado desta, consiste

48               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

to-somente de um sistema especial de operaes a efetuar no seio do grupamento total correspondente. 
Para encontrar seu caminho, no  necessrio. reconstruir todo o espao, mas simplesmente completar o 
preenchimento em determinado setor. Para prever um acontecimento, consertar a bicicleta, fazer seu 
oramento ou elaborar seu programa de atividades, no  necessrio refazer toda a causalidade e o tempo, 
nem f azer a reviso de todos os valores aceitos, etc.: a soluo a encontrar apenas prolonga e completa as 
relaes j grupadas, prontas a corrigir o grupamento no caso de erros de pormenor e sobretudo para 
subdividir e diferenciar, mas sem construir tudo de novo. Quanto  verificao, ela s  possvel de acordo 
com as regras do prprio grupamento: pelo acordo das relaes novas com o sistema anterior.

0 fato notvel, nessa assimilao contnua do real  inteligncia, , de fato, o equilbrio dos quadros 
assimiladores constitudos pelo grupamento. Durante toda a sua formao, o pensamento acha-se em 
desequilbrio ou em estado de equilbrio instvel: toda nova aquisio modifica as noes anteriores ou 
ameaa ensejar a contradio. Pelo contrrio, a partir do nvel operatrio, os quadros classificatrios e 
seriais espaciais e temporais, etc., elaborados aos poucos, vm a incorporar, sem dificuldades, novos 
elementos: o recipiente especial para encontrar, completar ou grupar todas as peas no abala a solidez do 
todo, mas se harmoniza com o conjunto.  desse modo, para tomar o exemplo mais caracterstico desse 
equilbrio dos conceitos, que uma cincia exata, no obstante todas as crises e reformulaes de que se 
gaba para provar sua validade, vem a ser nada menos que um corpo de noes cujo pormenor das 
relaes se conserva, e se fecha, ao ensejo de cada acrscimo de fatos ou princpios, porque os novos 
princpios, por mais revolucionrios que sejam, mantm os antigos a ttulo de primeiras aproximaes 
relativas a uma escala dada: a criao continuada e imprevisvel de que a cincia d provas integra a si, 
pois, incessantemente, o seu prprio passado. Deparamo-nos com o mesmo problema, porm em escala 
menor, no pensamento de todo homem normal.

Mais que isso, o equilbrio dos grupamentos  essencialmente mvel comparado ao equilbrio parcial das 
estruturas perceptivas ou motoras: como as operaes se constituem de atividades, o equilbrio do 
pensamento ope-

A NATUREZA DA INTELIGNCIA               49

ratro no significa de modo algum o repouso, mas, pelo contrrio, um sistema de trocas que se equilibram, 
um sistema de transformaes incessantemente compensadas por outras.  o equilbrio de uma polifonia, e 
n o de um sistema de massas inertes, e nada tem a ver com a falsa estabilidade que resulta, s vezes, do 
retardamento do esforo intelectual que advm com a idade.

Trata-se, por conseguinte, e nisso consiste todo o problema do grupamento, de determinar as condies 
desse equilbrio, a fim de poder-se depois procurar, geneticamente, como ele se constitui. Ora, essas 
condies podem ser imediatamente descobertas pela observao e pelas experincias psicolgicas e 
formuladas segundo o gnerc> de rigor que um esquema axionitico comporte. Elas constituem desse 
modo, sob a perspectiva psicolgica, os fatores de ordem causal que explicam o mecanismo da inteligncia, 
ao mesmo tempo que sua esquematizao logstica fornece as regras da lgica das totalidades.

So quatro essas condies no caso dos grupos de ordem matemtica, e cinco no caso dos grupamentos 
de ordem qualitativa.

1.0 - Dois elementos quaisquer de um grupamento podem ser compostos entre si e engendram, assim, um 
novo elemento do mesmo grupamento: duas classes distintas podem ser reunidas numa classe de conjunto 
que as encerre; duas relaes A<B e B<C podem ser juntadas numa relao A<C que as contenha, etc. Do 
ponto de vista psicolgico, essa primeira condio exprime pois a coordenao possvel das operaes.

2.0 - Toda transformao  reversvel.  desse modo que as duas classes ou as duas relaes reunidas num 
momento podem ser de novo dissociadas e que, no pensamento matemtico, cada operao direta de um 
grupo comporta certa operao inversa (subtrao por adio, diviso por multiplicao, etc.). Essa 
reversibilidade , sem dvida, o aspecto mais especfico da inteligncia, porque, se a motricidade e a 
percepo gozam da possibilidade de compor-se, por outro lado permanecem irreversveis. Um hbito 
motor tem sentido nico, e aprender a efetuar movimentos noutro sentido consiste em adquirir novo hbito. 
Uma percepo  irreversvel dado que, ao ensejo de cada aparecimento de um novo elemento objetivo 
no campo perceptivo, h deslocamento, do equilbrio, e que, se restabeleemos objetivamente a situao 
inicial

50               PSICOLOGIA DA 1NTELIGNCIA

a percepo     modificada por estados intermedirios. A inteligncia,  pelo contrrio, pode elaborar 
hipteses e depois afast-las para voltar ao ponto de partida. Pode percorrer um caminho e fazer o 
caminho inverso sem modificar as noes utilizadas. Ora, o pensamento da criana , precisamente, como o 
veremos no Captulo 5, tanto mais irreversvel quanto o sujeito seja mais jovem, e mais prximo dos 
esquemas percepto-motores, ou intuitivos, da inteligncia inicial: por conseguinte, a reversibilidade 
caxecteriza no apenas os estados finais de equilbrio, mas tambem os proprios processos evolutivos.

3.o - A composio das operaes  associativa (no sentido lgico do termo), isto , o pensamento 
continua ,sempre livre para fazer desvios, e um resultado obtido por duas vias diferentes continua o mesmo 
nos dois casos. Esse aspecto parece igualmente prprio da inteligncia: tanto a percepo como a 
motricidade gozam apenas de itinerrios especficos, dado que o hbito  estereotipado e que, na 
percepo, dois itinerrios distintos chegam a resultados diferentes (por exemplo, uma mesma temperatura 
percebida em termos distintos de comparao no parece a mesma). 0 aparecimento do desvio  
caracterstico da inteligncia sensrio-motora, e quanto mais o pensamento  ativo e mvel, tanto mais os 
desvios ,desempenham nela uma funo; mas apenas num sistema jem equilbrio permanente deixam 
invariante o termo final do pensamento.

4.0 - Uma operao combinada com seu inverso  anulada (por exemplo + 1 - 1 = 0 ou X 5 : 5 = X 1). Nas 
formas iniciais do pensamento da criana, pelo contrrio, o retorno ao ponto de partida no se acompanha 
de ,conservao deste: por exemplo, aps haver formulado uma hiptese a seguir rejeitada, a criana no 
encontra intatos os dados pela nptese, embora essa tenha sido afastada.

5.0 - No domnio dos nmeros, uma unidade acrescentada a si mesma enseja novo nmero, por aplicao da 
composio (1) : h interao. Pelo contrrio, um elemento qualitativo repetido no se transforma: d-se 
ento  tautologia: A + A = A.

Se exprimirmos essas cinco condies do grupamento num esquema logstico, chegamos ento s simples frmulas seguintes: 1.0 
ICOMPosio: x + x = v; y + Y = z, etc. 2.0 - Reversibilidade:

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                       51

x = x ou y     x = x. 3.0 - Associatividade: (x + x) + y = =X = (x + :y)      (z). 4.0 - Operao idntica geral: x - x =     0; y - y = 0, etc. 5.0 - Tautologia 
ou idnticos especiais: x + x =     x; y + y = y, etc. Torna-se evidente que um clculo das transformaes. vem a ser possvel, mas precisa, por 
causa da presena de tautologias, de certo nmero de regras em cujo pormenor no nos podemos estender aqui (Veja-se nosso livro Classes, 
Relaes e Nmeros.)

Classificao dos grupamentos e das operaes fundamentais do pensamento

0 estudo do andamento do pensamento em evoluo, na criana, leva a reconhecer no apenas a 
existncia dos grupamentos, mas tambm suas conexes mtuas, isto > as relaes que permitem classific-
lo e fazer o seu cadastro. A existncia psicolgica de um grupamento se reconhece facilmente, com efeito, 
nas operaes explcitas de que uma pessoa  capaz. H mais, porm: na medida em que no haja 
grupamento, no poder haver conservao dos conjuntos ou totalidades, ao passo que o aparecimento de 
um grupamento  atestado pelo aparecimento de um princpio de conservao. Por exemplo, o sujeito 
capaz de um raciocnio operatrio com estrutura de grupamento estar de antemo certo de que um todo 
se conservar independentemente do arranjo de suas partes, ao passo que o conteste antes. Estudaremos 
no Captulo [> a formao dos princpios de conservao para mostrar a funo do grupamento no 
desenvolvimento da razo. Mas para a clareza da exposio era necessrio descrever primeiro os estados 
de equilbrio finais do pensamento, de molde a examinar depois os fatores genticos suscetveis de 
explicar a constituio deles. Sob o risco de uma enumerao um tanto abstrata e esquemtica, vamos assim 
completar as reflexes precedentes pela relao dos principais grupamentos, ficando claro que esse 
quadro representa to-somente a estrutura terminal da inteligncia, e que permanece inteiro o problema de 
compreender sua formao.

1. Um primeiro sistema de grupamentos  constitudo pelas operaes chamadas lgicas, isto , aquelas 
opera es que partem dos elementos individuais considerados como invariantes, e se limitam a classific-
los, seri-los, etc.

1. 0 grupamento lgico mais simples  o da classificao ou arranjo hierrquico das classes. Ele repousa

52                  PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

numa primeira operao fundamental: a reunio dos indivduos em classes, e das classes entre si. 0 modelo 
acabado  constitudo pelas classificaes zoolgicas ou botnicas, mas toda classificao qualificativa 
procede segundo o mesmo esquema dicotmico:

Suponhamos uma espcie A que faa parte de um gnero B, de uma famlia C, etc. 0 gnero B conter outras espcies diferentes de A: vamos 
cham-las de A (donde A = B - A). A famlia C conter outros gneros diferentes de B; vamos cham-los de BI (donde BI = C - B), etc. Tem-
se ento a composio: A + A = 13; B + BI = C; C + C = D, etc.; a reversibilidade B        A = A, etc.; a associatividade (A + AI) + BI = A + (A + 
BI)          C, etc. e todos @os demais caracteres do grupamento. Esse primeiro grupamento  que engendra o silogismo clssico.

2. Um segundo grupamento elementar pe em atividade uma operao que consiste no mais em reunir 
entre si os indivduos considerados como equivalentes (como em 1), mas em ligar as relaes assimtricas 
que exprimem suas diferenas. A reunio dessas diferenas supe, ento, uma ordem de sucesso, e o 
grupamento constitui, portanto, uma seriao qualitativa:

Chamemos de a a relao 0 < A; b a relao 0 < 13; e a relao
0 < C. Pode-se, ento, chamar de a a relao A < B; bI a relao B < C, etc. e se tem o grupamento: a + a = b; b + V = e, etc. A operao inversa 
 a subtrao de uma relao, o que equivale  adio de sua contrria. 0 grupamento  paralelo ao precedente, com a nica diferena de que a 
operao de adio implica uma ordem de sucesso (e no , pois, comutativa) ;  nessa transitividade prpria a essa seriao que se funda o 
raciocnio A < B; B < C; logo, A < C.

3. Uma terceira operao fundamental  a de substituio, fundamento da equivalncia que rene os 
diversos indivduos de uma classe, ou as diversas classes simples reunidas numa classe composta:

Com efeito, entre dois elementos A, e A, de uma mesma classe Bi no h igualdade como entre unidades matemticas. H simplesmente 
equivalncia qualitativa, isto , substituio possvel, mas na medida em que se substitui tambm A,, isto , os demais elementos em relao 
a A, os A21 isto , os demais elementos em. relao a A2. Da o grupamento: Ai + A, = A2 + A'2 (= B) ; B, + W, = B2 + W,

C), etc.

Ora, traduzidas em relaes, as operaes precedentes engendram a reciprocidade prpria das relaes 
simtricas.

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                  53

Com efeito, estas no passam das relaes que unem entre si os elementos de uma mesma classe; portanto, 
relaes de equivalncia (em oposio s relaes assimtricas que assinalam a diferena). As relaes 
simtricas (por exemplo: irmo, primo-irmo, etc.) grupam-se, por conseguinte, segundo o modelo do 
grupamento precedente, mas a operao inversa  idntica  operao direta, o que vem a ser a prpria 
definio da simetria: (Y _= Z) (Z = Y).

Os quatro grupamentos precedentes so de ordem aditiva; dois deles (1 e 3) referem-se a classes, e os dois 
outros s relaes. Existem, ademais, quatro outros grupamentos com base em operaes multiplicativas, 
isto  , que englobam mais de um sistema de classes ou relaes ao mesmo tempo. Esses grupamentos 
correspondem, termo a termo, aos quatro precedentes:

5. Pode-se, em primeiro lugar, dadas duas sries de clases, emparelhadas AI B, C, . . . e A2 B2 C1 . . . distribuir 
os indivduos segundo as duas sries ao mesmo tempo:  o processo das tabelas de dupla entrada. Ora, a 
multiplicao das classes que constitui a operao prpria a esse gnero de grupamento desempenha um 
papel essencial no mecanismo da inteligncia; essa operao  que Spearman descreveu em termos 
psicolgicos sob o nome de educao dos correlatos.

A operao direta , para as duas classes Bi e B2, o produto Bi X B2 = BIB, (= A1A2 + A1A1, + A'jA, + A'jA'2). A operao inversa  a diviso 
lgica B1B2: B2 = B1, o que corresponde  abstrao (B.B2 abstrao feita de B2  B,).

6. Pode-se, inclusive, multiplicar entre si duas sries de relaes, isto , encontrar todas as relaes 
existentes entre objetos seriados segundo duas espcies de relaes ao mesmo tempo. 0 caso mais simples 
nada mais  que a correspondncia biunvoca qualitativa.

7 e 8. Pode-se, enfim, grupar os indivduos, no segundo o prmcipio das tabelas de dupla entrada como nos 
dois casos precedentes, mas fazendo corresponder um termo a vrios, como um pai a seus filhos. 0 
grupamento assume assim a forma de uma rvore genealgica e se exprime ou em classes (7) ou em 
relaes (8), sendo estas ltimas, ento, assimtricas segundo uma das duas

54               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

dimenses (pai,   etc.) e simtricas segundo a outra (irmo, etc.).

Obtm-se, assim, segundo as combinaes mais simples, oito grupamentos lgicos fundamentais, sendo uns 
aditivos (1-4), os outros multiplicativos (5-8), uns referinda-se a classes e outros a relaes, e uns 
deslocando-se em seriaes, emparelhamentos ou correspondncias simples (1,2 e 5,6), os demais em 
reciprocidades e correspondncias do tipo, de um a vrios (3, 4 e 7, 8). Donde
2 x 2 x 2 = 8 possibilidades ao todo.

Observemos, ainda, que a melhor prova do carter natural das totalidades constitudas por esses 
grupamentos de operaes  que ele basta para fundir entre si os grupamentos do emparelhamento 
simples das classes (1) e da seriao (2) para obter no mais um grupamento qualitativo, mas o grupo 
constitudo pela seqncia dos nmeros inteiros positivos e negativos. Com efeito, reunir os indivduos em 
classes consiste em consider-los como equivalentes, ao passo que seri-los segundo uma relao 
assmtrica qualquer exprime suas diferenas. Ora, considerando-se as qualidades dos objetos, no se 
poderia grup-los simultaneamente como equivalentes e diferentes no mesmo momento. Mas se fizermos 
abstrao das qualidades, tornamo-los por isso mesmo equivalentes entre si e seriveis segundo uma ordem 
qualquer de enumerao: transformamo-los, pois, em unidades ordenadas, e a operao aditiva 
consttutva do nmero inteiro consiste precisamente nisso. Igualmente, ao fundir os grupamentos 
multiplicativos de classes (5) e de relaes (6), obtemos o grupo multiplicativo dos nmeros positivos 
(inteiros e fracionrios).

II. Os diferentes sistemas precedentes no esgotam todas as operaes elementares da inteligncia. Esta 
no se limita, com efeito, a operar sobre os objetos, para os reunir em classes, seri-los ou enumer-los. Sua 
atividade recai igualmente na construo do objeto como tal e, como veremos (Cap. 4), essa obra  nutrida 
desde inclusive as inteligncias sensrio-motoras. Decompor o objeto e o recompor constitui, asim, o 
trabalho prprio de um segundo conjunto de grupamentos, cujas operaes fundamentais podem portanto 
ser chamadas infralgicas, visto que as operaes lgicas combinam os objetos considerados como 
invariantes. Essas operaes infralgicas tm im-

A NATUREZA DA INTELIGNCIA               55

portneia to grande quanto as operaes lgicas, porque so constitutivas das noes de espao e tempo, 
cuja elaborao ocupa quase toda a infncia. Contudo, ainda que bem distintas das operaes lgicas, elas 
lhes so exatamente paralelas. A questo das relaes de desenvolvimento entre esses dois conjuntos 
operatrios constitui assim um dos mais interessantes dos problemas relativos ao desenvolvimento da 
inteligncia:

1. Ao emparelhamento das classes corresponde o das partes reunidas.. em totalidades hierrquicas, cujo 
termo final  o objeto inteiro (seja em que escala for, inclusive o prprio universo espao-temporal). ]@ o 
primeiro grupamento de adio partitiva que permite ao esprito conceber a composio atomstica anterior 
a qualquer experincia propriamente cientfica.

2. A seriao das relaes assimtricas correspondem as operaes de posicionamento (ordem espacial ou 
temporal) e de deslocamento qualitativo (simples mudan-
4a de ordem, independentemente da medida).

3-4. As substituies e as relaes simtricas espaotemporais correspondem s substituies e s simetrias 
lgicas.

5-8. As operaes multiplicativas combinam simplesmente as precedentes segundo vrios sistemas ou 
dimens es.

Ora, assim como as operaes numricas podem ser consideradas como exprimindo uma simples fuso dos 
grupamentos de classes e de relaes assimtricas, do mesmo modo as operaes de medida traduzem a 
reunio num s todo das operaes de partio e deslocamento.

III. Podem-se encontrar as mesmas reparties quanto s operaes referentes aos valores, isto , 
exprimindo as relaes de meios e fins que desempenham papel essencial na inteligncia prtica (e cuja 
quantificao traduz o valor econmico).

IV. Finalmente, o conjunto desses trs sistemas de operaes (I a III) pode traduzir-se sob forma de 
simples proposies, donde uma lgica das proposies na base de implicaes e incompatibilidades entre 
funes proporcionais:  o que constitui a lgica, no sentido habitual do termo, assim como as teorias 
hipottico-dedutivas prprias das matemticas.

56              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Equlbrio e gnese

PrGpusemo-nos, neste captulo, encontrar uma nterpretao do pensamento que no se choque com a 
lgica como contra um dado primeiro e inexplicvel, mas que respeite o carter de necessidade formal 
prprio da lgica axiomtica, conservando ao mesmo tempo, na inteligncia, a sua natureza psicolgica 
essencialmente ativa e construtiva.

Ora, a existncia dos grupamentos e a possibilidade de sua axiomatizao rigorosa satisfazem a primeira 
dessas condies: a teoria dos grupamentos pode atingir o rigor formal, enquanto ordenando o conjunto 
dos elementos logsticos e das operaes em totalidade comparveis aos sistemas gerais de que se valem as 
matemticas.

Por outro lado, do ponto de vista psicolgico, sendo as operaes atividades componveis e reversveis, 
mas ainda atividades, a continuidade entre o ato de inteligncia e o conjunto dos processos adaptativos 
continua assim assegurada.

Mas com isso o problema da inteligncia est apenas apresentado, e sua soluo est ainda totalmente 
dependente de ser encontrada. Tudo o que a existncia e descrio dos grupamentos nos ensinam  que, 
em certo nvel, o pensamento atinge um estado de equilbrio. Sem dvida, eles nos informam sobre o que 
vem a ser este equilbrio: um equilbrio ao mesmo tempo mvel e permanente, tal como a estrutura das 
totalidades operatrias se conserva quando assimilam a si elementos novos. Sabemos, ainda, que esse 
equilbrio mvel supe a reversibilidade, o que , de resto, a definio mesma de um estado de equilbrio 
de acordo com os fsicos ( segundo esse modelo fsico real e no segundo a reversibilidade abstrata do 
esquema logstico que se deve conceber a reversibilidade dos mecanismos da inteligncia constituda) . 
Mas nem a constatao desse estado de equilbrio nem mesmo o enunciado de suas condies necessrias 
constituem ainda uma explica o.

Explicar psicologicamente a inteligncia consiste em historiar seu desenvolvimento, mostrando como este 
chega, necessariamente, ao equilbrio descrito. Desse ponto de vista, o trabalho da psicologia  comparvel 
ao da enibriologia, trabalho a princpio descritivo e que consiste em analisar as fases e os perodos da 
morfognese

A NATUREZA DA INTELIGNCIA                 57

at o equilbrio final constitudo pela morfologia adulta, mas pensamento que se toma causal desde que os 
fatores que asseguram a passagem de um estgio ao seguinte so postos em evidncia. Nossa tarefa  clara, 
portanto: trata-se agora de reconstituir a gnese ou as fases de formao da inteligncia, at poder elucidar 
o nvel operatrio final cujas formas de equilbrio acabamos de descrever. E, como no se reduz o 
superior ao inferior -

salvo sob condio de mutilar o superior ou enriquecer de antemo o inferior - a explicao gentica s 
poderia consistir da demonstrao de como, em cada novo degrau, o mecanismo dos fatores sob confronto 
e conducentes a um equilbrio ainda incompleto leva ao nvel seguinte mediante a prpria operao de os 
equilibrar.  desse modo que, aos poucos, podemos esperar nos darmos conta da constituio paulatina do 
equilbrio operatrio sem a preformar desde o incio ou a fazer surgir do nada durante o seu itinerrio.

A explicao da inteligncia equivale, pois, em resumo, a pr as operaes superiores em continuidade 
com o desenvolvimento, sendo este concebido como uma evoluo dirigida pelas necessidades internas do 
equilbrio. Ora, essa continuidade funcional alia-se muito bem  distino das estruturas sucessivas. Como 
vimos, podemos representar a hierarquia das condutas, do reflexo e das percepes globais de incio, 
como uma extenso progressiva das distncias e uma complicao progressiva dos trajetos que 
caracterizam as trocas entre o organismo (sujeito) e o meio (objetos) : cada uma dessas extenses ou 
complicaes representa, pois, uma nova estrutura, ao passo que sua sucesso est sujeita s necessidades 
de um equilbrio que deve ser sempre mais mvel, em funo da complexidade. 0 equilbrio operatrio 
realiza essas condies ao ensejo do mximo de distncias possveis (visto que a inteligncia procura 
abranger o universo) e da complexidade dos trajetos (visto que a deduo  capaz dos maiores desvios): 
assim, deve-se conceber eses equilbrio como o termo de uma evoluo cujas fases ficam carentes de um 
histrico.

Desse modo, a organizao das estruturas operatrias mergulha suas raizes muito aqum do pensamento 
refletido e at as fontes da prpria atividade. E, devido a que as operaes sejam grupadas em totalidades 
bem estruturadas, so todas as estruturas de nvel inferior, perceptivas e

58               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

motoras s quais se trata de as comparar. 0 caminho a seguir est pois inteiramente delineado: analisar as 
rela es da inteligncia com a percepo (Cap. 3), com o hbito motor (Cap. 4). Em seguida, estudar a 
formao das operaes no pensamento da criana (Cap. 5) e sua socializao (Cap. 6). S ento a estrutura 
de grupamento que caracteriza a lgica viva em atuao revelar sua verdadeira natureza, seja inata, 
seja emprica e simplesmente imposta pelo meio, seja, enfim, expresso das trocas sempre mais numerosas e 
complexas entre o sujeito e os objetos: trocas de inicio incompletas, instveis e irreversveis, mas que 
adquirem, aos poucos, pelas prprias necessidades do equilbrio a que esto adstritas, a forma de 
composio reversvel prpria do grupamento.

SEGUNDA PARTE

A INTELIGNCIA

E AS FUNES, SENSRIO-MOTORAS

3

A Inteligncia

e a Percepo

A percepo  o conhecimento que adquirimos dos objetos, ou de seus movimentos, pelo contato direto e 
atua4 ao passo que a inteligncia  um conhecimento subsistente quando intervm os desvios e aumentam 
as distncias espao-temporais entre o sujeito e os objetos. Poderia, portanto, acontecer que as estruturas 
intelectuais, e sobretudo os grupamentos operatrios que caracterizam o equilbrio final do 
desenvolvimento da inteligncia, preexistissem no todo ou em parte desde o incio, sob a fon-na de 
organizaes comuns  percepo e ao pensamento. Essa , em particular, a idia central da Teoria da 
Forma que, se por um lado despreza a noo de grupamento reversivel, por outro descreveu as leis de 
estruturao de conjunto que regem simultaneamente, segundo ela, tanto a percepo, a motricidade e as 
funes elementares como o prprio raciocnio e em especial o silogismo (WertheiMer). , pois, 
indispensvel que partamos das estruturas percepetivas, para examinar se no seria possvel extrair delas 
uma explicao de todo o pensamento, inclusive dos grupamentos como tais.

Histrico

Na histria da Psicologia, desde o incio foi sustentada por alguns autores a hiptese de uma relao 
estreita entre a percepo e a inteligncia, hiptese afastada por

62               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

outros tambm desde o incio. S mencionaremos aqui os autores de estudos experimentais, em oposio 
aos numerosos filsofos que se limitaram a refletir sobre o assunto. Exporemos tambm o ponto de vista 
dos experimentadores que pretenderam explicar a percepo mediante interveno da inteligncia, assim 
como dos que procuram deduzir esta daquela.

Sem dvida, foi Helmholtz quem primeiro formulou o problema das relaes entre as estruturas 
perceptivas e as estruturas operatrias, sob a forma moderna. Sabe-se que a percepo visual  suscetvel 
de atingir certas constncias% que suscitaram e continuam sempre suscitando uma srie de trabalhos: uma 
grandeza  percebida quase corretamente em profundidade, no obstante o encurtamento notvel da 
imagem retiniana e a diminuio perspectiva; uma forma  percebida no obstante as inverses; uma cor  
percebida e discernida tanto na sombra como em plena luz, etc. Ora, Helrnholtz procurava explicar essas 
constneias perceptivas pela interveno de um raciocnio inconsciente% que viria corrigir a sensao 
imediata apoiando-se nos conhecimentos adquiridos. Quando se recordam as preocupaes de Helmho?'z 
quanto  formao da noo de espao, imagina-se bem como essa hiptese devia ter uma significao 
determinada em seu pensamento, e Cassirer sups (ele mesmo retomando a idia por sua conta) que o 
grande fisiologista, fsico e gemetra procurava explicar constncias perceptivas mediante uma espcie de 
grupo geomtrico imanente a essa inteligncia inconsciente em atuao na percepo. Ora, a coisa  de 
grande interesse para o confronto, que empreendemos aqui, dos mecanismos intelectuais e perceptivos. 
De fato, as teonstneias perceptivas so comparveis, no plano sensrio-motor, ao que so as diversas 
noes de conservao, que caracterizam as primeiras conquistas da inteligncia (conservao dos 
conjuntos, da substncia, do p-so, do volume, etc., ao ensejo de deformaes intuitivas) : ora, essas noes 
de conservao, sendo sempre devidas  interveno de um grupamento ou de um grupo de 
operaes, se as constncias visuais fossem por sua vez atribuveis a um raciocnio inconsciente em forma 
de grupo, haveria assim continuidade estrutural direta entre a percepo e a inteligncia.

S Hering j respondia a Helmholtz quanto a que a interveno do conheci@nento intelectual no 
modifica uma

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS        63

percepo: tem-se perceptivelmente a mesma iluso de tica, ou de peso, etc., quando se conhecem os 
valores objetivos dos dados percebidos, Disso ele conclui, assim, que o raciocnio no intervm, 
absolutamente, na percepo, e que as constncias so devidas a puras regulaes fisiolgicas.

Mas tanto Helniholtz como Hering acreditavam na existncia de sensaes anteriores  percepo e ento 
concebiam a constncia perceptiva como uma correo das sensaes, atribuindo-lhes, pois, um  
inteligncia, e o outro aos mecanismos nervosos. 0 problema renovou-se depois que Von EhrenfeIs 
descobriu, em 1891, as qualidades, perceptivas de conjunto (Gestalqualitten), tais como as de uma melodia 
reconhecvel no obstante transposio para tonalidade diferente da partitura (portanto, nenhuma sensao 
elementar podendo continuar a mesma). Ora, dessa descoberta surgiram duas escolas: uma continuando 
Helmholtz em seu recurso  inteligncia, e a outra acompanhando Rering na sua negao do papel da 
inteligncia. A Escola de Gratz, com efeito (Meinong, Benussi, e outros), continua acreditando nas 
sensaes e interpreta ento a qualidade de conjunto como o produto de uma sntese: sendo esta sntese 
transportvel,  concebida como devida  inteligncia em si. Meinong foi ao ponto de elaborar, sobre essa 
interpretao, toda uma teoria do pensamento, calcada na idia de totalidade (sendo que os objetos 
coletivos asseguram a ligao do perceptivo com o conceitual). A Escola de Berlim, pelo contrrio, que 
est no ponto de partida da Psicologia da Forma, inverteu as posies: as sensaes no mais existem 
para ela a ttulo de elementos anteriores  percepo ou independentes dela (trata-se de contedos 
estruturados e no mais 4estruturantes), e a forma total, cuja noo  ento generalizada para toda 
percepo, no mais  concebida como resultado de uma sntese, mas, isto sim, como fato primitivo, de 
produo inconsciente e de natureza tanto fisiolgica como psicolgica: essas formas (Gestalt) 
encontram-se inclusive em todos os estgios da hierarquia mental, e pode-se pois esperar, segundo a 
Escola de Berlim, uma explicao da inteligncia a partir das estruturas perceptivas, em vez de fazer 
intervir, de maneira incompreensvel, o raciocnio na percepo como tal.

Na seqncia das pesquisas, uma escola chamada da GeIstalkreis (von Weizscker, Auesperg e outros) 
tentou

64               PSICOLOGIA DA INTEILIGNCIA

ampliar a idia de estrutura de conjunto, nela englobando desde o incio a percepo e o movimento 
concebidos como necessariamente solidrios: a percepo suporia, ento, a interveno de antecipaes e 
de reconstituies motoras, que, sem implicar a inteligncia, no entanto a anunciam. Pode-se, portanto, 
considerar essa corrente como renovando a tradio helmholtziana, ao passo que outros trabalhos 
contemporneos permanecem fiis  inspirao de Rering de uma interpretao. da percepo pela 
fisiologia pura (Pirc>n e outros).

A Teoria da Forma e sua interpretao da inteligncia

Meno especial deve ser feita do ponto de vista da Forma, no somente porque essa escola renovou a 
posio de grande nmero de problemas, mas sobretudo porque ofexeceu uma teoria completa da 
inteligncia, que continuar mesmo para seus adversrios, como modelo de interpretao psicolgica 
coerente.

A idia central da Teoria da Forma  que os sistemas mentais jamais se constituram pela sntese ou 
associao de elementos dados no estado isolado antes de sua reunio, mas consistem sempre de 
totalidades organizadas desde o incio sob uma forma ou estrutura de conjunto. Assim - que uma 
percepo no  a sntese de sensaes prvias: ela  regida em todos os nveis por um campo cujos 
elementos so interdependentes pelo prprio fato de que so percebidos juntos. Por exemplo, um nico 
ponto negro visto numa grande folha de papel no poderia ser percebido como elemento isolado, por mais 
s que esteja, visto que se destaca a ttulo de figura sobre um fundo constitudo pelo papel, e que essa 
relao figura e fundo supe a organizao do campo visual inteiro. Isso  tanto mais verdadeiro quanto se 
poderia, a rigor, perceber a folha como o objeto (a figura) e o ponto negro como um furo, isto , como a 
nica parte visvel do fundo. Por que se prefere, ento, o primeiro modo de percepo? E por que, se 
em vez de um nico ponto vem-se trs ou quatro bastante prximos,  impossvel deixar de reuni-los em 
formas virtuais de tringulos ou de quadrilteros?  que os elementos percebidos num mesmo campo so 
imediatamente ligados em estruturas de conjunto sujeitas a leis precisas, que so as 9eis de organizao.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       65

Essas leis de organizao, que regem todas as relaes de um campo, nada mais sao, na hipotese 
gestaltista , que leis de equilbrio regendo ao mesmo tempo as correntes nervosas desencadeadas pelo 
contato psqwco com os objetos exteriores, e pelos prprios objetos, reunidosnum, circuito total que 
abrange, pois, simultaneamente, o organismo e seu meio circundante prximo. Desse ponto de vista, um 
campo perceptivo (ou motor, etc.)  comparvel a um campo de foras (eletromagnticas, etc.) e  regido 
por princpios aniogos, de mnimum, de mnima atividacie, etc. Diante de uma multiplicidade de elementos, 
ns lhes imprimimos, ent o, uma forma de conjunto que no  uma forma qualquer, mas a mais simples 
forma possvel que exprima a estrutura do campo: sero, portanto, regras de simplicidade, de regularidade, 
de proximidade, de simetria, etc. que determinaro a forma percebida. Donde uma lei essencial (chamada 
lei de pregnncia): de todas as formas possveis, a forma que se impe  sempre a melhor, isto , a mais 
bem equilibrada. Alm do mais, uma boa forma  sempre suscetvel de ser transposta como uma melodia 
cuja tonalidade seja alterada. Mas essa transposio, que demonstra a independncia do todo em relao s 
partes, tambm se explica pelas leis do equilbrio: so as mesmas relaes entre os novos elementos que 
chegam  mesma forma de conjunto como as relaes entre os elementos anteriores, no graas a uma 
atividade de compa- rao, mas por uma constituio do equilbrio, como a gua de um canal assume a 
mesma forma horizontal, mas em niveis diferentes, depois da abertura de cada comporta. A caracterizao 
dessas boas formas e o estudo dessas transposies ensejaram uma multido de trabalhos experimentais 
de certo interesse, em cujo pormenor  intil entrar rio presente livro.

Por outro lado, o que importa observar com cuidado, como essencial  teoria,  que as leis de 
organizao so concebidas como independentes do desenvolvimento e, por conseguinte, como comuns 
a todos os nveis. Essa afirmao  evidente se a limitarmos  organizao funcional, ou equilbrio 
sincrnico das condutas, porque a necessida@ de deste ltimo se impe em todos os degraus, donde a 
continuidade funcional sobre a qual ternos insistido. Mas, habitualmente se contrapem a esse 
funcionamento invariante as estruturas sucessivas, encaradas do ponto de vista diaernico e que variam 
precisamente de um degrau

66               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

a outro. Ora, o peculiar da Gestalt  o reunir num todo a funo e a estrutura sob o nome de 
organizao% e considerar as leis desta como invariveis. Assim  que os psiclogos da Forma se 
esforaram por uma acumulao impressionante de materiais, em mostrar que as estruturas perceptivas so 
as mesmas na criancinha e no adulto, e sobretudo nos vertebrados de todas as categorias. A nica 
diferena entre a criana e o adulto seria a importncia, relativa de certos fatores comuns de organizao, 
da pro-@ ximidade, por exemplo, mas o conjunto dos fatores permanece o mesmo, e as estruturas que 
resultam desses fatores obedecem s mesmas leis.

Sobretudo, o famoso problema das constncias perceptivas deu ensejo a uma soluo sistemtica cujos dois 
pontos seguintes devem ser ressaltados. Em primeiro lugar, uma constncia tal como a da grandeza no 
constituiria a correo de uma sensao inicial deformante, ligada a uma imagem retiniana reduzida, visto 
que no existe sensao inicial isolada, e que a imagem retiniana no passa de um elo no privilegiado na 
cadeia, cujo circuito total liga os objetos ao crebro por meio das correntes nervosas em jogo: , pois, 
imediata e diretamente aue se assegura ao objeto, visto em profundidade, sua grandeza real simplesmente 
em virtude das leis de organizao que tornam essa estrutura a melhor de todas. Em segundo lugar, as 
constncias perceptivas no seriam adquiridas, mas dadas tais quais em todos os nveis, no animal e no 
lactente como no adulto. As aparentes excees experimentais seriam devidas ao fato de que o campo 
perceptivo nem sempre  bastante estruturado. A melhor constncia  achada quando o objetivo fez parte 
de uma configurao de conjunto, como uma seqncia de objetos seriados.

No que se refere  inteligncia, ela recebeu, desse ponto de vista, uma interpretao notavelmente simples 
e que seria suscetvel, caso verdadeira, de relacionar quase diretamente as estruturas superiores (e 
sobretudo os grupamentos operatrios que descrevemos) s formas mais elementares de ordem 
sensrio-motora e mesmo perceptiva. So especialmente dignas de nota trs aplicaes da teoria da Forma 
ao estudo da inteligncia: a de KoehIer  inteligncia sensrio-motora, a de Wertheimer  estrutura do 
silogismo e a de Dunker ao ato de inteligncia em geral.

A INTELIGNCIA E AS FUNES SENSRIO-MOTORAS       67

Para Koeliler, a inteligncia aparece quando a percepo no se prolonga diretamente em movimentos 
suscetveis de assegurar a conquista do objetivo. Um chimpanz em sua jauia procura atingir o truio situado 
fora cie seu alcance: ser necessrio, ento, um intermedirio, cujo emprego definir a complicao 
prpria da ao inteligente. Em que consiste esta? Se uma vara for posta  disposio do rnLeaco, mas 
numa posio qualquer, ela  vista como um objeto indiferente: colocada paralelamente ao brao cio 
animal, ser bruscamente percebida como um prolongamento possvel da mo. At ento neutra, a vara 
receber assim uma significao devido  sua incorporao na estrutura do conjunto. 0 campo ser, pois, 
reestruturado, e so as reestrutura es sbitas que, segundo KoehIer, iro caracterizar o ato de 
inteligncia: a passagem de uma estrutura menos boa e uma estrutura melhor  a essncia da compreenso, 
simples continuao, por conseguinte, mas mediata ou indireta da prpria percepo.

Trata-se do princpio explicativo que encontramos em Wertheimer em sua interpretao gestalista do 
silogisnio. A premissa maior  uma forma comparvel a certa estrutura perceptiva: todos os homens, no 
exemplo clssico de silogismo, constituem assim um conjunto que se representa centrado no interior do 
conjunto dos mortais. A premissa menor procede igualmente: Scrates  um indivduo centrado no 
crculo dos homens. A operao que ir tirar a concluso dessas premissas: logo Scrates  mortal 
equivale pois simplesmente  reestruturao do conjunto, fazendo desaparecer o crculo intermedirio (os 
homens), aps t-la situado com seu contedo no crculo grande (os mortais). 0 raciocnio , portanto, uma 
recentralizao11: l'Scrates  como que descentrado da classe dos homens para ver-se recentrado na 
classe dos mortais. 0 silogismo, desse modo, decorre simplesmente da organizao geral das estruturas:  
anlogo nisso s reestruturaes que caracterizam a inteligncia prtica de que fala Koehler, mas procede 
em pensamento e no mais em ao.

Duncker, finalmente, estuda a relao dessas compreenses bruscas (Einsicht ou restruturao inteligente), 
com a experincia, de modo a dar o golpe de misericrdia no empirismo associacionista, que a noo de 
Gestalt contradiz desde o princpio. Para esse fim, ele analisa diversos problemas da inteligncia e acha em 
todos

68              PSICOLOGIA DA INTIELIGNCIA

os domnios que a inteligncia adquirida desempenha funo apenas subalterna no raciocnio: a 
experincia jamais apresenta significao para o pensamento a no ser em. funo da organizao atual.  
esta ltima, isto  , a estrutura do campo presente, que determina os recursos possveis s experincias 
passadas, seja tornando-as inteis, seja ordenando uma evocao e utilizao das lembranas. 0 raciocnio 
, assim, um combate que forja suas prprias armas, e tudo nele se explica por leis de organizao, 
independentes da histria do indivduo e assegurando no total a unidade natural das estruturas de todo 
nvel, das formas perceptivas elementares com as do pensamento mais elevado.

Crtica da Psicologia da Forma

S se poderia concordar com a Psicologia da Forma no que se refere  boa furidamentao de suas 
descries. o carter de totalidade prprio das estruturas mentais, tanto perceptivas como inteligentes; a 
existncia da boa forma e suas leis; a reduo das variaes de estrutura a formas de equilbrio, etc. tm 
apoio de to numerosos trabalhos experimentais que essas noes adquirirana o merecicio prestgio em 
tocia a psicologia contempornea. Sobretudo, o modo de anlise que consiste em sempre traduzir os fatos e 
termos de campo total  o nico legtimo, sendo que a reduo em elementos atomsticos altera sempre a 
unidade do real.

Mas deve-se ter clara compreenso de que, se as leis de organizao no decorrem, alm da psicologia e 
da biologia, de formas fsicas absolutamente gerais (Koe.hler),6 ento a linguagem das totalidades no 
passa de um modo de descrio, e a existncia das estruturas totais exige uma explicao que no est 
absolutamente includa no fato da prpria totalidade. Foi o que admitimos quanto aos nossos prprios 
grupamentos, e impe-se admiti-lo tambm quanto s formas ou estruturas elementares.

0 As formas fsicas, segundo Koehler, desempenham o mesmo papel em relao s estruturas mentais como as idias eternas, de Russell, em 
relao aos conceitos, ou como os quadros a priori em relao  lgica viva.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSMO-MOTORAS        61)

Ora, a existncia geral e mesmo fsica das leis de organizao implica, pelo menos - e os tericos da 
Forma so os primeiros a afirmar isso - sua invarincia no transcurso do desenvolvimento mental. A questo 
prvia, para a doutrina ortodoxa da Forma (atemo-nos aqui a essa ortodoxia, mas  preciso notar que certo 
nmero de partidrios mais cautelosos cia Gestalt, tais como Gello e Goldstein, rejeitaram a hiptese de 
formas f sicas),  pois, a da permanncia, durante o desenvolvimento mental, de certas formas essenciais 
de organizao: sobretudo a das constncias perceptivas.

Apenas, no fundamental, cremos poder sustentar que, no estado atual dos conhecimentos, os fatos se 
opem a tal afirmao. Sem entrar em pormenores, e restringindonos ao terreno da psicologia da crianca e 
da constncia das grandezas,  preciso ressaltar, com efeito, as poucas questes seguintes:

1.o) H. Franck7 acreditou poder estabelecer a constncia das grandezas em crianas de 11 meses. Ora, a 
tcnica de suas experincias suscitou discusso (Beyrl) e, mesmo que, no todo o fato fosse exato, 11 meses 
representam j considervel desenvolvimento da inteligncia sensrio-motora. E. Brunswick e Cruikshank 
verificaram um desenvolvimento progressivo dessa constncia durante os seis primeiros meses.

2.o) Certas experincias que fizemos juntamente com Lembercier sobre crianas de 5 a 7 anos, e 
consistindo de comparaes (duas a duas) de alturas em profundidade> permitiram-nos ressaltar um fator 
do qual os expermentadores no se haviam apercebido: existe, em qualquer idade, um erro sistemtico 
de padro, tal que o elemento escolhido como padro seja superestimado, em relao s variveis que ele 
mede, em virtude de sua prpria funo de padro, e isso no caso em que esteja situado em

profundidade tanto quanto na situao prxima. Esse erro sistemtico do sujeito, combinado com suas 
estimativas em profundidade, pode ensejar uma constncia aparente (e ilusria) : tirante o erro de 
padro% nossos indivduos de 5 a 7 anos apresentaram uma subestimativa mdia

7 P"chol. Forskung, VII, 1926, pp. 137-154.

70               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

aprecivel, em profundidade, ao passo que os adultos chegam, em mdia, a uma superconstneia".8

3.o) BurzIaff,11 que tambm obteve variaes com a idade nas comparaes dois a dois, acreditou poder 
sustentar a hiptese gestaltista de uma permanncia da constncia das grandezas no caso em que os 
elementos a comparar estejam englobados numa configurao de conjunto, e sobretudo quando estejam 
seriados. Em minucio. sas experincias, Lembercier retomou, por solicitao nossa, esse problema das 
comparaes seriais em profundidade,10 e pde mostrar que no existe uma constncia relativamente 
independente da idade, a no ser num nico caso (o nico precisamente encarado por BurzIaff) : aquele 
em que o padro  igual ao termo mediano dos elementos a comparar. Por outro lado, desde que se tenha 
escolhido um padro perceptivelmente maior ou menor que o mediano, observam-se alteraes 
sistemticas em profundidade.  claro, ento, que a constncia do mediano decorre de outras causas que 
no seja a constncia em profundidade:  a sua posio privilegiada de mediano que garante a sua 
invarincia (ele  desvalorizado por todos os termos superiores a ele e revalorizado simetricamente por 
todos os termos inferiores, donde a sua estabilidade). As medidas feitas em outros termos mostram, no caso 
ainda, que a constncia especfica em profundidade no existe na criana, ao passo que se observa um 
aumento notvel, com a idade, das regulaes tendentes a essa constncia.

4.0) Sabe-se que Beyr111, ao analisar a constncia das grandezas em estudantes, descobriu, por seu turno, 
um aumento mdio dos casos de constncia at cerca de 10 anos, degrau a partir do qual a criana reage, 
finalmente,  maneira do adulto (evoluo paralela foi verificada por E. Brunswick no que se refere s 
constncias da forma e da cor).

A existncia de uma evoluo, com a idade, dos mecanismos conducentes s constncias perceptivas (e 
veremos mais adiante muitas outras transformaes genticas da percepo) conduz seguramente a uma 
reviso das

8 Arch. de Psychologie, XXIX (1943), pp. 255-308.
9 Zeitschr. f. Psychol., vol. 119 (1931), pp. 177-235.
10 Arch. de Psychol., XXXI (1946).
11 Zeitschr. f. Psychol., vol. 100 (1926), pp. 344-371.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       71

explicaes da Teoria da Forma. Em primeiro lugar, e sobretudo, se h de fato evoluo, as estruturas 
perceptivas, no mais se poderia afastar nem o problema de sua formao, nem o papel possvel da 
experincia no curso de sua gnese. Quanto a este ltimo ponto, E. Brunswick ps em evidncia a 
freqncia das formas (Gestalt) em. pricas ao lado das formas georntricas. Assim  que a figura 
intermediria entre a imagem da mo aberta e um esquema geomtrico de cinco ramos exatamente 
simtrico deu, em viso taquistoscpica no adulto, 15.0% em favor da mo (forma emprica) e 50% em favor 
da boa forma geomtrica.

Quanto  gnese das formas, que suscita pois uma questo essencial desde o momento em que se rejeite 
a hiptese das formas fsicas permanentes, convm notar desde logo a ilegitimidade do dilema: ou 
totalidades ou atomismo das sensaes isoladas. H em realidade trs termos possveis: ou a percepo  
uma sntese de elementos; ou constitui uma totalidade contnua; ou  um sistema de relaes (sendo, cada 
relao em si mesma uma totalidade, mas tornando-se analisvel a totilalidade do conjunto sem retornar com 
isso ao atomismo). Dito isso, nada impede de conceber as estruturas totais como produto de uma elaborao 
progressiva, procedendo no por snteses, mas por diferenciaes acomodadoras e assimilaes 
combinadas, nem de ps essa elaborao em relao com uma inteligncia dotada de atividade real em 
oposio ao jogo das estruturas pr-estabelecidas.

No que concerne  percepo, a questo crucial  a da transposio. Deveremos, com a Teoria da 
Forma, interpretar as transposies (de uma melodia de certa tonalidade a outra ou de certa forma visual 
por amplia o) como simples reaparecimentos de uma mesma forma de equilbrio entre novos elementos 
cujas relaes se tenham conservado (ef. os degraus horizontais de um sistema de eclusas), ou nelas 
deveremos ver o produto de uma atividade assimiladora que integre elementos comparveis num mesmo 
esquema? 0 prprio aumento da facilidade de transpor, em funo da idade (veja-se fim deste captulo), 
parece-nos impor esta segunda soluo. Alm do mais, convm, sem dvida, juntar  transposio em geral 
encarada, que  externa em relao s figuras, as transposies internas entre elementos de uma mesma 
figura,

72               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

,que explicam o papel dos fatores de regularidade, igual- ,dades, simetria, etc. inerentes s formas boas. 
Ora, essas duas possveis interpretaes da transposio comportam significaes bem diferentes no que se 
refere s relaces entre a percepo e a inteligncia e sobretudo  natureza desta ltima.

Procurando reduzir os mecanismos da inteligncia queles que caracterizam as estruturas perceptivas, elas 
mesmas redutveis a formas fsicas, a Teoria da Forma retorna, no fundo, ao empirismo clssico, embora 
por vias muito mais requintadas. A nica diferena (e, por considervel que seja, pouco influi perto de tal 
reduo)  que a nova doutrina substitui as associaes por totalidades estruturadas. Mas, nos dois 
casos, a atividade operatria  dissolvida no sensvel em proveito da passividade dos mecanismos 
automticos.

Ora, no se poderia insistir demasiado no fato de que, se as estruturas operatrias so ligadas por uma srie 
contnua de intermedirios s estruras perceptivas (e concordamos com isso sem dificuldade), h, porm, 
uma inverso fundamental de sentido entre a rigidez de uma forma percebida 8 a mobilidade reversvel 
das operaes. A comparao tentada por Wertheimer entre o silogismo e as formas estticas da 
percepo corre, desse modo, o risco de permanecer insuficiente. 0 essencial, no mecanismo de um 
grupamento (de onde se extraem os silogismos), no  a estrutura revestida das premissas ou a que 
caracteriza as concluses, mas antes o processo de composio que permite passar de uma s outras. Ora, 
esse processo estende, sem dvida, as reestruturaes e recentralizaes perceptivas (tais como aquelas 
que permitem ver alternativamente em furo ou em relevo um desenho equvoco). Mas  bem mais ainda, 
visto que  constitudo pelo conjunto das operaes mveis e reversiveis de emparelhamento e 
desemparelhamento (A + A
- B; A = B - A; A = B - A; B - A - A = 0 etc.) No mais so as formas estticas que contam na inteligncia, 
nem a simples passagem de sentido nico de um estado a outro (ou ainda a oscilao entre os dois), mas a 
mobilidade geral das operaes que engedram as estruturas. Segue-se que as estruturas em jogo diferem 
nos dois casos: uma estrutura perceptiva  caracterizada como a teoria da Forma insistiu, por sua 
irredutibilidade  com-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS        73

posio aditiva: ela , pois, irreversvel e no associativa. H, portanto, muito mais que uma recentrao11 
(Umzentrierung) num sistema de raciocnios: h uma descentrao geral, que supe uma espcie de 
dissoluo ou degelo de formas perceptivas estticas em proveito da mobilidaele operatria, e, por 
conseguinte, h possibilidade de uma construo infinita de estruturas novas, perceptveis ou ultrapassando 
os limites de qualquer percepo real.

Quanto  inteligncia sensrio-motora descrita por, KoehIer,  claro que as estruturas perceptivas 
desempenham nela um papel muito maior. Mas, devido ao prprio fato de que a Teoria da Forma se v 
obrigada a consider-las como surgindo diretamente das situaes como, tais, sem gnese histrica, 
KoehIer viu-se forado a retirar do domnio da inteligncia, por um lado, as tentativas: que precedem a 
descoberta das solues e, por outro, as correes e controle que as seguem. Quanto a isso, o estudo dos 
dois primeiros anos da criana nos levou a uma viso diferente das coisas:  certo que h tambm estruturas 
de conjunto ou formas na inteligncia sensriomotora da criana muito nova, mas, longe de serem 
estticas e sem histria, elas constituem  esquemas que procedem uns dos outros por diferenciaes e 
integraes sucessivas, e que devem assim ser acomodadas sempre s situaes, por tateios e correes, 
ao mesmo tempo que eles as assimilam a si. A conduta da vara  assim preparada por uma srie de 
esquemas anteriores tais como atrair para si o objeto por meio de seus prolongamentos (barbante ou 
suportes) ou o de bater um objeto contra outro.

Torna-se necessrio, ento, fazer  tese de Duncker as restries seguintes: no h dvida de que um ato 
inteligente s  determinado pela experincia anterior na medida em que a ela recorre. Mas esse 
relacionamento supe esquemas de assimilao, por sua vez decorrentes de esquemas anteriores, por 
diferenciao e coordenao. Os esquemas tm, pois, uma histria: h mtua reao entre a experincia 
anterior e o ato presente de inteligncia, e no ao de sentido nico do passado sobre o presente, como o 
pretendia o empirismo, nem recurso de sentido nico do presente ao passado, como o quer Duncker. , 
inclusive, possvel esclarecer essas relaes entre o presente e o passado, dizendo que o equilbrio  
atingida

74               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

quando todos os esquenias anteriores so eiicaixados nos atuais e que a inteligncia pode ento indiferentemente 
reconstruir os antigos por meio dos presentes e reciprocamente.

No todo, v-se ento que, embora correta em sua descrio das formas de equilbrio ou totalidades bem estruturadas, a 
teoria da Forma relega a plano subalterno a realdade do desenvolvimento gentico e a construo efetiva que a 
caracteriza, tanto no domnio perceptivo como no da inteligncia.

As diferenas entre a percepo e a inteligncia

A Teoria da Forma renovou o problema das relaes entre a inteligncia, e a percepo, ao mostrar a 
continuidade que liga as estruturas caractersticas desses dois domnios. Para resolver o problema, 
respeitando a complexidade dos fatos genticos,  preciso fazer o inventrio das prprias diferenas antes 
de recorrer s analogias conducentes a explicaes possveis.

A estrutura perceptiva  um sistema de relaes interdependentes. Pode-se sempre traduzir as totalidades 
em relaes, quer se trate de formas geomtricas, pesos, cores, ou de sons, sem destruir a unidade do todo. 
Basta ento, para destacar tanto as diferenas como as serneihanas entre as estruturas perceptivas e 
operatrias, exprimir ,essas relaes na linguagem do grupamento,  maneira pela qual os fsicos, 
formulando em termos reversveis os fenmenos termodinmicos, constatam que eles so intraduzveis em 
tal linguagem, porque irreversveis, a no correspondncia dos simbolismos sublinhando assim, tanto 
melhor, as diferenas em jogo. Quanto a isso, basta tomar as diversas iluses geomtricas conhecidas, 
fazendo variar os fatores em jogo, ou os fatos decorrentes da lei de Weber, etc. e formular em termos de 
grupamento todas as relaes, assim como suas transformaes em funo das modificaes exteriores.

Ora, os resultados assim obtidos mostraram-se muito ntidos: nenhuma das cinco condies do grupamento 
acha-se realizada no nvel das estruturas perceptivas, e, no caso em que parecem mais perto de estar, como 
no terreno das constncias anunciando a conservao opera-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS                 75

tria, a operao  substituda por simples regulaes, no inteiramente reversveis (e, por conseguinte, a 
meio caminho da irreversibilidade espontnea e da prpria regulao operatria).

Tomemos como p-4meiro exemplo uma forma siniplificada da iluso de Delboeuf: 12 um crculo A de 12 nim de raio inscrito num crculo B de 
15nim, parece maior que um crculo isoladq A, igual * Ai. Faamos variar o crculo B, dando-lhe sucessivamente de 15 * 13 nim de raio, e de 15 a 
40 ou 80 mm: a iluso diminui de 15 * 13 mm; ela diminui tambm de 15 a 36 mm, para tornar nula perto de 36 mm. (isto , quando o dimetro de 
Ai iguala a dimenso da zona compreendida entre B e A,) e negativa alm (subestimativa do crculo interior A,). Ora:

1.0) Ao traduzir em linguagem operatria as relaes em jogonessas transformaes perceptivas,  evidente, primeiro, que sua composio no 
poderia ser aditiva, dado no haver conservao dos elementos do sistema. Nisto, de resto, consiste a descoberta fundamental da Teoria da 
Forma, e  o que caracteriza, segundo ela, a noo de totalidade perceptiva. Se chamarmos de A a zona intercalar que assinala a diferena 
entre os crculos Ai e B, no se poderia pois@ escrever Ai + A = B, visto que Ai  deformado por sua interseo, em B, que B  deformado pelo 
fato de envolver Ai e que a zona A est mais ou menos dilatada ou comprimida segundo as relaes entre A e B. Pode-se comprovar essa no 
conservao da        totalidade do modo seguinte: se, partindo de certo valor de A, de A e B, ampliamos (objetivamente) Ai, reduzindo, pois, A, 
mas deixando B constante, pode acontecer que todo B seja visto menor que antes: ter-se- perdido, portanto, alguma coisa durante a 
transformao;    ou, pelo contrrio, ele ser visto maior e ocorrer alguma coisa de mais. Trata-se, ento, de encontrar um meio de formular 
essas transformaes n o compensadas.

2.0) Para esse fim, traduzamos as transformaes em termos de composio de relaes, e verificaremos a natureza irreversvel dessa 
composi o; e essa irreversibilidade exprime, sob outra forma, a ausncia de composio aditiva. Chamemos de r o aumento de semelhana 
(dimensional) entre Ai e B e d o aumento de diferena (dimensional) entre os mesmos termos. Essas duas relaes deveriam ser e permanecer o 
inverso uma da outra, isto , +r = -d e +d = -r (o sinal negativo indica a diminuio de diferena ou de semelhana). Ora, se partirmos da iluso nula 
(A, = 12 Mni e B        36 mm), verificamos que, ao aumentar as semelhanas objetivas          restringindo os crculos), o indivduo ainda as percebe 
reforadas: por conseguinte, a percepo aumentou de muito as semelhanas durante seu aumento objetivo e no manteve suficientemente as 
diferenas durante sua diminuio objetiva. Igualmente, se aumentarmos as diferenas objetivas (ao abrir os crculos), esse aumento  tambm 
exagerao.

12 Ver Piaget, Lambercier e outros. Arch. de Ps-ychol., t. XXIX (1942), pp. 1-107.

76                   PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Ocorre, ento, portanto, uma falta de compensao durante  transformaes. Convir ento escrever estas ltimas sob a forma seguint@e. 
destinada a assinalar seu carter incomponvel, do ponto de vista lgico:

r> - d      ou d> - r.

Com efeito, se, em cada figura tomada isoladamente, as rela?es de semelhana so, naturalmente, sempre o inverso das relaes de ,diferena, 
a passagem de uma figura a outra no mantm constante -a soma das semelhanas e das diferenas, visto que as totalidades no se conservam. 
 nesse sentido que se pode legitimamente consi- ,derar os aumentos de semelhana como sobrepujando as diminuies de diferena, ou o 
inverso.

Nesse caso,  possvel exprimir a mesma idia de modo mais conciso, dizendo simplesmente que a transformao das relaes  irreversvel, 
visto que se acompanha de uma transformao no compensada P tal que:

r = - d + Prd ou d = -r + Prd.

3.0) Mais ainda, nenhuma composio de relaes perceptivas  independente do caminho percorrido (associatividade), mas cada relao 
percebida depende daquelas que imediatamente a precederam. Assim  que a percepo de um mesmo crculo A dar resultados 
sensivelmente diferentes segundo seja comparado a crculos de referncia seriados em ordem ascendente ou descendente. Nesse caso, a 
medida mais objetiva  de ordem concntrica, isto , procedendo por elementos ora maiores ora menores que A, de modo a compensar umas 
pelas outras as deformaes devidas s comparaes anteriores.

4.0 e 5.0) , pois, evidente que um mesmo elemento no permanece idntico a si mesmo, segundo seja comparado a outros, diferentes dele ou 
de mesmas dimenses: seu valor ir variar incessantemente em funo das relaes dadas, tanto atuais como anteriores.

H, pois, a impossibilidade de reduzir um sistema perceptivo a um grupamento, a menos que reduzindo as 
desigualdades a igualdades pela introduo de transformaes no compensadas P que constituam a medida das 
deformaes (iluses) e atestem a no aditividade ou no transitividade das relaes perceptivas, sua irreversibilidade, 
sua no associatividade e sua no identidade!

Essa anlise (que nos ensina, de resto, o que seria o pensamento se suas operaes no fossem grupadas!) mostra que 
a forma de equilbrio inerente s estruturas perceptivas  bem diferente da forma das estruturas operatrias. Nestas 
ltimas, o equilbrio  ao mesmo tempo mvel e permanente, as transformaes interiores ao sistema no o modificam, 
visto que so sempre exatamente compensadas, graas s operaes inversas reais ou vir-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       77

tuais (reversibilidade). Pelo contrrio, no caso das percepes, cada modificao do valor de uma das 
relaes em jogo acarreta uma transformao do conjunto, at que este constitua novo equilbrio, distinto 
daquele que caracterizava o estado anterior: h, pois, dezlocamento de equilbrio (como se diz em fsica, 
no estudo dos sistemas rreversveis como os sistemas termodinmicos) e no mais equilbrio permanente.  
o caso, por exemplo, de cada novo valor do crculo exterior B, na iluso h pouco descrita: a iluso 
aumenta, ento, ou diminui, mas no conserva seu valor inicial.

Ademais, esses deslocamentos de equilibrio obedecem a leis de maxima: determinada relao no cria 
uma iluso, e portanto no produz uma transformao no compensada P, at certo valor teve a ver com a 
das demais relaes. Passado esse valor, a iluso diminui, porque a deformao  ento compensada, em 
parte, sob o efeito de novas relaes do conjunto: logo, os deslocamentos de equilbrio ensejam 
regulaes, ou compensaes parciais, que se podem definir pela troca de sinal da quantidade P (por 
exemplo, quando os dois crculos concntricos estejam demasiado prximos ou demasiado distanciados, a 
iluso de Delboeuf diminui). Ora, essas regulaes, cujo efeito  pois de limitar ou moderar (como se diz 
em fsica) os deslocamentos de equilbrio, sob certos aspectos so comparveis s operaes da 
inteligncia. Se o sistema fosse de ordem operatria, todo aumento de um dos valores corresponderia  
diminuio de outro, e reciprocamente (haveria ento reversibilidade, isto , terse-ia P == 0); se, por outro 
lado, houvesse deformao sem freio ao ensejo de cada modificao exterior, o sistema no mais existiria 
como sistema: a existncia das regulaes manifesta, assim, o aparecimento de uma estrutura intermediria 
entre a irreversibilidade completa e a reversibilidade operatria.

Mas como explicar essa oposio relativa (dotada de um parentesco relativo) entre os mecanismos 
perceptivos e inteligentes? As relaes de que se compe uma estrutura de conjunto, tal como a de uma 
percepo visual, exprimindo as leis de um espao subjetivo, ou espao perceptivo, que se pode analisar e 
comparar ao espao geomtrico, ou espao operatrio. As iluses (ou transformaes no compensadas do 
sistema das relaes) podem

78              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

ser ento concebidas como deformaes desse espao, no sentido da dilatao ou da contrao.13

Ora, desse ponto de vista, um fato fundamental domina tocias as reiaoes entre a percepo e a 
inteligncia. Quando a inteligncia compara dois termos um ao outro, nem o comparante nem o comparado 
(em outras palavras,, nem a escala nem o medido) se deformam pela prpria comparao. Pelo contrrio, no 
caso da comparao perceptiva, e sobretudo quando um elemento serve de padro fixo de avaliao de 
elementos variveis, produz-se uma deformao sistemtica que denominamos com Lambercier erro de 
padro: o elemento a que mais se liga o olhar (em geral, o prprio padro de medida, quando a varivel 
est distante dele, mas  s vezes tambm a varivel, quando o padro de medida est perto dela e j 
conhecido)  sistematicamente superestimado, e isso nas comparaes feitas tanto num plano frontoparalelo 
quanto em profundidade14

Fatos como esse so apenas casos particulares de um processo muito geral. Se o padro de medida for 
superestimado (ou, em certos casos, a varivel), deve-se simplesmente a que o elemento por mais tempo 
olhado (ou, no mais das vezes, o olhado mais intensamente, etc.)  por isso mesmo ampliado, como se o 
objeto ou a regio sobre a qual se dirige o olhar apresente uma dilatao do espao perceptivo. Basta, 
quanto a isso, olhar alternativamente dois elementos iguais para ver que reforamos cada vez as dimenses 
daquele que fixarmos, para que essas deformaes sucessivas se compensem no total. Portanto, o espao 
perceptivo no  homogneo, mas , a cada instante, centrado, e a zona de centrao corresponde a uma 
dilatao espacial, ao passo que a periferia dessa

13 Assim  que, na iluso de Delboeuf, a superfcie do crculo inscrito Ai  dilatada pela vista s custas da superfcie da zona A> compreendida 
entre esse crculo e o crculo exterior B, se essa zona  for de dimenso inferior ao de dimetro de A,: se A> A, o efeito ser inverso.
14 A prova de que se trata realmente de um erro relacionado com a situao funcional do mensurante  que basta, para diminuir ou mesmo 
anular esse erro, dar a impresso de mudar o padro de medida ao ensejo de cada comparao (sempre recolocando-o cada vez)Basta, 
inclusive, para inverter o erro perceptivo, mandar fazer o julgamento verbal sobre o mensurante e no mais sobre o que  medidc> (se o indivduo 
disser A< B, pede-se o julgamento B> A), o qUe, inverte as posies funcionais.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       79

zona central  tanto mais reduzida quanto nos afastamos do centro. Esse papel da centrao e do erro do 
padro de mectida verilica-se no domnio do tato.

Mas se a centrao , assim, causa de deformaes, vrias centraes distintas corrigem os efeitos de 
cada uma. A descentrao, ou coordenao de centraes diferentes , por conseguinte, fator de 
correo. Vemos, ento, de pronto, o princpio de uma explicao possvel para as deformaes 
irreversveis e as regula es de que falamos h pouco. As iluses da percepo visual podem explicar-se 
pelo mecanismo das centraes quando os elementos da figura esto (relativamente) muito prximos uns 
dos outros para que haja descentrao (iluses de Delboeuf, Oppel-Kundt e outros). Inversamente, h 
regulao na medida em que houver descentrao, automtica ou por comparaes ativas.

Ora, percebemos agora a relao entre esses processos e aqueles que caracterizam a inteligncia. No  
apenas no domnio perceptivo que o erro (relativo) tem a ver com a centrao e a objetividade (relativa) 
com a descentrao. Toda a evoluo do pensamento da criana, cujas formas intuitivas iniciais so 
precisamente vizinhas das estruturas perceptivas, caracteriza-se pela passagem de um egocentrismo geral 
(a que voltaremos de novo no captulo 5)  descentrao intelectual; portanto, por um processo comparvel 
quele cujos efeitos constatamos. Mas a questo, por ora,  de captar a diferena entre a percepo e a 
inteligncia acabada, e, para esse fim, os fatos que precedem permitem circunscrever ainda mais a principal 
dessas oposies: aquela do que poderamos chamar de relatividade perceptiva com a relatividade 
intelectual.

De fato, se as centraes   se traduzem por deformaes cujo modo de formular      em referncia (e por 
contraste) com o grupamento j     vimos, o problema , ademais, de medi-las quando isso for possvel, e 
interpretar essa qualificao. Ora, isso  fcil no caso em que dois elementos homogneos sejam 
comparados entre si, tais como duas linhas retas que se prolonguem uma  outra. Pode-se, ento, 
estabelecer uma lei das centra es relativas% independente do valor absoluto dos efeitos da centrao, e 
exprimindo as deformaes relativas sob a forma de simples valor provvel, isto , pela relao das 
centraes reais com o nmero das centra es possveis.

so                   PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Sabe-se, de fato, que uma linha A, comparada a outra linha A,  desvalorizada por esta ltima caso esta seja maior que a primeira (A< A), e 
supervalorizada no caso inverso (A> A). 0 princpio do clculo , ento, considerar, em cada um desses dois casos, as centraes sucessivas em 
A e em A como dilatando alternativamente essas linhas proporcionalmente a seus comprimeDtos: a diferena dessas deformaes, expressa 
em grandezas relativas de A e A, d assim a supervalorizao ou a desvalorizao bruta de A, as quais devem ser, em seguida, divididas pelo 
comprimento total das linhas contguas A + A, visto que a descentrao  proporcional ao tamanho da figura de conjunto. OUcanos ento:

(A - A) A'/A                      (A - A)A/A

se A>A1 e                         se A<A A + A                            A + A

Alm do mais, se a medida for   feita sobre A, deve~se multiplicar essas relaes por A2/(A + A')2,     isto , pelo quadrado da relao entre a 
parte medida e o todo.

A curva terica obtida desse modo corresponde bem s medidas empricas das deformaes e, alm do mais, equivale com bastante exatido 
s medidas da iluso de Delboeuf15 (se A for inserido entre dois A e se duplicarmos ento esse valor A na frmula).

Essa lei das centraes relativas, expressa em linguagem qualitativa, significa simplesmente que toda diferena objetiva  acentuada 
subjetivamente pela percepo, mesmo no caso em que os elementos comparados sejam igualmente centrados peia vista. -ti;m outras palavras, 
todo, contraste  exagerado pela percepo, o que indica de imediato a interveno de uma relatividade especial desta ltima e distinta da 
relatividade da inteligncia. Isso nos leva  lei de Weber, cuja anlise  sobremodo instrutiva sob esse aspecto. Tomada em sentido estrito, a lei de 
Weber exprime, como se sabe, que a grandeza dos limiares diferenciais (as menores diferenas percebidas)  proporcional  dos elementos 
comparados: se uma pessoa distingue, por exemplo, 10 e 11 mm, porm no 10 e 10,5 mm, s distinguir lo e 11 mm e no 10 e 10,5 em.

Suponhamos, assim, que as linhas precedentes A e A sejam de valores muito prximos ou iguais. Se forem iguais, a centrao sobre A dilata A 
e desvaloriza A; depois, a centrao sobre M dilata A e desvaloriza A segundo as mesmas propores: donde a anulao das deformaes. 
Por outro lado, se forem ligeiramente desiguais, mas sua desigualdade continuando inferior s deformaes devidas  centrao, a centrao 
sobre A dar a percepo A>A e a centrao A

15 Veja-se nota da p. 84.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS                 81

a viso A'>A. Nesse caso, h contradio entre as estimativas (contrariamente ao caso geral em que uma 
desigualdade, comum aos dois pontos de vista, aparece simplesmente mais ou menos forte segundo se a 
fixe em A ou A). Essa contradio se traduz, ento, por uma espcie de hesitao (comparvel  
ressonncia em fsica) que no poderia chegar ao equilbrio perceptivo seno pela igualao A = A. Mas 
essa igualao permanece subjetiva e , pois, ilusria: ela equivale a dizer que dois valores quase iguais 
so confundidos pela percepo. Ora, essa indiferenciao  precisamente o que caracteriza a existncia 
dos limiares diferenciais e, como  prop,)i-cional, em virtude da lei das centraes relativas, aos 
comprimentos de A e de A, deparamo-nos assim com a lei de Weber.

A lei de Weber, aplicada aos limiares diferenciais, explica-se, pois, pela lei das centraes relativas. Alm 
do mais, como essa lei se estende s diferenas quaisquer (seja que as semelhanas sobrepujem as 
diferenas, como no interior do limiar, seja o inverso como no caso h pouco discutido), pode-se encar-la 
em todos os casos como exprimindo simplesmente o fator de proporcionalidade inerente s relaes de 
centraes relativas (para o tato, peso,     ete., como para a viso).

Eis-nos, pois, em via de anunciar mais            claramente a oposio, sem dvida essencial, que separa           
  a inteligncia da percepo. Traduz-se freqentemente a               lei de Weber dizendo que toda 
percepo  relativa. No se apreendem diferenas absolutas, visto que 1 g juntado a 10 g pode ser 
percebido, ao passo que essa percepo no ocorre juntando-se 1 g a 100 g. Por outro lado, quando os 
elementos diferem de modo considervel, os contrastes so ento acentuados, como o mostram os casos 
comuns de centraes relativas, e esse reforo  de novo relativo s grandezas em jogo (um ambiente 
parece quente ou frio segundo se venha de um lugar de temperatura mais baixa ou mais elevada). Quer se 
trate de semelhanas ilus rias (limiar de igualdade) ou de diferenas ilusrias (contrastes), tudo , portanto, 
relativo do ponto de vista da percepo. Mas no acontecer o mesmo com a inteligncia? Uma classe 
no ser relativa  classificao? E uma relao, no ser relativa ao conjunto das demais? Na realidade, a 
palavra relativo apresenta um sentido bem diferente nos dois casos.

A relatividade perceptiva  uma relatividade deformante, no sentido de que a linguagem corrente diz 
tudo  relativo% para negar a possibilidade da objetividade: a relao perceptiva altera os elementos que 
liga, e agora compreendemos a razo disso. Pelo contrrio, a relatividade da inteligncia  a prpria 
condio da objetividade-

.82              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

assim, a relatividade do espao e do tempo  a condio de sua prpria medida. Tudo se passa, pois, como 
se a percepo, obrigada a proceder passo a passo, por contato, imediato, mas marcial, com o seu objeto, o 
deformasse pelo prprio ato de o centrar, pronta a atenuar essas deformaes por descentraes 
igualmente parciais, ao passo que a inteligncia, abrangendo num nico todo um nmero bem maior de 
realidades, segundo trajetos mveis e flexveis, atinge a objetividade por uma descentrao muito maior.

Ora, essas duas relatividades, uma deformante e a ou- :tra objetiva, so sem dvida a expresso, ao mesmo 
tem- ,po, de uma oposio profunda entre os atos da inteligncia e as percepes, e de uma continuidade 
que pressupe, de resto, a existncia de mecanismos comuns. Por que, com efeito, as relaes so 
deformantes num caso e no em outro se a percepo assim como a inteligncia consistem ,ambas em 
estruturar e estabelecer relaes? No ser pelo ,fato de que as relaes deformantes so no apenas 
incompletas, mas insuficientemente coordenveis, ao passo ,que as relaes no deformantes repousam 
numa coordenao infinitamente generalizvel? E se o grupamento  o princpio dessa coordenao, e 
que sua composio reversvel prolongue as regulaes e descentraes perceptivas, no ser preciso, 
ento, admitir que as centraes so deformantes, visto que pouco numerosas, em parte fortuitas e 
resultantes assim de uma espcie de sorteio entre as que fossem necessrias para garantir a descentrao 
inteira e a objetividade?

Somos, pois, levados a indagar se a diferena essencial entre a inteligncia e a percepo no teria a ver 
com o fato de que esta seja um processo de ordem estatstica, relacionado a certa escala, ao passo que os 
processos de ,ordei-n intelectual determinariam as relaes de conjunto relacionados a uma escala 
superior. A percepo seria para a inteligncia o que  em fsica o domnio do irre-versvel (isto , 
precisamente, do acaso) e dos deslocamentos de equilbrio, em relao ao da mecnica propriamente dita.

Ora, a estrutura probabilista das lei perceptivas de que acabamos de falar cai precisamente sob o sentido, e 
,explica o carter irreversvel dos processos da percepo em oposio s composies operatrias, ao 
mesmo tempo

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS         83

bem determinadas e reversveis. Por que, com efeito, a sensao apareceria como o logaritmo da excitao 
(o que, exprime sem mais a proporcionalidade enunciada pela iei de Weber)? Sabe-se que a lei de Weber 
no se aplica apenas aos fatos de percepo e aos fatos de excitao fisiolgica, mas tambm, entre outras, 
 sensibilizao de uma enapa fotogrfica: neste ltimo caso, ela significa simplesmente que as intensidades 
de sensiblizao so funo, da probabilidade de encontro entre os ftons que bombardeiam a chapa e as 
partculas de nitratos de prata que a compem (donde a forma logartmica da lei: relao entre a 
multiplicao das probabilidades e adio das intensidades). No caso da percepo,  fcil, igualmente, 
conceber uma grandeza, tal como o comprimento de uma linha, como um conjunto de pontos de fixao 
possvel do@ olhar (ou de segmentos oferecidos  concentrao). Quando se comparam duas linhas 
desiguais, os pontos correspondentes ensejaro combinaes ou associaes (no sentido matemtico) de 
semelhana, e os pontos no correspondentes a associaes de diferena (caso em que as associaes 
aumentam em razo geomtrica, enquanto o@ comprimento das linhas aumenta em razo aritmtica). Se a 
percepo procedesse segundo todas as combinaes possveis, no haveria ento deformao alguma (as 
associaes chegariam a uma relao constante e se teria r = d). Mas tudo se passa, ao contrrio, como se o 
olhar real constitusse uma espcie de sorteio e como se ele fixasse apenas certos pontos da figura 
percebida, desprezando os demais. l@ fcil de interpretar, ento, as leis precedentes em funo das 
probabilidades segundo as quais as centra&es orientam-se num sentido de preferncia a outro. No caso 
de, diferenas notveis entre duas linhas,  evidente que a maior das duas atrair mais o olhar, donde o 
excesso das associaes de diferenas (lei das centraes relativas no sentido do contraste), ao passo que, 
no caso das diferenas mnimas, as associaes de semelhana sobrepujaro as, outras, donde G limiar de 
Weber.16 (Pode-se mesmo calcular essas diversas combinaes e chegar  s frmulas mencionadas 
anteriormente).

Notemos, finalmente, que esse carter probabilist& das composies perceptivas, oposto ao carter 
determi-

16 Veja-se Piaget, Ensaio de interpretao probabilista da lei de, Weber, Arch. de Psychol., XXX (1944), pp. 95-139.

84               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

naao aas composioes operatrias, no explica apenas a relatividade deformante das primeiras e a 
relatividade objetiva das segundas. Explica, sobretudo, o fato capital sobre o qual insistiu a Psicologia da 
Forma: que, numa estrutura perceptiva, o todo  irredutvel  soma das partes. Com efeito, na medida em 
que o acaso intervm num sistema, este no poderia ser reversvel, visto que essa ocorrncia do acaso 
traduz sempre, de um modo ou de outro, a existncia de uma mistura, e que uma mistura  irreversvel. 
Disso resulta que um sistema que comporte um aspecto fortuito no poderia ser suscetvel de composio 
aditiva (na medida em que a realidade despreza as combinaes extremamente pouco provveis), em 
oposio aos sistemas determinados, que so reversveis e componveis operatoriamente. 17

No todo, podemos pois dizer que a percepo difere da inteligncia em que suas estruturas so 
intransitivas, irreversveis, etc., portanto, ncomponveis segundo as leis do grupamento, e isso porque a 
relatividade deformante que lhes  inerente traduz sua natureza essencialmente estatstica. Essa 
composio estatstica, pr pria das rela@ es perceptivas,  o mesmo que sua irreversibilidade e sua no 
aditividade, ao passo que a inteligncia orienta-se no sentido da composio completa, portanto, reversvel.

As analogias entre a atividade perceptiva e a inteligncia

Como, ento, explicar o inegvel parentesco entre as duas espcies de estrutura, ambas as quais implicam 
uma atividacie construtiva do indivduo e constituem sistemas de conjunto de relaes, alguns dos quais 
culminam, nos dois domnios, em constncias ou em noes de conservao? Como, sobretudo, explicar a 
existncia de inumerveis intermedirios que relacionam as centraes e des-

17 0 mais belo caso de composio no aditiva de ordem perceptiva  sem dvida fornecido por certa iluso de peso em que se percebe a parte 
A (um punhado de sucata) como mais pesada que todo o B constitudo de A mais A (uma caixa vazia de madeira leve, exatamente das 
mesmas dimenses de A). Tem-se ento B< A + W, e A>B, ao passo que objetivamente B = A + AI

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       85

centraes elementares, assim como as regulaes resultantes destas ltimas, nas prprias operaes 
intelectuais?

Ao que parece,  preciso distinguir, no domnio perceptivo, a percepo como tal - o conjunto das relaes 
dadas em bloco e de modo imediato, ao ensejo de cada centrao - e a atividade perceptiva interferindo 
entre outras no fato mesmo de centrar o olhar ou de mudar de centrao.  claro que essa distino 
permanece relativa, mas  digno de nota que cada escola seja obrigada a reconhec-la sob uma forma ou 
outra. Assim  que a Teoria da Forma, da qual todo o esprito leva a restringir a atividade do sujeito em 
proveito das estruturas de conjunto que se imporiam em virtude de leis de equilbrio ao mesmo tempo 
fsicas e fisiolgicas, foi obrigada a conceder uma funo s atitudes do sujeito: a atitude analtica  
invocada para explicar como as totalidades podem dissociarse parcialmente, e sobretudo a Einstellung, ou 
orientao do esprito do sujeito,  reconhecida como causa de numerosas deformaes da percepo em 
funo dos estados anteriores. Quanto  escola de Von. Weizcker, Aeursperg e Bulirmester invocam 
antecipaes e reconstituies perceptivas, que suporiam a interveno necessria da motricidade em toda 
percepo. E assim por diante.

Ora, se uma estrutura perceptiva , em si mesma, de natureza estatstica e incomponivel aditivamente,  
evidente que toda atividade que dirige e coordena sucessivas centraes diminuir a parte do acaso e 
transformar a estrutura em jogo no sentido da composio operatria (em graus diversos,  claro, e sem 
atingi-la completamente). Ao lado das diferenas manifestas entre os dois domnios, existem, pois, analogias 
no menos evidentes, a ponto de se ter dificuldades em dizer exatamente onde cessa a atividade 
perceptiva e onde comea a inteligncia. Eis por que no se poderia falar hoje de inteligncia sem 
esclarecer suas relaes com a percepo.

0 fato lunctamental, quanto a isso,  a existncia de um desenvolvimento das percepes em funo da 
evolu o mental em geral. A Psicologia da Forma insistiu com razo na invarincia relativa de certas 
estruturas perceptivs: a maior parte das iluses encontra-se em qualquer idade, e tanto no animal quanto 
no homem; os fatores que determinam as formas de conjunto parecem igualmente comuns a todos os 
nveis, etc. Mas esses mecanismos co-

86               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

muns abrangem sobretudo as percepes, de certo modo receptivas e imediatas,18 ao passo que a 
atividade perceptiva em s e seus eleitos mamiestam transformaes prolundas em funo do nvel mental. 
Alm das constncias da grandeza, etc., que a experincia atesta, no obstante a Teoria da Forma, se 
elaborarem progressivamente em funo de regulaes cada vez mais precisas, a simples medida das 
iluses mostra a existncia de modificaes devidas  idade, que seriam inexplicveis sem uma estreita 
relao da percepo com a atividade intelectual em geral.

Aqui,  preciso distinguir dois casos, correspondendo,, de um modo geral, ao que Binet chamava de 
iluses inatas e iluses adquiridas, e que  prefervel chamar de iluses primrias e secundrias 
simplesmente. As iluses primrias so redutveis aos simples fatores de centrao e decorrem, assim, da lei 
das centraes relativas. Ora, elas diminuem muito regularmente de valor em funo da, idade (erro de 
padro, iluses de Delboeuf, de Oppel, de MIler-Lyer, etc.), o que se explica facilmente pelo aumento 
das descentraes e das regulaes que elas comportam, em funo da atividade do sujeito diante de 
figuras. A criancinha fica de fato passiva no caso em que crianas maiores e adultos comparam, analisam e 
assim se dedicam a uma descentra o, ativa que se orienta no sentido da reversibilidade operatria. Mas 
h, por outro lado, iluses que aumentam de intensidade com o transcurso da idade Ou o desenvolvimento, 
tais como a iluso de peso, ausente nos anormais graves e que aumenta com o fim da infneia, para em 
seguida diminuir um pouco. Mas sabe-se que ela comporta, precisamene, uma espcie de antecipao das 
relaes de peso e de volume,  claro que essa antecipao supe uma atividade cujo aumento  natural 
que se d com a evoluo intelectual. Uma iluso como essa, produto de uma interferncia entre os fatores 
perceptivos primrios e a atividade perceptiva, pode portanto ser chamada de secundria, e veremos logo 
a seguir outras que so do mesmo tipo.

Dito isso, a atividade perceptiva assinala-se, em primeiro lugar, pela interveno da descentrao, que 
corrige os efeitos da centrao e constitui, assim, uma regulao das deformaes perceptivas. Ora, 
elementares e depen-

18 0 que no significa Passiva, visto que d provas j de 9eis de organizao.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       87

dentes das funes sensrio-motoras que sejam essas descentraes e regulaes,  claro que el:@Cs 
constituem toda uma atividade de comparao e de coordenao, aparentando-se  da inteligncia: olhar 
um objeto  j um ato, e conforme uma criana nova fixe seu olhar no primeiro ponto que surge ou o dirija 
de modo a abranger o conjunto das relaes, pode-se quase julgar quanto ao seu nvel mental. Quando se 
trata de confrontar objetos muito distantes de modo a poderem ser abrangidos nas mesmas centraes, a 
atividade perceptiva prolonga-se sob a forma de transportes no espao, como se a viso de um dos 
objetos fosse aplicada a outro. Esses transportes que constituem assim aproximaes (virtuais) de 
centraes, ensejam compara es propriamente ditas, ou duplos transportes que descentram, por suas 
idas e vindas, as deformaes devidas ao transporte em sentido nico. 0 estudo desses transportes nos 
mostrou, com efeito, uma ntida diminui o das deformaes devidas  idade,19 isto , um ntido progresso 
na avaliao das grandezas a distncia, e isso se explica por si mesmo, dado o coeficiente de atividade 
verdadeira que no caso ocorre.

Ora,  fcil mostrar que so essas descentraes e esses duplos transportes, com as regulaes especficas 
que suas diversas variedades ensejam, que asseguram as famosas constncias perceptivas da forma e da 
grandeza.  de fato muito notvel que quase nunca se obtenham em laboratrio constncias absolutas da 
grandeza: a criana subestima as grandezas a distncia (tendo em vista o erro de padro), mas o adulto 
quase sempre as superestima ligeiramente! Essas superconstneias que os autores no deixam de 
assinalar, mas sobre as quais no se detm, em geral, como se elas constitussem excees difceis, 
pareceram-nos ser a regra, e nenhum fato poderia atestar melhor a interveno de regulaes 
propriamente ditas na elaborao das constncias. Ora, quando se vem bebs, precisamente na idade em 
que se notou o incio dessa constncia (ao mesmo tempo exagerando muito o valor de sua preciso), 
dedicar-se a tentativas propriamente ditas, que consistem em aproximar ou distanciar intencionalmente de 
seus olhos os objetos que

19 Arch. de Psychol., XXIX (1943), pp. 173-253.

88               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

olham,20 som-os levados a pr a atividade perceptiva dos, transportes e das comparaes em relao com 
as manifestaes da prpria inteligncia sensrio-motora (sem com isso voltar aos raciocnios 
inconscientes de Helmholtz). Por outro lado, parece evidente que a constncia da forma dos objetos 
esteja relacionada com a prpria elaborao do objeto, sobre o que voltaremos a falar no captulo seguinte.

Em suma, as constncias perceptivas parecem ser o produto de aes propriamente ditas, que consistem 
em deslocamentos reais ou virtuais do olhar Ou dos rgos em jogo: os movimentos so coordenados em 
sistemas cuja organizao pode variar, do simples tateio dirigido at uma estrutura que lembre o 
grupamento. Mas, no plano perceptivo, o grupamento verdadeiro jamais  atingido,, e ocorrem apenas as 
regulaes devidas a esses deslocamentos reais ou virtuais. Eis por que as constneias perceptivas, ao 
mesmo tempo em que lembrando as invariantes operatrias, ou noes de conservao apoiando-se em 
operaes reversveis e grupadas, no chegam ao rigor ideal que s a completa reversibilidade e 
mobilidade da inteligncia lhe asseguraria. Todavia, a atividade perceptiva que as caracteriza est j 
prxima da composio intelectual.

Essa mesma atividade perceptiva anuncia igualmente, a inteligncia no domnio dos transportes temporais e 
das antecipaes propriamente ditas. Numa interessante experincia sobre as analogias visuais da iluso de 
peso, Usnadze-> apresenta a seus sujeitos dois crculos de 20@ e
28 mm de dimetro  , durante algumas fraes de segundos, e depois dois crculos de 24 mm: o crculo, de 
24 mm,, situado no local em que se achava o de 28 mm,  ento visto como menor que o outro (e o de 24 
mm, que substitui o de 20 mm  superestimado), por um efeito de contraste devido ao transporte no tempo 
(o que Usnadze chama de EinstelIung). Retomando, com Lambercier, as medidas dessa iluso com crianas 
de 5 a 7 anos e com adultos,22 verificamos os dois resultados seguintes, cuja reunio  muito sugestiva 
quanto s relaes da percepo

20 A Construo do Real na Criana (publicado em portugus por esta Editora).
21 P"chol. Forsch., XIV (1930), P. 366-
22 Arch. de Ps-ychol., XXX (1944), p. 139-196.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS               89

com a inteligncia: de um lado, o efeito Usnadze  sensivelmente mais forte no adulto que nas crianas 
(como a prpria iluso de peso), mas, por outro lado, desaparece mais rapidamente. Aps algumas 
apresentaes de
24 + 24 mm, o adulto volta aos poucos  viso objetiva, ao passo que a criana arrasta consigo um efeito 
residual. No se poderia explicar essa dupla diferena por simples traos mnsicos, a menos que obrigados 
a dizer que a memria do adulto  mais forte, mas seu esquecimento  mais rpido! Pelo contrrio, tudo se 
passa como se uma atividade de transposio e de antecipao se desenvolvesse com a idade, no duplo 
sentido da mobilidade e da reversibilidade, o que constitui um novo exemplo de evoluo perceptiva 
orientada no sentido da operao.

Uma elegante experincia de Auersperg e Buhrmester consiste em apresentar um simples quadrado desenhado em traos brancos que se faz 
mover girando num disco negro. Em pequenas velocidades, v-se diretamente o quadrado, embora a imagem retiniana consista j de urna cruz 
dupla envolvida por quatro traos dispostos em ngulo reto. A grandes velocidades, v-se unicamente a imagem retiniana, mas a velocidades 
intermedirias v-se uma figura de transio constituda de unia cruz simples, cercada de quatro traos. Como ressaltaram os autores, ocorre 
nesse fenmeno, sem dvida, uma antecipao sensrio-rnotora que permite ao sujeito reconstituir todo o quadrado (primeira fase), parte dele 
(segunda fase) ou que fracas-se (terceira fase), perturbado pela velocidade muito grande. Ora, com Lambercier e Demetriades, verificamos que, 
medida com crianas de
5 a 12 anos, a segunda fase (cruz simples) aparece cada vez mais tarde (isto , para um nmero de voltas sempre mais elevado), em

funo da idade: a reconstituio ou antecipao do quadrado em movimento , pois, tanto melhor (isto , se faz a velocidades &~-e maiores) 
quanto mais desenvolvido for o indivduo.

Melhor ainda, porm. Apresenta-se aos sujeitos duas hastes para comparar em profundidade, A a 1 metro, e 
C a 4 metros. Mede-se primeiro a percepo de C (subestimativa ou superconstncia, ete.), depois coloca-
se aqum de C uma haste B         igual a A, com 50 em de afastamento lateral, ou ainda coloca-se entre A e 
C uma srie de intermedirios B1, B, e B3, todos iguais a A (com o mesmo afastamento lateral). 0 adulto, ou a 
criana depois dos 8 a 9 anos, v imediatamente A :::-- B= C (ou A = B, = B2 = B, =C), pois ele transporta 
igualmente as igualdades perceptivas A = B e B = C para a reao C - A, fechando, dessa forma, a figura 
sobre ela mesma. As crianas, ao contrrio, vem A = B; B = C e A dife-

90               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

rente de C, como se no transpusessem as igualdades vis-tas ao longo do desvio ABC na relao AC. Ora, 
antes dos
6 a 7 anos, a criana tambm no  capaz da composio operatria das relaes transitivas A=i3; B=C, 
portanto, A=C. Mas, o que  curioso, existe, entre 7 e 8 a 9 anos, uma fase intermediria tal que o sujeito 
conciui de pronto,. pela inteligncia, sobre a igualdade A = C enquanto vendo perceptivamente C 
ligeiramente diferente cie A! Esse exemplo deixa claro que tambm a transposio (que  um transporte 
das relaes por oposio ao transporte de um valor isolado) decorre da atividade perceptiva, e no da 
estruturao automtica comum a todas as idades, e que entre a transposio perceptiva e a transitividade 
Operatria existem ainda relaes a determinar.

Ora, a transposio no  simplesmente exterior s figuras percebidas: ao lado dessa transposio externa, 
 preciso distinguir as transposies internas que permitern reconhecer, no prprio interior das figuras, as 
relaes que se repetem, as simetrias (ou relaes invertidas), etc, No caso, ainda haveria muito a dizer 
sobre o papel do desenvolvimento intelectual, sendo que as crianas no so absolutamente aptas a 
estruturar as figuras complexas como se pretendeu afirmar.

Por todos esses fatos,  lcito concluir que: o desenvolvimento das percepes prova a existncia de uma 
atividade perceptiva originadora de descentraes, de transportes (espaciais e temporais), de 
comparaes, de transposies, antecipaes e, de modo geral, de anlise, cada vez mais mvel e 
tendendo no sentido de reversibilidade. Essa atividade aumenta com a idade, e  por falta de possu-la em 
grau suficiente que as crianas percebem de modo sincrtico ou global, ou ainda por acumulao de 
pormenores no ligados entre si.

Sendo a percepo assim, caracterizada por sistemas irreversveis e de ordem estatstica, a atividade 
perceptiva introduz, pelo contrrio, em tais sistemas, condicionados por uma disperso fortuita ou 
simplesmente provvel das centraes, uma coerncia e um poder de composio progressivos. 
Constituir j essa atividade uma forma de inteligncia? Vimos (Cap. 1 e fim do Cap. II) a poLica 
significao que comporta uma questo desse gnero. Pode-se, entretanto, dizer que, em seu ponto de 
partida, as atividades que consistem em coordenar os olhares no sentido da descentrao, em tranportar, 
comparar, antecipar e so-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS      91

bretudo em transpor, so estreitamente solidrias com a imeligncia sensorio-motora de que falaremos no 
capuulo seguinte. Em particular, a transposio, interna ou exterila, que resume toclos os demais atos de 
orciem perceptiva,  muito comparvel  assimilao que caracteriza os esquemas sensrio-motores e 
sobretudo  assimilao generalizadora que permite a transferncia desses esquemas.

Mas, se podemos aproximar a atividade perceptiva da inteligncia sensrio-motora, seu desenvolvimento a 
conduz at o limiar das operaes.  medida que as regulaos perceptivas devidas s comparaes e 
transposies tendem  reversibilidade, elas constituem um dos suportes mveis que permitiro o 
lanamento do mecanismo operatrio. Este, uma vez constitudo, agir de novo sobre elas ao integr-las, 
por um ricochete anlogo quele que acabamos de exemplificar a propsito das transposies de 
igualdades. Mas, antes dessa reao, elas preparam a operaG, introduzindo sempre mais mobilidade nos 
mecanismos sensrio-motores que constituem sua subestrutura: bastar, com efeito, que a atividade 
mobilizadora da percepo ultrapasse o contato imediato com o objeto, e se aplique a distncias crescentes 
no espao e no tempo, para que ela transborde o prprio campo perceptivo e se liberte, assim, das 
limitaes que a impedem de atingir a mobilidade e a reversibilidade completas.

A atividade perceptiva no  o nico meio de incubao de que dispem, em sua gnese, as operaes da 
inteligncia: resta examinar o papel das funes motoras que produzem hbitos, e de resto relacionadas de 
muito perto com a prpria percepo.

4

Hbito e Inteligncia Sensrio@Motora

S para fins de anlise,  lcito distinguir funes motoras e perceptiva. Como o mostrou V. Weizcker2-1 
com profundidade, a diviso clssica dos fenmenos em excitantes sensoriais e em respostas motoras que o 
esquema do arco reflexo admite  to enganadora e refere-se a produtos de laboratrio to artificiais 
quanto a prpria noo de arco reflexo concebido em estado isolado: a percepo , desde o incio, 
influenciada pelo movimento, como este o  por aquela. Foi o que afirmamos, de nossa parte, ao falar de 
esquemas sensrio-motores, para definir a assimilao ao mesmo tempo perceptiva e motora que 
caracteriza as condutas do lactente   .24

Impe-se, portanto, colocar em seu contexto gentico real o que acabamos de aprender do estudo das 
percepes, e indagar como se elabora a inteligncia antes da linguagem. Uma vez que ele ultrapasse o 
nvel dos equipamentos puramente hereditrios que so os reflexos, o lactente adquire hbitos em funo 
da experincia. Cabe ento perguntar: esses hbitos preparam a inteligncia ou nada tm a ver com ela? 
Trata-se de problema paralelo quele que apresentamos a propsito da percepo. A resposta d a 
impresso de ser a mesma, o que nos permite avanar mais rapidamente e situar o desenvolvimento da 
inteligncia sensrio-motora no conjunto dos processos elementares que a condicionam.

23 Der Gestalkreis, 1941.
24 0 Nascimento da Inteligncia na Criana (publicado por esta Editora).

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS       93

Hbito e inteligncia. I. Independncia ou derivaes diretas

Nada mais prprio a fazer sentir a continuidade que liga o problema do surgimento da inteligncia ao da 
formao dos hbitos que o confronto das diversas solues apresentadas a essas duas questes: as 
hipteses so as mesmas, como se a inteligncia prolongase os mecanismos cuja automatizao constitui o 
hbito.

Com efeito, verificamos, a propsito do hbito, os esquemas genticos da associao, das tentativas e erros 
ou da estruturao assimiladora. Do ponto de vista das relaes entre hbito e inteligncia, o 
associacionismo. equivale pois a fazer do hbito um fato primeiro que explica a inteligncia. 0 ponto de 
vista das tentavias e erros reduz o hbito a uma automatizao dos movimentos selecionados aps os tateio, 
sendo estes caractersticos da prpria inteligncia. 0 ponto de vista da asimilao concebe a inteligncia 
como uma forma de equilbrio da mesma atividade assimiladora, cujas formas de incio constituem o hbito. 
Quanto s interpretaes no gen-,_-tica@-., encontramos as trs combinaes correspondentes ao 
vitalismo, ao apriorismo e ao ponto de vista da Teoria da Forma: o hbito decorrente da inteligncia; o 
hbito sem relao com a inteligncia e o hbito explicando-se, como a inteligncia e a percepo, por 
estruturaes cujas leis restam independentes do desenvolvimento.

Sob a perspectiva das relaes entre hbito e inteligncia (nica questo que nos interessa aqui), importa 
examinar primeiro se as duas funes so independentes, depois se uma decorre da outra e, finalmente, de 
que formas comuns de organizao hbito e inteligncia emanariam em nveis diversos.

 prprio da lgica da interpretao aprioristica das operaes intelectuais negar-lhes qualquer relao 
com os hbitos, dado que estes teriam origem numa estrutura interna independente da experincia, ao 
passo que as operaes intelectuais so adquiridas mediante a experincia. Verifica-se, de fato, na 
introspeco dos dois tipos de realidade em seu estado de acabamento que suas oposies parecem 
profundas e suas analogias superficiais. H. Delacroix sutilmente observou umas e outras: aplicando-se a 
circunstncias renovadas, um movimento habitual parece envolver certa espcie de genralizao, mas a 
inteli-

94                PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

.gncia substitui o automatismo inconsciente deste por certa genralidade de uma qualidade totalmente 
diferente feita de opes intencionais e de compreenso. Tudo isso  perfeitamente exato, porm, quanto 
mais se analisa a formao de um hbito, em constraste com a .sua prtica automatizada, mais se verifica a 
complexi- ,dade das atividades que entram em jogo de incio. Por outro lado, retornando-se s origens 
sensrio-motoras da inteligncia, verificamos o contexto do learning em geral. , pois, indispensvel, antes 
de concluir pela irredutibilidade dos dois tipos de estruturas, indagar, ao mesmo ,tempo distinguindo 
verticalmente uma srie de condutas de nveis diferentes e tendo em mente seu grau de novidade e 
automatizao, se no existiria certa continuidade entre as coordenaes curtas e relativamente rgidas que 
se costuma chamar de hbitos e as coordenaes em termos extremos mais distantes e de mobilidade maior 
que caracterizam a inteligncia.

Foi o que Buytendijk observou muito bem, analisando com sagacidade a formao dos hbitos animais 
elementares, sobretudo nos invertebrados. Apenas, quanto mais ele descobre a complexidade dos fatores 
do hbito, mais tende a subordinar a coordenao peculiar aos hbitos  prpria inteligncia, em virtude do 
sistema de interpretao vitalista adotado por Buytendijk. Nesse caso, a inteligncia seria uma faculdade 
inerente ao prprio organismo. Para que se constitua, o hbito supe sempre uma relao fundamental de 
meio a fim: uma ao jamais  uma seqncia de movimentos associados mecanicamente, mas orientada no 
sentido de uma satisfao, tal como o contato com o alimento, ou como a libertao,  maneira dos caracis 
que so colocadosem posio contrria e que cada vez mais rapidamente encontram sua posio normal. 
Ora, a relao, meios e fins caracteriza as aes inteligentes: o hbito seria pois expresso de uma 
organizao inteligente, de resto coextensiva a toda estrutura viva. Assim como Helmholtz explicava a 
percepo pela interveno de um raciocnio inconsciente, o vitalismo chega a fazer do hbito o resultado 
de uma inteligncia orgnica inconsciente.

Mas se devemos dar plena razo a Buytendijk quanto  complexidade das aquisies mais simples e 
irredutibilidade da relao entre a necessidade e a satisfao, ori-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS      95

gem, e no efeito das associaes, ser temerrio explicar, tudo atravs de =a inteligncia apresentada a 
ttulo de fato primeiro. Uma tese como essa acarreta =a srie de dificuldades que so exatamente as mesmas 
da interpretao paralela no domnio da percepo. Por um lado, o hbito, como a percepo,  
irreversvel, porque sempre dirigido em semido nico para o mesmo resultado, ao, passo que a inteligncia 
 reversvel: inverter um hbito, (escrever ao inverso ou da direita para a esquerda, etc.) consiste em 
adquirir novo hbito, ao passo que uma operao inversa da inteligncia  psicologicamente 
compreendida ao mesmo tempo que a operao direta (e constitui logicamente a mesma transformao, mas 
em outro sentido). Em segundo lugar, assim como a compreenso@ inteligente modifica apenas pouco uma 
percepo (o saber no influi numa iluso, como o respondia j Hering a HelInholtz) e que, 
reciprocamente, a percepo elementar no se estende simplesmente em ato de intelig-',ncia, tambm a 
inteligncia modifica apenas pouco um hbito adquirido e sobretudo a formao de um hbito no  
imediatamente seguida do desenvolvimento da inteligncia.H, igualmente, uma distneia sensvel, na 
ordem gentica, entre o aparecimento dos dois tipos de estrutura. As annionas do mar, de Piron, que se 
fecham com a mar baixa e conservam assim a gua que lhes  necessria, no mostram inteligncia muito 
mvel, e conservam em particular, no aqurio, o hbito adquirido e que poucos dias depois   naturalmente 
desaparece. Os gobies de GoIdschmidt,  para buscar alimento, aprendem a passar pelo furo de  uma 
chapa de vidro e conservam seu itinerrio mesmo  depois de retirada a chapa: pode-se chamar essa 
conduta de inteligncia no-cortical, mas de qualquer modo trata-se de uma inteligncia bem inferior  que 
comumente chamamos de inteligncia em seu sentido pleno.,

Da a hiptese que h muito pareceu a mais simples: o hbito deveria constituir um fato primeiro, explicvel 
em termos de associaes sofridas passivamente, e a inteligncia dele decorreria aos poucos, na razo da 
complexidade crescente das associaes adquiridas. No julgaremos aqui o associacionismo. As objees a 
esse modo de interpretao so to comuns quanto suas ressurreies sob formas diversas e no raro 
disfaradas. Contudo,  indispensvel lembrar como os hbitos mais elementares se tornam irredutveis ao 
esquema da associao passiva,

96                 PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

para atingir as estruturas da inteligncia em seu desenvolvimento real.

Ora, a noo do reflexo condicionado, ou do condicionamento em geral, revitalizou o associacionismo ao 
lhe proporcionar ao mesmo tempo um modelo fisiolgico preciso e uma nova terminologia. Donde uma 
srie de aplicaes tentadas pelos psiclogos na interpretao das funes intelectuais (linguagem, etc.) e 
s vezes do prprio ato integente.

Mas se  um fato a existncia das condutas condicionadas, e mesmo muito importante, sua interpretao no 
implica o associacionismo reflexolgico de que se as torna to freqentemente solidrias. Quando um 
movimento est associado a certa percepo, nessa conexo h mais que associao passiva, isto , que se 
grave apenas em funo da repetio: h um jogo de significaes, porque a associao s se constitui em 
funo de uma necessidade e de sua satisfao. Todos sabem, na prtica, mas muitos se esquecem na teoria, 
que um reflexo condicionado s se estabiliza na medida em que confirmado ou san- ,cionado: um sinal 
associado a certo alimento s produz uma reao durvel se os alimentos continuarem a ser apresentados 
periodicamente em associao com o sinal. A associao vem, assim, inserir-se numa conduta total ,cujo 
ponto de partida  a necessidade e o ponto de chega- ,da  sua satisfao (real, antecipada ou ainda ldica, 
etc.) . Isto equivale a dizer que no se trata de uma associao, no sentido clssico do termo, mas da 
constituio de um esquema de conjunto ligado a uma significao. Mais ainda, se estudarmos um sistema de 
condutas condicionadas em sua sucesso histrica (e aquelas que interessam a psicologia apresentam 
sempre tal sucesso, em contraste com os condicionamentos fisiolgicos muito simples), vemos melhor ainda 
o papel da estruturao total. Assim  que Andr Rey, colocando uma cobaia no compartimento A de uma 
caixa de trs compartimentos sucessivos, ABC, produziu-lhe um choque eltrico precedido de um sinal: ao 
repetir o sinal, a cobaia saltou para o compartimento B, depois voltou a A; mas bastaram algumas excitaes 
a mais para que ela saltasse de A a B, de B a C e voltasse de C a B e a A. A conduta condicionada no , 
pois, no caso, a simples transposio dos movimentos de incio @devidos ao reflexo simples, mas uma 
conduta nova que

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS        97

s atinge a estabilidade por uma estruturao de todo o meio.2,5

Ora, se assim acontece com os tipos mais elementares de hbito, o mesmo acontece a fortiori quanto s 
transferncias associativas cada vez mais complexas que o conduzem ao limiar da inteligncia: sempre 
que haja assoeio entre movimentos e percepes, a pretendida associao, consiste, na realidade, em 
integrar o novo elemento num esquema anterior de atividade. Seja esse esquema anterior de ordem 
reflexa, como no reflexo condicionado, -ou de nveis sempre mais elevados, em todos os casos a 
associao  de fato assimilao, de tal modo que jamais o vnculo associativo  simples decalque de uma 
relao -dada inteiramente feita na realidade exterior.

Essa a razo pela qual o exame da formao dos hbitos, assim como da estrutura da percepo, interessa 
no mais elevado grau ao problema da inteligncia. Se a inteligncia incipiente consistisse apenas em 
exercer sua atividade, tardia e situada numa escala superior, num mun- ,do acabado de associaes e de 
relaes, correspondendo termo a termo s relaes inscritas de uma vez por todas no meio exterior, essa 
atividade seria em realidade ilusria. Pelo contrrio, na medida em que a assimilao organizadora que 
chegar finalmente s operaes prprias ao :intelecto intervm desde o incio na atividade perceptiva e 
na gnese dos hbitos, os esquemas empiristas que se procura dar da inteligncia acabada so insuficientes 
em todos os nveis, porque desprezam a construo assimiladora.

Sabe-se, por exemplo, que Mach e Rignano concebem o raciocnio como uma experincia mental. Essa 
descrio, correta em seu princpio, perderia o sentido de uma soluo explicativa se a experincia fosse a 
cpia de uma realidade exterior completa. Mas como tal no se d e j que, no plano do hbito, a 
acomodao ao real supe urna assimilao deste aos esquemas do sujeito, a explicao do raciocnio pela 
experincia mental encerra-se num crculo:  preciso toda a atividade da inteligncia para ,fazer uma 
experincia, tanto efetiva como mental. No estado acabado, uma experincia mental  a reproduo em 
pensamento no da realidade, mas das atividades ou ope-

25 A. Rey, As condutas condicionadas da cobaia (Arch. Ps-ych., XXV [1936], pp. 217-312).

98               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

raes que sobre ela se exercem, e o problema de sua gne. se portanto permanece inteiro. S no nvel 
dos incios do pensamento da criana se pode falar de experincia mental no sentido de simples imitao 
interior do real: mas nesse caso o raciocnio ainda no  p-i,ecisamente lgico.

Igualmente, quando Spearman reduz a inteligncia aos trs momentos essencais: apreenso da 
experincia ; educao das relaes e educao dos correlatos,  pre- ciso acrescentar que a 
experincia no se apreende sem a mediao de uma assimilao construtiva. As chamadas educes11 de 
relaes devem ser concebidas, ento, como operaes propriamente ditas (seriao ou ajuste de relaes 
simtricas). Quanto  educo dos correlatos (a apresentao de um aspecto junto a uma relao tende a 
evocar imediatamente o conhecimetIno. do aspecto correlato1126) @  solidria com os grupamentos bem 
definidos, que so os da multiplicao das classes ou das relaes (Cap. 2).

Hbito e Inteligncia: II. Tateio e estruturao

Vimos, pois, que nem o hbito nem a inteligncia podem explicar por um sistema de coordenaes 
associativas correspondente sem mais nada a relaes j dadas na realidade externa; por outro lado, vimos 
tambm que hbitos e inteligncia pressupem ambos uma atividade do prprio sujeito. Sendo assim, acaso 
a interpreta o mais simples no consistir em reduzir essa atividade a uma srie de tentativas feitas ao 
acaso (isto , sem relao direta com o meio), mas selecionadas aos poucos graas aos xitos ou aos 
fracassos aos quais acabam por chegar? Assim  que Thorndie, para captar o mecanismo da 
aprendizagem, coloca animais num labrinto e mede a aquisio pelo nmero decrescente dos erros. 
Primeiro o animal tateia. isto . faz tentativas fortuitas, mas os erros so gradualmente eliminados e mantidas 
as tentativas bem sucedidas, at que fiquem determinados os itinerrios posteriores. 0 princpio dessa 
seleo mediante o resultado obtido chama-se lei do efeito,

26 The nature of intelligence, 1923, p. 91 (trecho traduzido po-r Claparde, La Gense de 1'hypothse, p. 42).

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS        99

A hiptese , pois, sedutora: a atividade do sujeito inter. vm nas tentativas; a do meio nas selees, e a lei 
do efeito sustenta a funo das necessidades e suas satisfaes que enquadram toda conduta ativa.

Mais que isso ainda: um esquema como esse  de molde a elucidar a continuidade que liga os hbitos mais 
elementares  inteligncia mais evoluda: Claparde retomou as noes do tateio e do controle emprico 
obtido com a repetio dos tateios bem sucedidos e transformou essas noes no princpio de uma teoria da 
inteligncia, aplicada sucessivamente  inteligncia animal,  inteligncia prtica da criana e at ao 
problema da Gnese da hiptese"27 em psicologia do pensamento adulto. Mas, nos numerosos escritos do 
psiclogo suo, assiste-se  evoluo significativa, dos primeiros aos ltimos, ao ponto em que por si s o 
exame desse desenvolvimento de suas idias j constitui uma crtica suficiente da noo de tateio.

Claparde comea por contrastar a inteligncia - que ele considera como funo vicariante de adaptao 
nova
- ao hbito (automatizado) e ao instinto (que se constitui de adaptaes s circunstncias que se repetem). 
Ora, como se comporta o sujeito diante de circunstncias novas? Desde os mais elementares infusrios de 
Jennings at o homem (e ao prprio cientista que defronte o imprevisto), o sujeito primeiro tateia. Esse 
tateio pode ser puramente sensrio-motor ou se interiorizar sob a forma de tentativas apenas do 
pensamento; mas sua funo  sempre a mesma: criar solues, que a experincia ir selecionar com o 
passar do tempo.

0 ato completo da inteligncia pressupe, assim, trs momentos essenciais: a questo que orienta a busca; a 
hiptese que prev as solues; o controle que as seleciona. S se podem distinguir duas formas de 
inteligncia: uma, prtica (ou empirica); a outra, a inteligncia refletida (ou sistemtica). Na primeira, a 
questo se apresenta sob as espcies de simples necessidade, a hiptese de um tateio sensrio-motor e o 
controle, de simples seqncia de fracassos e xitos.  na inteligncia refletida ou sistemtica que a 
necessidade se reflete em questo, que o tateio se interioriza em procura de hipteses e que o controle 
antecipa a sano da experincia por meio de uma conscincia das relaes% suficiente

27 Arch. de Psychol., XXIV (1933), pp. 1-155.

100               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

para afastar as hipteses falsas e a conservar as apropriadas.

Esse era o quadro da teoria quando Claparde tratou do problema da gnese da hiptese em psicologia do 
pensamento. Ora, ao mesmo tempo em que ressaltal-icio o papel evidente que o tateio mantm nas formas 
de pensamento mais evoludas, Claparde foi levado, por seu mtodo da reflexo falada, a no mais situ-
lo no prprio ponto de partida da procura inteligente, mas, por assim dizer,  margem, ou na frente, e 
apenas quando os dados ultrapassam demais a compreenso do sujeito, Pelo contrrio, o ponto de partida 
parece-lhe dado poi uma atitude cuja importncia at ento ele no havia notado: diante dos dados do 
problema, e uma vez orientada a procura pela necessidade ou a questo (graas a um me. canismo 
considerado, de resto, ainda misterioso), h em primeiro lugar a compreenso de um conjunto de relaes 
por simples implicao. Essas implicaes podem ser corretas ou falsas. Corretas, elas sero 
conservadas pela experincia. Falsas, sero contraditadas por essa ltima, e s ento comea esse tateio. 0 
tateio s ocorre, portanto, a ttulo de suplemento, isto , de conduta derivada em relao s implicaes 
iniciais. Conclui pois Claparde que o tateio jamais  puro: ele  em parte orien.tado pela questo e 
implicaes, e s se torna realmente fortuito na medida em que os dados ultrapassam em muito os esquemas 
antecipadores.

Em que consiste a implicao? Nessa questo  que a doutrina assume o sentido mais amplo e relaciona o 
problema do hbito tanto quanto da prpria inteligncia. No fundo, a implicao  quase a antiga 
associao dos psiclogos clssicos, mas revestida de um sentimento de necessidade vindo de dentro e 
no mais de fora. Ela consiste na manifestao de uma tendncia primitiva, fora da qual o sujeito no 
poderia, em nvel algum, tirar proveito da experincia (p.'104). Ela no se deve  repetio de um par de 
elernentos, mas, pelo contrrio, deriva da repetio do semelhante, e nas<.-e      in-5 ao erseio do 
primeiro encontro dos dois elementos desse par (T).
105). A experincia, portanto, s ipode romp-la. or, ronfirm-la, mas no a cria. Porm,  auando a 
ex~oerinc@a impe, uma aproximao que o sujeito a reveste de uma im,olicao: com efeito, suas razes 
deveriam ser -orocuradas na lei de coalescncia de William James (lei preci-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS      101

samente pela qual W. James explicava a associao!) : A lei de coalescncia engendra a implicao no plano cia ao e o 
sincretismo no plano da representao (p. 105). Claparde vai, assim, ao ponto de interpretar o reflexo condicionado pela implicao: o co de 
Pav1ov saliva ao ouvir o som do sino, depois de ter ouvido esse som ao mesmo tempo em que via seu alimento, porque ento o som implica o 
alimento.

Mereec exame atencioso essa inverso progresiva da teoria do tateio. Comeando por uma questo aparentemente secundria, no haveria 
falso problema, talvez, no indagar de que maneira a questo ou a necessidade orientam a procura, como se questo e necessidade existissem 
independentemente da procura? A questo e a prpria necessidade so, com efeito, expresso de mecanismos j constitudos de antemo, e 
que se acham apenas em estado de desequilbrio momentneo: a necessidade de mamar pressupe a organizao completa dos aparelhos de 
suc o, e, na outra extremidade, questes como que onde?, etc. exprimem classificaes, estruturas espaciais, etc. j construdas no todo 
ou em parte (veja-se Cap. 2). Da o esquema que orienta a procura ser aquele cuja existncia  necessria para explicar o aparecimento da 
necessidade ou da questo: estas, como a procura de que assinalam a tomada de conscincia, traduzem, pois, um nico ato de assimilao do 
real a esse esquema.

Dito isso, ser legtimo conceber a implicao como um fato primeiro, ao mesmo tempo sensrio-motor e intelectual, fonte do hbito como da 
compreenso? r@, em primeiro lugar sob a condio,  claro, de no tomar esse termo no sentido lgico de vnculo necessrio entre 
julgamentos, mas no sentido muito geral de urna relao de necessidade qualquer. Ora, acaso dois elementos vistos juntos pela primeira vez 
daro essa relao? Tomando um exemplo de Claparde, ser que um gato preto visto por um beb acarretar sem mais nada, quqndo 
percebido pela primeira vez, a relao gato implica preto? Se os dois elementos forem realmente vistos pela primeira vez, sem analogias nem 
antecipaces, i estaro, certamente, englobados num todo perceptivo, numa Gestalt, o que  expresso sob outra forma pela lei de 
coalescencia de James ou o sincretismo invocado por Claparde.  claro ainda que haja no caso uma associao, na medida em que o todo 
resulta no da reunio dos dois

102              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

elementos j percebidos cada um  parte, mas de sua fuso imediata por estruturao de conjunto. S que 
no  um vnculo de necessidade:  o incio de um esquema possvel, mas que no criar relaes 
percebidas como necessrias, a menos que sob condio de se constituir a ttulo de esquema real, por uma 
transposio ou uma generalizao (portanto, uma aplicao a novos elementos); em suma, ensejando uma 
assimilao. Assimilao , pois, o que est na origem do que Claparde chama de implicao: falando de 
modo esquemtico, o sujeito no chega, portanto, ao relacionamento A implica x ao ensejo do primeiro A 
percebido com a qualidade x, mas ser levado  relao A, implica x na medida em que assimile A2 ao 
esquema (A), sendo esse esquema preci- samente criado pela assimilao A2 = A. 0 co que sliva, ao ver 
seu alimento, portanto, s salivara ao som do sino se assimilar o alimento ao esquema dessa ao a ttulo de 
indcio ou de parte do ato total. Claparde tem muita razo ao dizer que no  a repetio que gera a 
implicao, mas que apenas no curso da repetio ela aparece, porque a implicao  o produto interno da 
assimilao que garante a repetio do ato exterior.

Ora, essa interveno necessria da assimilaco refora ainda as reservas que o prprio Claparde foi 
levado a formular quanto ao papel geral do tateio. Em primeiro lugar,  evidente que o tateio, quando se 
apresenta, no poderia explicar-se em termos mecnicos. Do ponto de vista mecnico, isto -, na hiptese 
de simples ato sexual, os erros deviam reproduzir-se tanto quanto as tentativas coroadas de xito. Se tal 
no  o caso, isto , se a lei do efeito atua,  que ao ensejo das repeties o sujeito antecipa seus 
fracassos e xitos. Em outras palavras, cada tentativa age sobre a seguinte no como um canal abrindo 
caminho a novos movimentos, mas como um esquema permitindo atribuir significaes s tentativas 
ulteriores.28 Portanto, o tateio no exclui de modo algum a assimilao.

H mais, porm. As prprias primeiras tentativas dificilmente sero redutveis ao simples acas0.29 DX. 
Adams

28 Veja-se 0 Nascimento da Inteligncia na Criana (publicado no Brasil por esta editora), Cap. V, e Guillaume, A Formao dos Hbito8, pp. 
144-154.
29 A Formao dos Mbitos, pp. 65-67.

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS     103

acha nas experincias de labirinto movimentos de uma s vez orientados. W. Dennis, e depois J. Dashiell 
insistem na continuao das direes inicialmente adotadas. Tolman e Krechewsky falam mesmo de 
hipteses para descrever os movimentos dos ratos, etc. Donde as importantes interpretaes a que foram 
levados C. Hull e C. E. Tolman. Hull insiste na oposio entre os modelos psquiccs que implicam meios e 
fins e os modelos mecnicos de reproduo: enquanto nestes ltimos se impe a linha reta, os primeiros 
dispem de um n mero de caminhos possveis tanto maior quanto mais complexo for o ato. Isto aquivale a 
dizer que, desde o nvel das condutas sensrio-motoras fazendo transio entre a aprendizagem e a 
inteligncia,  preciso ter em conta o que vir a ser a Ilassociatividade das operaes em seus 
grupamentos finais (Cap. 2). Por sua vez, Tolman pe em evidncia o papel da generalizao na 
formao dos prprios hbitos: assim  que diante de um novo labirinto, diferente daquele que o animal 
conhece, este percebe analogias de conjunto e aplica a esse novo caso as condutas que lhe foram bem 
sucedidas no precedente (itinerrios particulares). H sempre, pois, estruturaes de conjunto, mas as 
estruturas em jogo no so simples formas para Tolman, no sentido da teoria de KoehIer: so Sign-
Gestalt, isto , esquemas providos de significaes. Esse duplo carter generalizvel e significativo das 
estruturas encaradas por Tolman demonstra bem que se trata daquilo que chamamos de esquemas de 
assimilao.

Desse modo, da aprendizagem elementar at a inteligncia, a aquisio parece implicar uma atividade 
assimiladora to necessria  estruturao das formas mais passivas do hbito (condutas condicionadas e 
transferncias associativas) quanto ao desenrolar das manifestaes visivelmente ativas (tateios orientados). 
Quanto a isto, o problema das relaes entre o hbito e a inteligncia  bem paralelo ao das relaes entre 
esta e a percepo. Assim como a atividade perceptiva no - idntica  inteligncia, mas a encontra to 
logo se libera da centrao sobre o objeto imediato e atual, do mesmo modo a atividade que engendra os 
hbitos no se confunde com a inteligncia, mas chega a esta to logo os sistemas sensrio-motores 
irreversveis e sem soluo de continuidade se diferenciam e se coordenam em articulaes mveis. 
Quanto ao mais, o parentesco dessas duas espcies de ati-

104             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

vidades elementares  evidente, visto que percepes e movimentos habituais esto sempre 
indissociavelmente reunidos em esquemas de conjunto e que a transferncia ou generalizao prpria 
do hbito  o equivalente exato, na ordem motora, da transposio no plano das figuras espaciais, ambos 
supondo a mesma assimilao generalizadora.

Assimilao sensrio-motora e nascimento da inteligncia na criana

Procurar como nasce a inteligncia a partir da ativi dade assimiladora que engendra anteriormente os hbi 
tos  mostrar como essa assimilao sensrio-motora se realiza em estruturas sempre mais mveis e de 
aplica o cada vez mais extensa, a partir do momento em que a vida mental se dissocia da vida orgnica.

Ora, desde os equipamentos hereditrios, assiste-se, ao lado da organizao interna e fisiolgica dos 
reflexos, a efeitos cumulativos do exerccio e aos incios de procura que assinalam as primeiras distncias, 
no espao e no tempo, por meio das quais definimos a conduta (Cap. 1). Um recm-nascido alimentado 
com a colher ter dificuldade, depois, em tomar o seio. Quando ele mama desde o inicio, sua habilidade 
aumenta regularmente; colocado ao lado do bico do seio, ele ir procurar a posio apropriada e a 
encontrar cada vez mais rapidamente. Sugando qualquer coisa, logo rejeitar, contudo, um dedo, mas 
conservar o seio. Entre as refeies, ele sugar sem nada a sugar, etc. Essas observaes banais mostram 
que, j no interior do campo fechado dos mecanismos regulados hereditariamente, surge um incio de 
assimilao reprodutora de ordem funcional (exerccio), de assimilao generalizadora ou transpositiva 
(extenso do esquema reflexo a novos objetos) e assimilao recognitiva (discriminao, das situaes).

 nesse contexto j ativo que vm inserir-se as primeiras aquisies em funo da ex-perincia (sendo que 
o exerccio reflexo no conduz a uma aqusio real, mas a simples consolidao). Quer se trate de uma 
coordenao aparentemente passiva, tal como um condicionamento (por exemDlo, um sinal que 
desencadeia uma atitude anteciDadora de suco), ou de uma extenso espontnea do

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS      105

campo de aplicao dos reflexos (por exemplo, suco sistemtica do polegar por coordenao dos 
movimentos do brao e da mo com os da boca), as formas elementares do hbito advm de uma assimilao 
de elementos novos aos esquemas anteriores, que so no caso esquemas reflexos. Mas importa apreender 
que a extenso do esquema reflexo pela incorporao do novo elemento acarreta, por isso mesmo, a 
formao de um esquema de ordem superior (o hbito como tal), o qual integra a si, portanto, o esquema 
inferior (o reflexo). A assimilao de um novo elemento a um esquema anterior implica, pois o retomo  
integrao deste num esquema superior.

Entretanto, no se poderia, evidentemente falar de inteligncia ao nvel desses primeiros hbitos. 
Comparado aos reflexos, o hbito apresenta um campo de aplicaQ a distncia maiores, no espao e no 
tempo. Mesmo ampliados, porm, esses primeiros esquemas so contnuos, sem mobilidade interna nem 
coordenao uns com os ou-tros. As generalizaes a que so suscetveis no passam, ainda de 
transferncias motoras comparveis s transposies perceptivas mais simples e, no obstante sua 
continuidade funcional com as fases seguintes, nada permite ainda compar-las por sua estrutura  prpria 
inteligncia.

Por outro lado, ao ensejo de um terceiro nvel, que comea com a coordenao da viso e da preenso 
(entre 3 e 6 meses de idade, comumente em torno de 5 a seis meses), surgem novas condutas, que fazem a 
transio entre o hbito simples e a inteligncia. Suponhamos um beb em seu bero, do qual pendem 
chocalhos e um cordo livre: a criana pega o cordo e o puxa sem nada esperar nem compreender do 
pormenor das relaes espaciais ou causais do conjunto do dispositivo. Surpresa com o rudo do 
movimento dos chocalhos, procura o cordo e recomea tudo vrias vezes. J. M. Baldwin chamou de 
reao circular essa reprodu o ativa de um resultado obtido pela primeira vez ao acaso. A reao 
circular , assim, um exemplo tpico de assimilao reprodutora. 0 primeiro movimento executado seguido 
de seu resultado, constitui uma ao total, que cria uma nova necessidade to logo os, objetos sobre os 
quais ela recai voltam a seu estado ini.cial: estes so ento assimilados  ao precedente (prormovida por 
isso  categoria de esquema), o que desencadeia sua produo, e assim por diante. Ora, esse meca.-

106              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

nismo  idntico quele que se encontra j no ponto de partida dos hbitos elementares, salvo que, nesse 
caso, a reao circular recai sobre o corpo prprio (chamemos pois de reao circular primria aquela do 
nvel precedente, tal como o esquema de chupar o polegar), ao passo que doravante, graas  preenso, 
ela recai sobre objetos externos (chamemos de reao circular secundria essas condutas relativas aos 
objetos, lembrando-nos, ao mesmo tempo, de que elas ainda no so, absolutamente, substancializadas pela 
criana).

Portanto, a reao circular participa ainda, em seu ponto de partida, das estruturas prprias dos simples 
hbitos. Condutas sem soluo de continuidade, que se repetem em bloco, sem objetivo previsto de 
antemo e com utilizao dos acasos surgidos durante o trajeto, elas nada tm, com efeito, de um ato 
completo de inteligncia, e  preciso precaver-se de projetar no esprito do sujeito as distines que 
faramos em seu lugar entre um meio inicial (puxar o cordo) e um objetivo final (sacudir o cortinado), assim 
como de lhe atribuir as no es de objeto e de espao que ligamos a uma situao, que para a criana  
global e no analisada. Entretanto, to logo a conduta seja repetida vrias vezes, verificamos que ela 
apresenta uma dupla tendncia no sentido da desarticulao e da rearticulao interna de seus, elementos, 
e no sentido da generalizao ou transposi o ativa diante de novos dados, sem relao direta com os 
precedentes. Sobre o primeiro ponto, verifica-se, com efeito, que aps haver acompanhado os 
acontecimentos na ordem: cordo - sacudida -

brinquedos, a conduta toma-se suscetvel de um princpio de anlise: a viso dos chocalhos imveis e em 
particular a descoberta de um novo objeto que se acaba de pendurar no teto iro desencadear a procura 
do cordo. Sem que nisso haja, ainda, verdadeira reversibilidade,  claro que h progresso na mobilidade, 
e que h quase articulao da conduta em um meio (reconstitudo depois, com o passar do tempo) e um 
objetivo (fixado depois). Por outro lado se colocamos a criana diante de uma situao inteiramente nova, 
tal como o espetculo de um movimento situado a dois ou trs metros de distncia dela, ou mesmo de som 
que se faa ouvir no quarto, acontece que ela procura e puxa o cordo, como para fazer continuar  
distncia o espetculo interrompido. Ora, essa nova con-

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS     107

duta (que bem confirma a ausncia de contatos espaciais e de causalidade inteligvel) constitui, 
seguramente, uni incio de generalizao propriamente dita. Tanto a articulao interna quanto essa 
transposio externa do squema circular anunciam, assim, o aparecimento proximo da inteligncia.

De fato, as coisas se esclarecem num quarto nvel. A partir dos oito a dez meses, os esquemas construidos 
pelas reaes secundrias, no curso do estgio precedente, tornam-se suscetveis de se coordenarem 
entre si, uns utilizados como meios e outros determinando uma finalidade pQ-r,,L a ao. Assim  que, para 
apreender um objetivo situado atrs de uma tela que o oculta total ou parcialmente, a criana ir primeiro 
afastar a tela (utilizando os esquemas de captar ou bater, ete.), e depois se apoderar do objetivo. Por 
conseguinte, da por diante o objetivo.  determinado antes dos meios, visto que o sujeito tem a inteno de 
apreender o objetivo antes de ter a inteno de remover o obstculo, o que pressupe uma articulao 
mvel dos esquemas elementares que compem o esquema total. Por outro lado, o novo esquema total 
torna-se suscetvel de generalizaes bem mais amplas que anteriormente. Essa mobilidade, juntamente 
com esse progresso na generalizao, assinala-se em partcular no fato de que, diante de um novo objeto, 
a criana tenta sucessivamente os ltimos esquemas adquiridos anteriormente (captar, bater, sacudir, 
esfregar, etc.), sendo estes ltimos utilizados, portanto, a ttulo de conceitos sensrio-motores, se assim podemos falar, como se o sujeito 
procurasse compreender o novo objeto mediante a utilizao ( maneira das definies pelo uso que iremos verificar bem mais tarde no plano 
verbal).

As condutas desse quarto nvel do provas, assim, de um duplo progresso: no sentido da mobilidade e da extenso do campo de aplicao dos 
esquemas. Esses trajetos percorridos pela ao, mas tambm pelas antecipaes e reconstituies sensrio-motoras, entre o sujeito e os objetos, 
no mais so como nos estgios precedentes dos trajetos diretos e simples: retilnios, como na, percepo, ou estereotipados e de sentido nico, 
como nas reaes circulares. Os itinerrios comeam a variar e a utilizao dos esquemas anteriores a percorrer distncias maiores no tempo.  
o que caracteriza a conexo dos

108              PSICOLOWA DA INTELIGNCIA

meios e fins, agora diferenados, e a razo pela qual pode-se comear a falar de inteligncia verdadeira. 
Mas, alm da continuidade que a relaciona s condutas precedentes,  preciso. observar a limitao dessa 
intelig ncia nascente: no h inveno nem descoberta de novos meios, mas simples aplicao dos meios 
conhecidos s circunstncias imprevistas.

Duas aquisies caracterizam o nvel seguinte, ambas relativas  utilizao da experincia. Os esquemas de 
assimilao at aqui descritos so, naturalmente, acomodados de modo continuo aos dados exteriores. Mas 
essa acomodao , por assim dizer, mais sofrida que procurada: o sujeito age de acordo com suas 
necessidades e essa ao se ajusta ao real ou depara com resistncias que sua atividade procura contornar. 
Os movimentos que surgem fortuitamente so desprezados ou assimilados a esquemas anteriores e 
reproduzidos por reao circular. Advm, pelo contrrio, um momento em que a novidade nteressa por si 
mesma, o que pressupe, seguramente, urn equipamento suficiente de esquernas para que sejam possveis 
as comparaes e que o fato novo seja bastante semelhante ao conhecido para interessar e bastante 
diferente para escapar  saturao. As reaes circulares consistiro, ento, de uma reproduo do fato 
novo, mas com variaes e experimentao ativa, destinadas e extrair delas precisamente as possibilidades 
novas. Tendo assim descoberto a trajetria da queda de um objeto, a criana ir procurar jog-lo de modos 
diferentes ou de pontos de partida distintos. Pode-se chamar de reao circular terciria esta assimilao 
reprodutora com acomodao diferenada e intencional.

A partir de ento, quando esquemas forem coordenados entre si a ttulo de meios e objetvos, a criana no 
mais se limitar a aplicar os meios conhecidos s novas situaes: ir diferenar esses esquemas que 
servem de meios, por uma espcie de reao circular terciria, e, por conseguinte, vir a descobrir novos 
meios.  desse modo que so elaboradas sries de condutas cujo carter de inteligncia ningum contesta: 
levar a si o objetivo por meio do suporte sobre o qual esteja situado, um barbante que lhe seja o 
prolongamento ou mesmo uma vara Utilizada como intermedirio independente. Mas, por mais cowplexa 
que seja essa ltima conduta,  preciso ter

A INTELIGNCIA P. AS FUNES SENSRIO-MOTORAS     109

bem claro que, nos casos comuns, ela no surge ex abrupto, e se acha, pelo contrrio, preparada por uma 
seqncia completa de relaes e de significaes devidas  atividade dos esquemas anteriores: a relao 
de meios a fim, a noo de que um objeto pode pr outro em movimento, etc. A conduta do suporte  a mais 
simples quanto a isso: no podendo atingir diretamente o objetivo, o sujeito recorre a objetos situados entre 
dois (a toalha sobre a qual est o brinquedo desejado, etc.). Os movi- ,mentos que a preenso da toalha 
imprime ao objetivo permanecem sem significao nos nvel anteriores: de posse das relaes necessrias, 
o sujeito compreende, porm, de uma s vez, a possvel utilizao do suporte. Sabe-se, em tais casos, a 
verdadeira funo do tateio no ato de inteligncia: ao mesmo tempo orientado pelo esquema que atribui um 
objetivo  a o, e pelo esquema escolhido a ttulo de meio inicial, o tateio, , alm do mais, sempre 
orientado, no curso de tentativas sucessivas, pelos esquemas suscetveis de dar uma significao aos 
acontecimentos fortuitos, desse modo utilizados inteligentemente. Portanto, o tateio jamais  puro, mas 
constitui apenas a margem de acomodao ativa compatvel com as coordenaes assimiladoras que 
constituem o essencial da inteligncia.

Finalmente, um sexto nvel, que abrange parte do segundo ano de vida, assinala a culminao da 
inteligncia sensrio-motora: em vez de os meios novos serem descobertos exclusivamente por 
experimentao ativa, como no nvel precedente, pode haver inveno da por diante, mediante 
coordenao, interior e rpida, de processos ainda no conhecidos do sujeito. A esse ltimo tipo  que 
pertencem os fatos de brusca reestruturao descritos por KoehIer nos chipanzs e a Aha-Erlebnis de K. 
BhIer, ou o sentimento de compreens o sbita. Em crianas que no tiveram anteriormente a 
oportunidade de experimentar a utilizao de varas, acontece que o primeiro contato com uma vara 
desencadeia a compreenso de suas relaes possveis com o objetivo a atingir, e isso sem tateio real. Por 
outro lado, parece evidente que certos sujeitos estudados por KoehIer inventaram a utilizao cia vara 
praticamente sob seus olhos e sem exerccio anterior.

0 grande problema , ento, captar o mecanismo dessas cordenaes interiores, que pressupem ao 
mesmo tempo a inveno sem tateio e uma antecipao mental

110              PSICOLOGIA DA INTICLIGNCIA

vizinha da representao. J vimos como a Teoria da Forma explica a coisa sem se referir  experincia 
adquirida e por simples reestruturao perceptiva. Mas no caso do beb  impossvel no enxergar nos 
comportamentos da sexta fase a culminao de todo o desenvolvimento que caracteriza as cinco fases 
precedentes. l@ claro, com efeito, que uma vez habituada s reaes circulares tercirias, e aos tateios 
inteligentes que constituem verdadeira experimentao ativa, a criana, cedo ou tarde, torna-se capaz de 
uma interiorizao dessas condutas. Quando, cessando de agir em presena dos dados do problema, o 
sujeito parece refletir (uma das crianas por ns estudada, aps tentar sem xito aumentar o furo de uma 
caixa de fsforos, interrompe sua ao, olha o buraco com ateno, depois abre e fecha a prpria boca), 
tudo parece indicar que ele continua a procurar, mas por tentativas internas ou aes interiorizadas (os 
movimentos imitativos da boca, no exemplo citado, so ndice muito ntido desse tiDo de reflexo motora). 
Que se passa ento, e como explicar a inveno em que consiste a soluo sbita? Os esquemas sensrio-
motores, tendo-se tornado suficientemente mveis e coordenveis entre si, ensejam assimilaes 
recprocas bastante espontneas para que no haja mais necessidade de tateios efetivos, e bastante rpidas 
para dar a impresso de reestruturaes imediatas. A coordenao interna dos esquemas estaria, pois, para 
a coordenao externa dos nveis precedentes como a linguagem interior, simples esboo interiorizado e 
rpido da fala efetiva, est para a linguagem externa.

Mas bastaro a espontaneidade e velocidade maiores da coordenao assimiladora entre os esquemas para 
explicar a interiorizaco das condutas,. ou um incio de representao j se produzir no presente nvel, 
anuncilando assim a passagem da inteligncia sensrio-motora ao pensamento propriamente dito? 
Independentemente do aparecimento da linguagem, que a criana comea a adquirir nessas idades (mas 
que falta aos chimpanzs, emboi@a aptos a invenes notavelmente inteligentes), h dois tipos de fatos 
que, neste sexto estgio, do provas de um esboa de representao, embora no ultrapasse o nvel da 
representao bastante rudimentar prpria dos chim panzs. Por um lado, a crianca se torna capaz de 
imitao adiada, isto , de uma c pia que surge pela primeira vez aps o desaparecimento perceptivo do 
modelo: ora, seja

A INTELIGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS    111

a imitao adiada decorrente da representao imaginada ou seja sua causa, seguramente lhe est 
relacionada de perto (voltaremos a este problema no Cap. 5). Por outro lado,, ao mesmo tempo, a criana 
chega  forma mais elementar do jogo simblico, que consiste em suscitar por meio do corpo prprio uma 
ao estranha ao contexto atual (por exemplo, fingir que dorme por brincadeira, estando totalmente 
desperta). Aqui, surge novamente uma espcie de imagem desempenhada e, logo, motora, mas j quase 
representativa. Essas imagens em ao prprias da imitao adiada e do smbolo ldico nascente acaso no 
ocorem como significantes, na coordenao interiorizada dos esquemas?  o que parece mostrar o 
exemplo citado h pouco da criana que imita com a boca o aumento da fenda visvel, numa caixa que na 
realidade procura abrir.

A construo do objeto e relaes espaciais

1  Acabamos de verificar a notvel continuidade funcional que relaciona as estruturas sucessivas 
construdas pela criana a partir da formao dos hbitos elementares at os atos de invenes espontneas 
e sbitas caractersticas ds formas superiores da inteligncia sensrio-motora. 0 parentesco do hbito com 
a inteligncia toma-se, assim, manifesto, ambos procedentes, mas em nveis distintos, da assimilao 
sensrio-motora. Resta reunir o que dissemos h pouco (Cap. 3) sobre o parentesco entre inteligncia e 
atividade perceptiva, ambas apoiando-se igualmente na assimilao sensrio-motora, e em nveis distintos: 
uma,  qual essa assimilao engendra a transposi perceptiva (parente prxima dos movimentos 
habituais), e a outra que se caracteriza pela generalizao especificamente inteligente.

Ora, nada  mais prprio para pr em evidncia os vnculos ao mesmo tempo to simples em sua origem 
comum e to complexos em suas diferenciaes mltiplas, da percepo, do hbito e da inteligncia, que 
analisar a construo sensrio-motora dos esquemas fundamentais do objeto e do espao (de resto, 
indissociveis da causalidade e do tempo). Essa construo , com efeito, estreitamente correlata com o 
desenvolvimento, que acabamos de lembrar, da inteligncia pr-verbal. Mas, por outro

112              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

lado, ela exige, em elevado grau, uma organizao de estruturas perceptivas, e estruturas inteiramente 
soIidria_Z@ com a motricidade exibida em hbitos.

Que vem a ser, de fato, o esquema do objeto? Tratase, por um aspecto essencial, de um esquema da 
inteligncia: ter a noo do objeto  atribuir  figura percebida a um suporte substancial, tal que a figura e a 
substncia de que ela seja assim o ndice continuem a existir fora do campo perceptivo. A permanncia do 
objeto, encarada sob esse ngulo,  no apenas produto da inteligncia, mas contitui mesmo a primeira 
dessas noes fundamentais de conservao, cujo desenvolvimento veremos no seio do pensamento (Cap. 
5). Mas, pelo fato de que se conserva e que se reduz mesmo a essa conservao como tal, o objeto slido 
(o nico a considerar de incio) conserva tambm suas dimenses e sua forma: ora, a constneia das formas 
e da dimenso  um esquen-ia decorrente da percepo pelo menos tanto quanto da inteligncia. 
Finalmente, parece claro que, tanto sob as espcies da constncia perceptiva como sob as da conservao 
alm das fronteiras do campo perceptivo atual, o objeto esteja ligado a uma srie de hbitos motores, ao 
mesmo tempo origens e efeitos da construo desse esquema. Percebe-se, assim, o quanto ele  de 
natureza a esclarecer as verdadeiras rela es entre a inteligncia, a percepo e o hbito.

Ora, como se constri o esquema do objeto? Ao nvel do reflexo, certamente no h objetos; o reflexo no 
passa de resposta a uma situao. E nem o estmulo nem o ato desencadeado pressupem outra coisa que 
no seja qualidades atribudas a quadros perceptivos, sem substrato substancial necessrio: quando o 
lactente procura e encontra o seio materno, no  necessrio que faa dele um objeto, e a situao precisa 
da mamada assim como a permanncia das posies bastam, sem interveno de esquemas mais complexos, 
para explicar esses comportamentos. No nvel dos primeiros hbitos, a identificao no implica tambm o 
objeto, porque reconhecer um quadro perceptivo no pressupe qualquer crena quanto  existncia do 
elemento percebido, fora das percepes e reconhecimentos atuais; por outro lado, o chamado pelo grito a 
uma pessoa ausente exige simplesmente a previso de seu Possvel retorno, a ttulo de quadro perceptivo 
conhecido, e no a localizao espacial, numa realidade or-

A INTEUGNCIA E As FUNES SENSRIO-MOTORAS         113.

ganizada, dessa pessoa na medida em que o objeto substancial. Por outro lado, acompanhar com os olhos 
uma figura em movimento e continuar a procura no momento de seu desaparecimento, girar a cabea para 
olhar na direo de um som, etc., constituem incios de permanncia prtica, mas unicamente relacionada  
atividade em curso: trata-se de antecipaes perceptivo-motoras e expectativas, mas determinadas pela 
percep o e pelo movimento imediatamente anteriores, e de modo algum so ainda buscas ativas distintas 
do movimento j esboado, ou, determinado pela percepo atual.

Durante o terceiro estgio (reaes circulares secundrias), o fato de a criana tornar-se capaz de 
apreender o que v permite controlar essas interpretaes. De acordo com C. Bhler, a criana desse 
nvel chega a retirar um, pano com que se cobre seu rosto. Mas tivemos ensejo de mostrar que, no mesmo 
estgio, a criana no procura de modo algum retirar uma cobertura colocada sobre o objeto de seus 
desejos, e isso mesmo quando ela j esboou um movimento de preenso em relao ao objeto ainda 
visvel: ela se conduz, pois, como se o objeto se reabsorvesse no pano e deixasse de existir no momento 
preciso em que sai do campo perceptivo; ou ainda, o que  a mesma coisa, ela no possui qualquer conduta 
que lhe permita procurar> pela ao (retirar a tela) ou pelo pensamento (imaginar), o objeto desaparecido. 
Entretanto, nesse nvel mais que no precedente, ela atribui ao objetivo de uma atividade em curso uma 
espcie de permanncia prtica ou de continuao, momentnea: voltar a um brinquedo depois de t-lo 
deixado (reao circular adiada), prever a posio do objeto er--caso de queda, etc. Mas ento trata-se de 
ao que confere uma conservao momentnea ao objeto, e este deixa d(,@ possu-la ao fim da ao em 
curso.

Por outro lado, no quarto estgio (coordenao dos es-

quemas conhecidos), a criana comea a procurar o objeto por trs de uma tela, o que constitui o incio das 
condutas diferenadas relativas ao objeto desaparecido e, por conseguinte, o comeo da conservao 
substancial. Mas ento observa-se frequentemente uma reao interessante que, mostra que essa 
substncia nascente no est ainda indi. vidualizada e, em conseqncia, permanece ligada  aG como 
tal: se a criana procura um objeto em A (por exemplo, sob uma almofada situada  sua direita) e se retira de 
sua vista o mesmo objeto para coloc-lo em B

114             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

(outra almofada, porm  sua esquerda), ela primeiro vai a A como se o objeto desaparecido em B se 
achasse em sua posio inicial! Em outras palavras, o objeto est ainda solidrio com uma situao de 
conjunto caracterizada pela ao que foi bem sucedida, e no comporta sempre a individualizao 
substancial nem a coordenao dos movimentos sucessivos.

No quinto estgio, essas limitaes desaparecem, exceto no caso em que uma representao de trajetos 
invis veis seja necessria para a soluo do problema, e no sexto estgio essa condio mesma no  mais 
redibitria.

, pois, evidente que, preparada pela continuao dos movimentos usuais, a conservao do objeto  
produto das coordenaes de esquemas, em que consiste a inteligncia sensrio-motora. Em primeiro 
lugar, prolonga,mento das coordenaes prprias do hbito, o objeto , pois, construido pela prpria 
inteligncia, da qual ele constitui o primeiro invariante: invariante necessrio para a elaborao do espao, 
da causalidade espacializada e, de um modo geral, todas as formas de assimilao que ultrapassam o campo 
perceptivo atual.

Mas, se as conexes com o hbito e a inteligncia so evidentes, as relaes do objeto com as constncias 
perceptivas da forma e da grandeza no o so menos. No terceiro dos nveis distinguidos 
precedentemente, uma criana a quem se apresenta a mamadeira do lado contrrio tenta sugar o fundo do 
vidro, caso no veja, do outro lado, a chupeta de borracha. Se ela vir a chupeta, vira a mamadeira do lado 
certo (prova de que n o h obstculo de ordem motora); mas, se, aps haver sugado o lado errado, olhar o 
conjunto da mamadeira (que se lhe mostra verticalmente), no consegue vir-Ia, mesmo se assiste  sua 
rotao, desde que a chupeta fique invisvel: a chupeta, portanto, parece-lhe integrante do vidro, a menos 
que a veja. Esse comportamento, tpico da no conservao do objeto, acarreta assim uma no conservao 
das prprias partes da mamadeira, isto , uma no conservao da forma. No estgio seguinte, pelo 
contrrio, em correlao com a construo do objeto permanente, a mamadeira  virada com facilidade 
para o lado certo, e  percebida, portanto, como forma que permanece, em geral, constante, no obstante 
suas rotaes. Ora, nesse mesmo, nvel, v-se tambm a criana interessar-se, deslocan-

A INTELIGNCIA E AS - FUNES SENSRIO-MOTORAS   115

do lentamente a cabea, pelas mudanas de f orma do objeto sob a influncia da perspectiva.

Quanto  constncia das dimenses, de que Brunswick verificou recentemente a ausncia durante os 
primeiros meses, ela se elabora tambm durante o quarto, e sobretudo no quinto estgio. Assim  que se 
percebe, freqentemente, o beb distanciar e aproximar de seus olhos um objeto que segura, como para 
lhe estudar as mudanas de dimenses em funo da profundidade. E pois, uma correlao entre a 
elaborao dessas constncias perceptivas e a conservao inteligente do objeto.

Ora,  fcil captar a relao que une essas duas espcies de realidades. Se as constncias so bem o 
produto de transportes, de transposies, e de suas regulaes, 6 claro que esses mecanismos reguladores 
decorrem tanto, da motricidade quanto da percepo. As constncias perceptivas da forma e da grandeza 
seriam, assim, asseguradas por uma assimilao sensrio-motora transportando ou transpondo as relaes 
em jogo ao ensejo das modificaes de posio ou de distanciamento dos objetos percebidos, assim como o 
esquema do objeto permanente seria devido a uma assimilao sensrio-motora, provo--cando a procura 
do objeto, uma vez sado do campo da. percepo, e lhe atribuindo, pois, uma conservao surgida da 
continuao das a es prprias, em seguida projetada em propriedades exteriores. Assim, pode-se admitir 
que os mesmos esquemas de assimilao regem, por transportes e transposies, a constncia das formas 
e dimenses do objeto percebido, e que determinam sua procura quando deixa de o ser: seria, ento, pelo 
fato de que o objeto  percebido como constante que  procurado, aps seu desaparecimento, e seria 
porque enseja uma, procura ativa quando no mais  perceptvel que  percebido como constante quando 
reaparece. Os dois aspectos da atividade perceptiva e de inteligncia so, com efeito, muito menos 
diferenados no plano sensrio-motor, do que no caso entre a percepo e a inteligncia reflexiva, visto 
que esta se apia em significantes que consistem em palavras ou imagens, ao passo que a inteligncia 
sensrio-motora s se apia nas prprias percepes e nos, movimentos.

Pode-se, pois, conceber a atividade perceptiva em g--ral, bem como no exemplo das constncias, como 
sendo, um dos aspectos da inteligncia sensrio-motora em si -

116               PSICOLOGIA DA TNTIELICNCIA

aspecto limitado ao caso em que o objeto entra em relaes diretas e atuais com o sujeito, ao passo que a 
inteligncia sensro-motora, transbordando o campo perceptiv,o, antecipa e reconstitui as relaes a 
perceber ulteriormente ou percebidas anteriormente. A unidade dos mecanismos relativos  assimilao 
sensrio-motora fica, assim, completa, o que a Teoria da Forma, alis, teve o mrito de pr em evidncia, 
mas que  preciso interpretar no sentido da atividade do sujeito, portanto da assimilao, e no no sentido 
de formas estticas impostas independentemente do desenvolvimento mental.

Todavia, aparece ento um problema, cuja discusso leva ao estudo do espao. As constncias perceptivas 
so o produto de simples regulaes, e viu-se (Cap. 3) que a ausncia, em que qualquer idade, de 
constncias absolutas e a existncia das superconstneias adultas atestam o carter regulatrio e no -
operatrio do sistema. Com mais forte razo, assim  durante os dois primeiros anos de idade. A construo 
do espao, pelo contrrio, acaso no chega bem rpido a uma estrutura de grupamento e mesmo de 
grupos, conforme a clebre hiptese de Poincar sobre a influncia, psicologicamente primeira, do 
<grupo dos deslocamentos?

A gnese do espao, na inteligncia sensrio-motora,  dominada inteiramente pela organizao 
progressiva dos movimentos, e estes tendem efetivamente no sentido de uma estrutura de grupo. Mas, 
contrariamente ao que pensava Poincar sobre o carter a priori do grupo dos deslocamentos, este se 
elabora paulatinamente, enquanto forma de equilbrio final dessa organizao motora: so as coordenaes 
sucessivas (composi o), os retornos (reversibilidade), os desvios (associatividade) e as conservaes de 
posies (identidade) que aos poucos engendram o grupo, a ttulo de equilbrio necessrio das aes.

Ao nvel dos dois primeiros estgios (reflexos e hbitos elementares), nem mesmo se poderia falar de um 
espao comum aos diversos domnios perceptivos, porque h tantos espaos, heterogneos entre si, 
quanto campos qualitativamente distintos (bucal, visual, ttil, etc.). S durante o terceiro estgio, a 
assimilao recproca desses diversos espaos torna-se sistemtica, devido  coordenao da vista com a 
preenso. Ora, na medida em que se do essas coordenaes, assiste-se  constituio de sis-

A INTELIGNCIA E AS FUINES SENSRIO-MOTORAS     117

temas espaciais elementares, que anunciam j a composi. o prpria do grupo: assim  que, em caso de 
reao circular interrompida, o sujeito volta ao ponto de partida para recomear; acompanhando com o 
olhar um objeto mvel que o ultrapassa em velocidade (queda, etc.), o sujeito encontra o objetivo, s 
vezes, por deslocamentos prprios que corrigem os do mvel exterior.

Mas  preciso compreender bem que, situados do ponto de vista do sujeito e no apenas da perspectiva do 
observador matemtico, a construo de uma estrutura de grupo supe duas condies pelo menos: a 
noo de objeto e a descentrao dos movimentos por correo e mesmo converso do egocentrismo, 
inicial.  claro, com efeito, que a reversibilidade prpria do grupo pressupe a noo de objeto e, de resto, 
reciprocamente, porque encontrar um objeto  ter a possibilidade de um retorno (por dslocamento do 
prprio objeto ou do prprio corpo) : o objeto no passa de invariante devido  composio reversvel do 
grupo. Por outro lado, como Poincar demonstrou muito bem, a noo de deslocamento como tal supe a 
possvel diferencia o entre as mudanas de posio precisamente caracterizadas por sua reversibilidade 
(ou por sua possvel correo graas aos movimentos do corpo prprio). , pois, evidente que, sem a 
conservao dos objetos, no poderia haver grupo, visto que ento tudo aparece mudando, de estado: 
o objeto e o grupo de deslocamenots so, pois, indissociveis, um constituindo o aspecto esttico e o outro 
o aspecto dinmico da mesma realidade. H mais, porm: mundo sem objeto  um universo tal que no h 
qualquer diferenciao sistemtica entre as realidades subjetivas e exteriores; um mundo, por conseguinte 
11aduaIstico Q. M. Baldwin). Por isso mesmo, esse universo ser centrado na ao prpria, ficando o 
sujeito tanto mais dominado por essa perspectiva egocntrica quanto mais seu eu permanea inconsciente 
de si mesmo. Ora, o grupo pressupe precisamente a atitude inversa: uma descentrao completa, tal que o 
prprio corpo se ache situado, a titulo de elemento, entre os demais num sistema de deslocamentos que 
permita distinguir os movimentos do sujeito dentre os

prprios objetos.

Dito isso,  claro que durante os primeiros estgios, e no prprio terceiro estgio, nenhuma dessas 
condies  satisfeita: o objeto no  constitudo, e os espaos, depois

118             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

espao nico que tende a coorden-los, permanecem centrados no sujeito. A partir de ento, mesmo no 
caso em que parea haver retomo (prtico) e coordenao em forma de grupo, no  difcil dissociar a 
aparncia da realidade, esta demonstrando sempre certa centrao privilegiada. Assim  que um beb do 
terceiro nvel, ao ver passar um objeto mvel no sentido AB para a direita, para entrar em B por trs de 
uma tela, no o procura mais em C, na outra extremidade da tela, mas de novo em A e assim por diante. 0 
mvel no , pois, ainda, um objeto independente que percorra uma trajetria retilnia, dissociada do 
sujeito, mas permanece dependente da posio privilegiada A em que o sujeito o viu pela primeira vez. No 
que se refere  rotao, vim-os h pouco o exemplo da mamadeira invertida, que  sugada por trs em vez 
de ser virada, o que novamente atesta o primado da perspectiva egocntrica e ausncia da noo de objeto 
explicando a ausncia de grupo.

Com a procura dos objetos desaparecidos por trs de telas (quarto estgio) comea a objetivao das 
coordenaes e, portanto, a construo do grupo sensriomotor. Mas o fato mesmo de o sujeito no se dar 
conta dos deslocamentos sucessivos do objetivo e procur-lo debaixo da primeira das telas (veja-se 
adiante) mostra suficientemente que esse grupo nascente permanece em parte subjetivo, isto , centrado 
na ao prpria, visto que o objeto tambm continua dependente dessa ltima e a meio caminho de sua 
construo especfica.

S com o quinto nvel, isto , quando o objeto  procurado em funo de seus deslocamentos sucessivos, G 
grupo  realmente objetivado: a composio dos deslocamentos, sua reversibilidade e a conservao da 
posio (identidade) so adquiridas. Falta ainda apenas a possiblidade dos desvios (associatividade), por 
falta de Drevises suficientes, mas essa capacidade de antecipar se generaliza no transcurso do sexto 
estgio. Alm do mais, em correlao com esse progresso, elabora-se um conjunto de relaes entre os 
prprios objetos, tal como, as relaes situado sobre% dentro ou fora, na frente, atrs (com 
ordenao dos planos em profundidade correlativa da constncia das dimenses), etc.

Por conseguinte,  lcito concluir que a elaborao das constncias perceptivas do objeto, por regulaes 
sens-rio-motoras, segue paralelamente com a progressiva cons--

A INTEUGNCIA E As FUNES SENSRIO~MOTORAS         119

truo de sistemas igualmente sensrio-motores, mas ultrapassa o domnio perceptivo e tende no sentido da 
        estrutura - inteiramente prtica e no representativa, evi. dentemetne - do grupo. Assim, por que a 
prpria percep. o tambm no se beneficia dessa estrutura e permanece no nvel de simples regulaes? 
A razo disso agora se esclarece: por descentrada que ela seja, em relao s centraes iniciais do olhar 
ou de seu  rgo especal, uma percepo  sempre egocntrica e centracia num objeto presente em 
funo da perspectiva prpria do sujeito. Alm do mais, o gnero de descentrao que caracteriza a 
percepo, isto , de coordenao entre centraes sucessivas, s chega a uma composio de ordem 
estatstica, e portanto incompleta (Cap. 3). A composio perceptiva no poderia, pois, ultrapassar o nvel do 
que h pouco chamvamos de grupo subjetivo, isto , um sistema centrado em funo da ao prpria, e 
suscetvel, alm do mais, de correes e de regulaes. E isto  verdade mesmo ao nvel em que o sujeito, 
quando ultrapassa o campo perceptivo para antecipar e reconstituir os movimentos e objetos invisveis, 
chega a uma estrutura objetivada de grupo no domnio do espao prtico prximo.

De um modo geral, podemos assim concluir pela profunda unidade dos processos sensrio-motores que 
engendram a atividade perceptiva, a formao dos hbitos e inteligncia pr-verbal ou pr-representativa 
em si. Esta no aparece, pois, como um poder novo, superpondo-se ex abrupto a mecanismos anteriores 
inteiramente feitos, mas  apenas expresso desses mesmos mecanismos quando, ultrapassando o contato 
atual e imediato com as coisas (percepo), assim como as conexes curtas e rapidamente automatizadas 
entre as percepes e os movimentos (hbito), enveredam pela via da reversibilidade e da mobilidade, a 
distncias cada vez maiores e segundo trajetos cada vez mais complexos. A inteligncia nascente nada mais 
, portanto, que a forma de equilbrio mvel no sentido a que tendem os mecanismos prprios da 
percepo e do hbito, fas estes no a atingem seno saindo de seus respectivos campos iniciais de 
aplicao. Alm do mais, desde esse primeiro degrau sensrio-motor da inteligncia, esta j chega a 
constituir, no caso privilegiado, do espao, essa estrutura equilibrada que  o grupo dos deslocamentos, 
sob forma inteiramente prtica ou emprica,  verdade, e naturalmetne permanecendo no plano muito

120             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

restrito do espao prximo. Mas  evidente que essa organizao, assim circunscrita pelas limitaes da 
prpria ao, no constitui ainda uma forma de pensamento. Todo o desenvolvimento do pensamento, do 
aparecimento da linguagem ao fim da primeira infncia, , pelo contrrio, necessrio para que as estruturas 
sensrio-motoras acabadas, e mesmo coordenadas sob forma de grupos empricos, se prolonguem em 
operaes propriamente ditas, que iro constituir ou reconstituir esses grupamentos e os grupos no plano 
da representao e do raciocinio reflexivo.

TERCEIRA PARTE

0 DESENVOLVIMENTO

DO PENSAMENTO

5

A Elaborao do Pensamento. Intuio e Operaes

Verificamos, nas primeiras partes deste livro, que as operaes do pensamento atingiam sua forma de 
equilbrio quando se constituam em sistemas de conjunto caracterizados por sua composio reversvel 
(grupamentos ou grupos). Mas, se uma fonna ele equilbrio assinala o termo de uma evoluo, no explica 
suas fases iniciais nem o seu mecanismo construtivo. A ssegmida parte permitiu-nos, depois, discernir nos 
processos sensrio-motores o ponto de partida das operaes, os esquemas da inteligncia sensrio-
motora que constituem o equivalente prtico dos conceitos e das relaes, e sua coordenao em sistemas 
espao-temporais de objetos e de movimentos que chegam, inclusive, sob forma tambm inteiramente 
prtica e emprica,  conservao do objeto, assim como a uma estrutura correlata do grupo (o grupo 
experimental dos deslocamentos, de Henri Poincar). Mas  evidente que esse grupo sensrio-motor 
constitui simplesmente um esquema de comportamento, isto , o sistema equilibrado dos diversos modos 
possveis de se deslocar materialmente no espao prximo, e que ele no atinge absolutamente a categoria 
de um instrumento de pensainento.30  claro que a inteli-

-30 Se dividirmos as condutas em trs grandes sistemas: estruturas orgnicas hereditrias (instinto), estruturas sensrio-motoras (suscetveis de 
aquisio), e estruturas representativas (que constituem o pensamento), podemos situar o grupo dos deslocamentos sensrio-

124               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

gncia sensrio-motora situa-se na origem do pensamento, e continuar a atuar sobre ele, durante toda a 
vida, atravs das percepes e das atitudes prticas. 0 papel das percepes sobre o pensamento mais 
evoludo, em particular, no poderia ser desprezado, como o fazem eventualmente certos autores quando 
saltam muito rapidamente da neurologia  sociologia, e basta para atestar a influncia persistente dos 
esquemas iniciais. Mas resta ainda um longo c--minho a percorrer entre a inteligncia pr-verbal e o 
pensamento operatrio, para que se constituam os grupamentos reflexivos, e, se houver continuidade 
funcional entre os extremos, a construo de uma srie de estruturas, intermedirias continua 
indispensvel em degraus mltiplos e heterogneos.

Diferenas de estrutura entre a intelignc@a conceptual e a inteligncia sensrio-motora

Para captar o mecanismo de formao das operaes, importa antes compreender o que est por construir, 
isto , o que falta  inteligncia sensrio-motora para que se prolongue em pensamento conceitual. Nada 
seria mais superficial, com efeito, que supor a elaborao da inteligncia j acabada no plano prtico e 
ento apelar apenas para a linguagem e representao carregada de imagens para explicar como essa 
inteligncia j construtiva ir interiorizar-se em pensamento lgico.

Na realidade,  exclusivamente do ponto de vista funcional que se pode achar na inteligncia sensrio-
motora o equivalente prtico das classes, das relaes, dos raciocnios e mesmo dos grupos de 
deslocamentos sob a forma emprica dos prprios deslocamentos. Do ponto de vista do estrutura e, por 
conseguinte, da eficincia, permanece entre as coordenaes sensrio-motoras e as coordenaes, 
conceituais um certo nmero de diferenas fundamentais, ao mesmo tempo quanto  natureza das prprias 
coordenaes e quanto s distncias percorridas pela ao, sto, , na zona de seu campo de aplicao.

motores no cume do segundo desses sistemas, ao passo que os grupos e grupamentos operatrios de ordem formal situam-se no cume 
do terceiro.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO              125

Em primeiro lugar, os atos de inteligncia sensriomotora, que consistem unicamente em coordenar entre si 
percepes sucessivas e movimentos reais, igualmente sucessivos, esses atos no podem reduzir-se seno 
a sucesses de estados, ligados por curtas previses e reonstituies, mas sem jamais chegar a uma 
representao de conjunto: esta s poderia constituir-se sob condio de tornar simultneos os estados, 
pelo pensamento, e, por conseguinte, de retir-los do transcurso temporal da ao. Em outras palavras, a 
inteligncia sensrio-motora procede como um filme em cmara lenta, do qual se vem todos os quadros, 
mas sem fuso da imagem; portanto, seni a viso continuada necessria para a compreenso do conjunto.

Em segundo lugar, e por isso mesmo, um ato de inteligncia sensrio-motora s tende  satisfao prtica, 
isto,  , ao xito da ao, e no ao conhecimento propriamente dito. Ele no procura a explicao, a 
classificao, ou a constatao por si mesmas, e no relaciona casualmente, nem classifica ou constata, a no 
ser em vista de um fim subjetivo estranho  procura do verdadeiro. A inteligncia sensrio-motora , pois, 
uma inteligncia vivida, e de modo. algum reflexiva.

Quanto a seu campo de aplicao, a inteligncia sensrio-motora s opera sobre as prprias realidades, 
cada um de seus atos s comportando, assim, distncias muito curtas entre o sujeito e os objetos. Sem 
dvida, ela  capaz de desvios e retornos, mas no se trata sempre seno de movimentos realmente 
executados e de objetos reais para procurar abranger a totalidade do universo, at o invisvel e s vezes 
mesmo o irrepresentvel:  nesta multiplicao infinita das distncias espao-temporais entre o sujeito e os 
objetos que consistem a principal novidade da inteligncia conceptual e a fora especfica que a tornar 
apta a engendrar as operaes.

Assim, as condies da passagem do plano sensriomotor ao plano reflexivo so essencialmente trs: 
primeira, um aumento das velocidades que permita fundir num todo simultneo os conhecimentos ligados s 
fases sucessivas da ao. Depois, uma tomada de conscincia, no mais apenas quanto aos resultados 
desejados da ao, mas quanto a seus prprios empenhos, permitindo assim revestir a procura do xito pela 
constatao. Finalmente, uma multiplicao das distncias, permitindo prolongar as

126             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

aoes relativas s prprias realidades por meio de aes simblicas referentes s representaes, e 
ultrapassando assim os limites do espao e do tempo prximos.

Percebe-se, ento, que o pensamento no poderia ser uma traduo, nem mesmo uma simples continuao 
do sensrio-motor em representativo. Trata-se muito mais de formular ou prosseguir a obra comeada: 
primeiro  necessrio reconstruir o todo em um novo plano. S a percepo e a motricidade efetiva 
continuaro a se exercer da mesma forma, prontas a carregar-se de significaes novas e a integrar-se em 
novos sistemas de compreenso. Mas restam a ser inteiramente reedificadas as estruturas da inteligncia 
antes que possam ser completadas: saber revirar um objeto (ef. o caso da mamadeira citado no Cap.
4) no implica que se possa representar em pensamento uma seqncia de rotaes; deslocar-se 
materialmente segundo desvios complexos e voltar a seu ponto de partida no acarreta a compreenso de 
um sistema de deslocamentos simplesmente imaginados; e mesmo antecipar a conservao de um objeto, na 
ao, no leva por si s ao entendimento das conservaes referentes a um sistema de elementos.

Bem mais ainda: para reconstruir essas estruturas em pensamento, o sujeito vai defrontar-se com 
dificuldades idnticas, mas transpostas a esse novo plano, s que j superou na ao imediata. Para 
construir um espao, um tempo, um universo de causas e de objetos sensrio-motores ou prticos, a criana 
teve que libertar-se de seu egocentrismo perceptivo e motor:  por uma srie de descentraes sucessivas 
que ela chegou aorganizar um grupo emprico de deslocamentos materiais, situando seu corpo e seus 
movimentos prprios no conjunto dos demais. A construo desses grupamentos e grupos operatrios do 
pensamento vai precisar de uma inverso de sentido anlogo, mas no curso de itinerrios infinitamente mais 
complexos; ir tratar-se de descentrar o pensamento, no apenas em relao  centrao perceptiva atual, 
mas em relao  atividade prpria total. 0 pensamento, nascendo da ao, , com efeito, egocntrico, em 
seu ponto de partida exatamente pelas mesmas razes que a inteligncia sensrio-motora  primeiro 
cenrada nas percepes ou movimentos presentes de que ela procede. Assim, a construo das operaes 
transitivas, associativas e reversiveis supor uma converso desse egocentrismo inicial em um sistema de 
relaes

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO              127

e de classes descentradas em relao ao eu, e essa descen. trao intelectual (sem falar de seu aspecto social, que 
encontraremos no Cap. 6) ocupar, de fato, toda a primeira infncia.

0 desenvolvimento do pensamento ver, pois, primeiro repetir-se, de acordo com um vasto sistema de decalagens, a 
evoluo que parecia culminada no terreno sensmotor, antes de se exibir, num campo infinitamente mais vasto no 
espao e mais mvel no tempo, at a estruturao das prprias operaes.

As fases da construo das operaes

Para entender o mecanismo desse desenvolvimento, cujo grupamento operatrio constitui, pois, a forma de equilbrio 
final, distinguiremos (simplificando e esquematizando as coisas) quatro perodos principais em seqt-,iicia quele que  
caracterizado pela constituio da inteligncia sensrio-motora.

A partir do aparecimento da linguagem, ou, mais precisamente, da funo simblica que torna possvel sua aquisio (1 a 
dois anos), comea um perodo que se estende at perto de 4 anos e v desenvolver-se um pensamento simblico e pr-
conceptual.

De 4 a 7 ou 8 anos, aproximadamente, constiWi-se, em continuidade ntima com o precedente, um pensamento intuitivo 
cujas articulaes progressivas conduzem ao limiar da operao.

De 7 ou 8 at 11 ou 12 anos de idade, organizam-se as operaes concretas, isto , os grupamentos operatrios do 
pensamento recaindo sobre objetos manipulveis ou suscetveis de serem intudos.

A partir dos 11 a 12 anos e durante a adolescncia, elabora-se por fim o pensamento formal, cujos grupamentos 
caracterizam a inteligncia reflexiva acabada.

0 pensamento simblico e pr-conceptual

Desde os ltimos estgios do perodo sensrio-motor, a criana  capaz de imitar certas palavras e de atribuirlhes uma 
significao global, mas s por volta de fins do segundo ano ela comea a aquisio sistemtica da linguagem.

128              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Ora, tanto a observao direta da criana como a anlise de certos distrbios da fala pem em evidncia o 
fato de que a utilizao do sistema dos sinais verbais deve-se ao exerccio de uma funo simblica mais 
geral, cuja especificidade  de permitir a representao do real por intermdio de significantes distintos 
das coisas signifi-cadas.

Convm, com efeito, distinguir os smbolos e os signos, por um lado, e os ndices ou sinais, por outro. No 
apenas, todo pensamento, mas toda atividade cognitiva ou motora, da percepo e do hbito ao pensamento 
conceptual e reflexivo, consiste em relacionar significaes, e toda significao pressupe uma relao 
entre um s!gnificaW,@ e uma realidade significada. Apenas, no caso do ndice, o signficante constitui parte 
ou aspecto objetivo do sgnifcado, ou ainda lhe est ligado por um vnculo de causa e efeito; pegadas na 
neve so, para o caador, ndice da caa, e a extremidade visvel de um objeto quase totalmente escondido 
, para o beb, ndice de sua presena. 0 sinal, tambm, mesmo artificialmetne provocado pelo 
experimentador, constitui para o sujeito um simples aspecto parcial do fato que ele anuncia (numa conduta 
condicionada, o sinal  percebido como um antecedente objetivo). Pelo contrrio, o smbolo e o signo 
implicam uma diferenciao, do ponto de vista do prprio sujeito, entre o significante e o significado: para 
uma criana que brinca de fazer comidinha, uma pedra repersentando uma guloseima  conscientemente 
reconhecida como simbolizante, e a guloseima como simbolizada; e quando a mesma criana considera, por 
aderncia do signo, um nome como inerente  coisa nomeada, ela no entanto considera esse nome como 
um significante, mesmo que faa dele uma espcie de etiqueta atribuda substancialmente ao objeto 
designado.

Esclareamos ainda que, de acordo com um hbito dos lingstas til de acompanhar-se em psicologia, um 
smbolo deve definir-se como implicando um vnculo de semelhana entre o significante e o significado, ao 
passo que ,o signo  arbitrrio e repousa necessariamente numa conveno. 0 signo exige, pois, a vida 
social para se constituir, ao passo que o smbolo j pode ser elaborado pelo indivduo sozinho (como no 
brinquedo das criancinhas).  evidente, de resto, que os smbolos podem ser sociali- ,zados, sendo um 
simbolo coletivo, ento, em geral meio

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO                     129

signo e meio smbolo; por outro lado, um puro signo  sempre coletivo.

Dito isso, importa constatar que, na criana, a aquisio da linguagem, e portanto do sistema dos signos 
coletivos, coincide com a formao do smbolo, isto , do sistema dos significantes individuais. Com ef eito, 
no se poderia falar propriamente de jogos simblicos durante o perodo sensrio-motor, e K. Gross foi um 
pouco mais alm ao atribuir aos animais a conscincia da fico, 0 jogo primitivo  simples brinquedo de 
exerccio e o verdadeiro smbolo s comea quando um objeto ou gesto representam, para o prprio 
sujeito, algo alm dos dados perceptveis. Desse ponto de vista, v-se aparecer, no sexto estgio da 
inteligncia sensrio-motora, esquemas simblicos, isto , esquemas de ao sados de seu contexto e 
evocando uma situao ausente (por exemplo, fingir que dorme). Mas o smbolo propriamente s comea 
com a representao destacada da ao prpria: por exemplo, fazer uma boneca ou ursinho dormir, Ora, 
precisamente, no nvel em que aparece, no brinquedo, o smbolo no sentido estrito, a linguagem 
desenvolve, de resto, a compreenso dos signos.

Quanto  gnese do smbolo individual, ela  esclarecida pelo @desenvolviinento da imitao. Durante o perodo sensrio-motor, a imitao no 
passa de um prolongamento da acomodao prpria dos esquemas de assimilao: o sujeito, quando sabe executar um gesto, ao perceber um 
movimento anlogo (sobre outro ou sobre outras -coisas), assimila-o ao seu, e essa assimilao, sendo tanto motora quanto perceptiva, 
desencadeia o esquema prprio. Em seguida, o novo modelo provoca uma reao assimiladora anloga, mas o esquema ativado  ento 
acomodado s novas particularidades; no sexto estgio, essa acomodao imitativa torna-se mesmo possvel no estado adiado, o que anuncia a 
representao. A imitao propriamente representativa, pelo contrrio, s comea no nvel do jogo simblico porque, como ele, ela pressupe a 
imagem:     Mas ser a imagem causa ou efeito dessa interiorizao do mecanismo mitatvo? A imagem mental no  um fato primeiro, como 
por muito tempo o acreditou o associaconsmo: ela , como a prpria imitao, uma acomodao dos esquenlas sensrio-motores, isto , urna 
cpia ativa, e no um trao ou resduo sensorial dos objetos percebidos. Ela , assim, imitao interor, e prolonga a acomodao dos esquemas 
prprios da atividade perceptva (em contraste com a percepo como tal), assim como a imitao exterior dos nveis precedentes prolonga a 
acomodao doi ,esquemas sensrio-motores (os quais esto precisamente na origem da atividade perceptiva propriamente dita).

Da poder-se explicar a formao do smbolo como segue: a imitao adiada, isto , acomodao se 
prolongan-

130               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

do em esboos imitativos, fomece os significantes, que o jogo ou a inteligncia aplicam a significados diversos, segundo os 
modos de assimilao, livre ou adaptada, que caracterizam essas condutas. 0 jogo simblico sempre comporta, assim, um elemento de imitao, 
funcionando como significante, e a inteligncia, em seus primrdios, utiliza igualmente a imagem a ttulo de smbolo ou de significante.3.1

Compreende-se, ento, por que a linguagem (que tambm se aprende por imitao, mas por imitao de signos inteiramente feitos, ao passo que 
a imitao das formas, etc. f ornece apenas a matria significante do simbolismo individual)  adquirida ao mesmo tempo em que se constitUi G 
smbolo:  que o emprego dos signos, como o dos smbolos, pressupe essa aptido, inteiramente nova em contraste com as condutas sensrio-
motoras, que consiste, em representar alguma coisa por outra. Pode-se, ento, aplicar  criana essa noo de uma funo simblica geral, de 
que se fez s vezes a hiptese a propsito da afasia, porque  a formao desse mecanismo que caracterizaria, em resumo, o aparecimento 
simultneo da imitao representativa, do jogo simblico, da representao com imagem e do pensamento verbaL32

No todo, o pensamento nascente, ao mesmo tempo em que prolongando a inteligncia sensrio-motora, procede, pois, da diferenciao dos 
significantes e dos significados, e se apia, por conseguinte, ao mesmo tempo na criao dos smbolos e na descoberta dos signos. Mas  
evidente que, quanto mais jovem a criana, menos lhe bastar o sistema desses signos coletivos inteiramente feitos, porque, em parte 
inacessveis e difceis de manejar, esses signos verbais permanecero por muito tempo inadequados para exprimir o individual sobreo qual o 
indivduo continua centrado. Eis por que, na medida em que domina a assimilao egocntrica do real  atividade prpria, a criana ter 
necessidade de smbolos: donde o jogo smblicG, ou o jogo de imaginao, a mais pura forma de pensamento egocntrico e simblico, 
assimilao do real aos interesses prprios e expresso do real graas ao emprego de imagens modeladas pelo eu.

31 Ver I. Meyerson, Les Images, em Dumas, Nouveau Trait de Psychologie.
32 Cf. Piaget, A Formao do Smbolo na Criana (Zahar Editores).

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO              131

Mesmo, porm, no terreno do pensamento, adaptado, isto , a partir dos primrdios da inteligncia 
representativa, ligada, de perto ou de longe, aos signos verbais, importa notar o papel dos smbolos com 
imagens e constatar o quanto o sujeito fica longe de atingir, durante os primeiros anos, os conceitos 
propriamente ditos. Do aparecimento da linguagem at por volta dos 4 anos, - preciso, com efeito, 
distinguir um primeiro perodo da inteligncia pr-conceptual, e que se caracteriza pelos pr-conceitos ou 
participaes, e no plano do raciocnio nascente, pela transduco ou raciocnio pr-conceptual.

Os pr-conceitos so as noes relacionadas pela criana aos primeiros signos verbais cujo emprego ela 
adquire. 0 carter prprio desses esquemas  permanecer a meio caminho entre a generalidade do 
conceito e a individualidade dos elementos que o compem, sem atingir nem um nem outro. A criana de 2 
a 3 anos dir indiferentemente a lesma ou as lesmas, assim como a lua ou as luas, sem concluir se as 
lesmas encontradas durante um mesmo passeio ou os discos vistos de tempos em tempos no cu so um s 
indivduo, lesma ou lua nica, ou uma classe de indivduos distintos. Por um lado, com efeito, ela ainda no 
maneja as classes gerais, por lhe faltar a distino entre todos e alguns. Por outro lado, se a noo do 
objeto individual permanente  acabada no campo da ao prxima, nada  quanto ao espao distante e 
reaparecimentos em duraes espaadas: uma montanha est sujeita ainda a se deformar realmente durante 
uma excurso (como anteriormente a mamadeira, durante suas rotaes), e a lesma reaparecer em 
pontos diferentes. Donde, s vezes, verdadeiras participaes entre objetos distintos e distanciados uns 
dos outros: aos 4 anos, ainda, a sombra que se faa sobre urna mesa, num quarto fechado, por meio de uma 
tela,  explicada por aquelas que se acham debaixo das rvores do jardim ou de noite, etc., como se essas 
ltimas interviessem de modo imediato no momento em que se coloca a tela sobre a mesa (e sem que o 
sujeito procure de f orma alguma esclarecer o como do fenmeno).

Claro est que um esquema assim, a meio caminho entre o individual e o geral, no  ainda um conceito 
lgico e continua a fazer parte do esquema de ao e da assimilao sensrio-motora. Mas trata-se de um 
esquema representativo e que, em particular, chega a evocar grande n-

132              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

mero de objetos por meio de elementos privilegiados tidos por exemplares tpicos da coleo pr-conceptual. Esses 
individuos-tipos, sendo eles prprios concretizados pela imagem tanto e mais que pela palavra, o pr-conceito implica, por outro lado, o smbolo, 
na medida em que ele recorre a esses tipos de exemplares genricos. , pois, no todo, um esquema situado a meio caminho entre o esquema 
sensrio-motor e o conceito, quanto a seu modo de assimilao, e participante do smbolo com imagem quanto a sua estrutura representativa.

ora, o raciocnio que consiste em relacionar tais prconceitos exibe precisamente essas mesmas estruturas, Stern chamou de transduco'1 
esses raciocnios primitivos, que no procedem por deduo, mas por analogias imediatas. H mais ainda, porm: raciocnio pr-conceptual, a 
transduco s repousa em ajustamentos incompletos, e fracassa desse modo em toda estrutura operatria reversvel. Por outro lado, se ela tem 
xito na prtica,  que no constitui seno uma seqncia de aes simbolizadas em pensamento, uma experincia mental no sentido prprio, 
isto , uma imitao interior dos atos e de seus resultados, com todas as limitaes que essa espcie de empirismo da imaginao comporta. 
Deparamo-nos, assim, na transduco, ao mesmo tempo com a falta de generalidade inerente ao pr-conceito e seu carter simblico ou pleno 
de imagem que permita transpor as aes em pensamento.

0 pensainento, intuitivo

S a observao permite analisar as formas de pensamento descritas h pouco, porque a inteligncia das crianas continua muitssimo instvel 
para que se lhes possa interrogar proveitosamente. A partir dos 4 anos de idade, por outro lado, breves experincias que se faam com o sujeito, 
fazendo-o manipular os objetos sobre os quais essas experincias recaem, permitem obter respostas singulares e acompanhar a conversao. 
Esse fato, por si s, j constitui ndice de uma nova estruturao.

Com efeito, de 4 a 7 anos, assiste-se a uma coordenao paulatina das relaes representativas; portanto a uma conceptualizao crescente 
que, da fase simblica ou pr-coneptual, levar a criana ao limiar das operaes. Mas, o que - notvel, essa inteligncia, cujo pro-

0 DEsENvoLVIMENTO DO PENSAMENTO            133

gresso se pode acompanhar, continua constantemente prlgica, e isso em terrenos em que ela chega a 
seu mximo de adaptao :33 at o momento em que o Ilgrupamentoll assinaia a culminao dessa seqncia 
de equilibraes sucessivas, ela supre ainda as operaes inacabadas por um forma semi-simblica de 
pensamento, que  o raciocnio intuitivo; e ela s controla os juizos por meio dt, regulaes> intuitivas, 
anlogas, no plano de representaao, ao que so as regulaes perceptivas no plano sensrio-motor.

Tomemos como exemplo uma experincia que fizemos h tempos com A. Szeminska. Dois pequenos vasos 
A e A, de forma e dimenses iguais so enchidos com a mesma quantidade de prolas, sendo que essa 
equivalncia  reconhecida pela criana, pois ela mesma as colocou
- por exemplo, colocando coma mo direita uma prola em A toda vez que, com a esquerda, colocava outra 
prola em Ai. Depois disso, deixando o vaso A como prova, derrama-se A, num vaso B de forma diferente. 
As crianas de 4 a 5 anos concluem, ento, que a quantidade de prolas mudou, mesmo estando bem certos 
de que nenhuma foi retirada ou acrescentada: se o vaso B for fino e alto, elas diro que h mais prolas 
que antes, porque est mais alto, ou que h menos prolas porque ilest mais fino; o fato  que estaro 
de acordo quanto  no-conservao do todo.

Observemos, em primeiro lugar, a continuidade dessa reao com as de nveis precedentes. De posse da 
noo de conservao de um objeto individual, o sujeito ainda no est de posse da noo de um conjunto 
de objetos: a classe total no est, pois, construda, visto que nem sempre  invariante, e essa no-
conservao prolonga, assim, ao mesmo tempo as reaes iniciais ao objeto (com deslocamento, no tempo e 
no espao, devido ao fato de que no mais se trata de elemento isolado, mas de uma coleo) e ausncia de 
totalidade geral de que falamos a propsito do pr-conceito.  claro, por outro lado, que as razes de erro 
so de ordem quase perceptiva-  a elevao de nvel que engana a criana, ou estreiteza da coluna, etc. 
Apenas no se trata de iluses perceptivas: a

33 Deixamos de lado, aqui, as formas puramente verbais de pensainento, tais como o animismO, 0 artificialismo infantil, o realisnio nominal, etc.

134              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

percepo das relaes de modo geral  exata, porm enseja uma elaborao intelectual incompleta. Esse 
esquemadsmo pr-lgico, imitando ainda de perto os dados perceptivos ao mesmo tempo em que os 
recentrando a seu prprio modo,  que se pode chamar de pensamento intuitivo. Percebe-se logo suas 
relaes com o carter pleno de imagens do pr-conceito e das experincias mentais que caracterizam o 
raciocnio transductivo.

Contudo, esse pensamento intuitivo progride em relao ao pensamento pr-conceptual ou simblico: 
referindo-se essencialmente s configuraes de conjunto e no mais a figuras simples semi-individuais, 
semigenricas, a intuio leva a um rudimento de lgica, mas sob a forma de regulaes representativas e 
no ainda de operaes. Desse ponto de vista, existem centraes e descentraes11 intuitivas anlogas 
aos mecanismos de que falamos a propsito dos esquemas sensrio-motores da percepo (Cap. 3). 
Suponhamos uma criana avaliando que em B as prolas so mais numerosas que em A porque o nvel 
subiu: ela centra assim seu pensamento, ou sua ateno@34 na relao entre as alturas de B e A, e 
despreza as larguras. Mas derramemos B nos vasos C ou D, etc., ainda mais finos e mais altos; chega 
necessariamente um momento em que a criana responder: este tem menos, porque  muito estreito. 
Haver, assim, correo da centrao sobre a altura por uma descentrao da ateno sobre a largura. No 
caso em que o sujeito avalie a quantidade menor em B que em A por causa da estreiteza, o alongamento 
em C, D, etc. o levar, pelo contrrio, a inverter seu julgamento em favor da altura. Ora, essa passagem de 
urna nica centrao s duas sucessivas anuncia a operao: desde que raciocine sobre as duas relaes 
ao mesmo tempo, a criana deduzir, com efeito, a conservao. Apenas no h ainda, no caso, nem 
deduo nem operao real: um erro  amplamente corrigido, mas com retardo e por reao ao seu 
prprio exagero (como no domnio das iluses perceptivas), e as duas relaes so encaradas 
alternativamente em vez de serem multiplicadas logicamente. S ocorre, ento, uma espcie de regulao 
intuitiva e no um mecanismo propriamente operatrio.

34 A ateno monoidica nada mais  que uma centrao do pensamento.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             135

H mais, porm. Para estudar ao mesmo tempo as diferenas entre a intuio e a operao, e a passagem de uma a outra, pode-
se enfocar no apenas o relacionamento das qualidades a duas dimenses, mas a correspondncia mesma, sob forma lgica (qualitativa) ou 
matemtica. Apresenta-se ao sujeito ao mesmo tempo os vasos de formas distintas A e B e se lhe pede para pr uma prola simultaneamente 
em cada vaso; uma com a mo esquerda, outra com a mo direita: se as prolas forem em nmero pequeno (4 o u5), a criana acredita de 
pronto na equivalncia dos dois conjuntos, o que parece anunciar a operao, mas quando as formas dos contedos variam muito, ainda que a 
correspondncia continue, ela deixa de admitir a igualdade! A operao latente , pois, suplantada pelas exigncias abusivas da intuio.

Alinhemos agora seis fichas vermelhas sobre a mesa e ofeream-os ao sujeito uma coleo de fichas azuis, pedindo-lhe para depositar outro 
tanto de vermelhas. De 4 a 5 anos mais ou menos, a criana no elabora correspondncia e se contenta com o enfileiramento de comprimento 
igual (com elementos mais juntos que o modelo). Por volta de 5 a 6 anos, em mdia, o sujeito alinhar seis fichas azuis em relao a seis 
vermelhas. Estar adquirida a operao como parece? De modo algum: basta desmembrar os elementos de uma das sries, ou amonto-los, 
etc., para que o sujeito deixe de acreditar na equivalncia. Na medida em que dure a correspondncia tica, a equivalncia ser evidente: desde 
que a primeira seja alterada, a segunda desaparece, o que nos leva  no-conservao do conjunto.

Ora, essa reao intermediria  plena de interesse.
0 esquema intuitivo tornou-se bastante flexvel de modo a permitir antecipao e construo de uma configurao exata de correspondncia, o 
que, para um observador no advertido, apresenta todos os aspectos de uma operao. E no entanto, uma vez modificado o esquema intuitivo, a 
relao lgica de equivalncia, que seria o produto necessrio de uma operao, confirma-se inexistente. Achamonos, assim, diante de uma 
forma de intuio superior  do nvel precedente, e que se pode chamar de intuio articulada, em contraste com as intuies simples. Mas 
essa intuio articulada, ao mesmo tempo em que se aproximando da operao (e chegando a ela depois por fases no raro insensveis), 
continua rgida e irreversvel como o

136                 PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

pensamento intuitivo inteiro: ela , pois, apenas o produto das regulaes sucessivas, que terminaram por 
articular as relaes globais e inanalisveis do incio, e no ainda de um grupamento propriamente dito.

Pode-se acGmpanhar mais de perto essa diferena entre os mtodos intuitivos e operatrios fazendo com 
que a anlise recaia nos ajustamentos de classes e seriaes de relaes assimtricas, constitutivas dos 
grupamentos mais elementares.  claro, porm, que se trata de apresentar o problema no prprio terreno 
intuitivo, nico acessvel neste nvel, em contraste com o domnio formal, ligado apenas  linguagem. 
Quanto ao que se refere aos ajustamentos de classes, colocaremos numa caixa uma vintena de contas, que 
o sujeito reconhecer serem todas de madeira e que constituem assim um todo B. A maioria dessas contas 
 de cor castanha e constitui a parte A, e algumas delas so brancas, constituindo a parte complementar X. 
Para determinar se a criana  capaz de compreender a operao A + A= B, isto , a reunio das partes no 
todo pode-se fazer esta simples pergunta: h nesta caixa (estando visveis todas as contas) mais contas de 
madeira ou mais contas castanhas, portanto A < B?

Ora, a criana responde, quase sempre, at cerca de 7 anos de idade, que h mais de cor castanha porque h apenas duas ou trs brancas. 
Ento se esclarece: As castanhas so de madeira?
- Sim. - Se retiro todas as contas de madeira para coloc-las aqui (outra caixa), ficar alguma conta na (primeira) caixa? --

No, porque so todas de madeira. - Se retiro as castanhas, ficai- alguma conta? - Sim, as brancas. Em seguida, repete-se a pergunta inicial e o 
sujeito recomea a afirmar que h na caixa mais contas castanhas que contas de madeira, porque h apenas duas brancas, etc.

0 mecanismo desse tipo de reaes  fcil de deslindar: o sujeito centra facilmente sua ateno no todo B,  
parte, ou nas partes A e A, uma vez isoladas em pensamento, mas a dificuldade  que, ao centrar em A, ele 
destri por isso mesmo o todo B, de tal modo que a parte A no pode ento ser comparada a no ser com a 
outra parte A. H, portanto, de novo, a no-conservao do todo, por falta de mobilidade nas centraes 
sucessivas do pensamento. H mais ainda, porm. Forando a criana a imaginar o que aconteceria 
fazendo-se um colar, seja com as contas de madeira B, ou com as castanhas A, encontram-se as dificuldades 
precedentes, mas com esta

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO               137

preciso: se fao um colar com as de cor castanha, responde s vezes a criana, no poderia fazer outro 
colar com as mesmas contas, e o colar de contas de madeira ter apenas as brancas! Esse gnero de 
reflexes, que nada tm de absurdas, pe em evidncia, no entanto, a diferena que ainda separa o 
pensamento intuitivo do pensamento operatrio: na medida em que a primeira imita as aes reais por 
experincias mentais plenas de imagens, ela defronta o obstculo de que no se poderia de fato fazer dois 
colares ao mesmo tempo com os mesmos elementos, ao passo que, na medida em que o pensamento 
operatrio procede por aes interiorizadas que se to m-aram totalmente reversveis, nada impede de 
construir simultaneamente duas hip teses e de compar-las entre si.

A seriao de rguas pequenas A, B, C, etc., de dimenses distintas, mas vizinhas (a serem comparadas 
duas a duas), tambm enseja ensinamentos teis. As crianas, de 4 a 5 anos s chegam a construir pares no 
coordena, dos entre si: BD, AC, EG etc. Depois a criana constri sries curtas, e s consegue a seriao 
de dez elementos por tentativas sucessivas. Alm do mais, quando seu enfileiramento est concludo, ela  
incapaz de intercalar novos termos sem desfazer o todo.  preciso esperar o nvel operatrio para que a 
seriao seja conseguida de pronto, por um mtodo que consista, por exemplo em procurar o menor dos 
termos, depois o menor dos restantes etc. Ora,  tambm nesse nvel que o raciocnio (A < B) + + (B < C) 
== (A < C) se torna possvel, ao passo que nos nveis intuitivos o sujeito se recusa a concluir das duas 
desigualdades constatatadas perceptivamente, A < B e B < C, a previso A < C.

As articulaes progressivas da intuio e as diferenas que as separam ainda da operao so sobremodo 
ntidas nos domnios do espao e do tempo, de resto muito instrutivas quanto s comparaes possveis 
entre as reaes intuitivas e as reaes sensrio-motoras. Lembrase, assim, a aquisio pelo beb da ao 
que consiste em virar a mamadeira. Ora, virar um objeto por uma ao inteligente no leva por si s a saber 
vir-lo em pensamento, e as fases dessa intuio da rotao constituer-@ mesmo uma repetio, em linhas 
gerais, das fases da rotao efetiva ou sensrio-motora: nos dois casos, verifJLr_a-s@um mesmo processo 
de descentra o progressiva a partir da perspectiva egocntrica, sendo essa descentrao sini-

138             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

plesmente perceptiva e motora, no primeiro caso, e represericativa no segundo.

Pode-se, quanto a isso, proceder de dois modos: ou por rotao, em pensamento, do sujeito em torno do 
objeto, ou por rotao, em pensamento, do prprio objeto. Fara efetuar a primeira situao, sero 
apresentadas, por exemplo,  criana, montagens em papelo sobre uma mesa quadrada, e se far com que 
escolha, entre alguns desenhos muito simples, aqueles que correspondem s perspectivas possveis (a 
criana sentada a um dos lados da mesa v uma boneca mudar de posio e deve encontrar os quadros que 
lhes correspondem) : ora, as crianas ficam sempre dominadas pelo ponto de vista que  o seu no momento 
da escolha, mesmo quando circularam antes de um lado a outro da mesa. As inverses de trs para frente e 
da esquerda para a direita so de uma dificuldade a princpio insupervel e s se tomam possveis aos 
poucos, por volta dos 7 a 8 anos, por regulaes intuitivas.

A rotao do prprio objeto pode, por outro lado, ensejar interessantes constataes relativas  intuio da 
ordem. Por exemplo, enfiam-se por um fio de ferro trs bonecas de cores diferentes, A, B e C, ou se faz 
com que entrem num tubo de papelo (sem cavalgamentos possveis) trs bolas, A, B e C. Faz-se com que a 
criana desenhe o todo a ttulo de lembrete. Depois se faz passar os elementos A, B e C por trs de uma 
tela ou atravs do tubo e se faz prever a ordem direta de sada (na outra extremidade) e a ordem inversa 
de retorno. A ordem direta  prevista por todos. Por outro lado, a ordem inversa s  prevista em torno de 
4 a 5 anos de idade, no fim do perodo pr-conceptual. Depois disso, imprime-se um movimento de rotao 
de 180 graus ao conjunto do dispositivo (fio de ferro ou tubo) e se faz prever a ordem de sada (que est, 
assim, invertida). Tendo a prpria criana controlado o resultado, recomea-se e depois efetuam-se duas 
meia-rotaes (360 graus ao todo) depois trs, etc.

Ora, essa prova permite acompanhar passo a passo todo o progresso da intuio at o surgimento da 
opera o. De 4 a 7 anos, o sujeito comea por no prever que uma meia-rotao mudar a ordem ABC, em 
CBA; depois, tendo constatado a mudanca, admitir que duas meiasrotaes daro tambm CB. 
Desmentido pela experin-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO            139

cia, ele no mais saber prever o efeito de trs meias-rotaes. Mais ainda, as crianas (de 4 a 5 anos), aps 
terem visto que tanto A como C saem na frente, imaginam que B ter sua vez de prioridade (ignorando o 
axioma de Hilbert segundo o qual se B estiver entre A e C, estar necessariamente tambm entre C e 
A!). A noo da invarincia da posio entre adquire-se tambm por regulaes sucessivas, fontes de 
articulao da intuio. S por volta dos 7 anos  que o conjunto das transformaes vem a ser 
compreendido, e no raro muito subitamente quanto  ltima fase, por um grupamento'1 geral das relaes 
em jogo. Notemos de pronto que a operao procede, assim, da intuio, no apenas quando a ordem 
direta (+) pode ser invertida em pensamento (-), por uma primeira articulao intuitiva, mas ainda quando 
duas ordens, inversas uma em relao  outra, do de novo a ordem direta (menos multiplicado por menos 
d mais, o que, no caso particular,  compreendido aos 7 ou 8 anos!).

As relaes temporais ensejam constataes do mesmo gnero. 0 tempo intuitivo  um tempo ligado aos 
objetos e movimentos particulares, sem homogeneidade nem transcurso uniforme. Quando dois mveis, 
partindo do mesmo ponto A, chegam a dois lugares diferentes, B e B, a criana de 4 a 5 anos admite a 
simultaneidade das partidas, mas contesta muito geralmente a simultaneidade das chegadas, muito embora 
ela seja facilmente perceptvel: ela reconhece que um dos mveis no andava mais quando o outro parou, 
mas nega-se a compreender que os movimentos terminaram ao mesmo tempo, porque ainda no h, 
precisamente, tempo comum para velocidades diferentes. Do mesmo modo, ela avalia o antes e o 
depois de acordo com uma sucesso espacial e no ainda temporal. Do ponto de vista das duraes, mais 
depressa acarreta mais tempo, mesmo sem implicao verbal e  simples inspeo dos dados (porque 
mais depressa  igual a mais longe, que  igual a mais tempo). Quando essas primeiras dificuldades so 
vencidas por uma articulao das intuies (devidas a descentraes do pensamento, que se habitua a 
comparar dois sistemas de posies ao mesmo tempo, donde uma regulao. gradual das estimativas), 
subsiste entretanto uma incapacidade sistemtica para reunir os tempos locais num tempo nico. Duas 
quantidades iguais de gua es@

140              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

correndo em quantidades iguais, por dois ramos de um tubo em Y, em torneiras de formas diferentes, 
ensejam, por exemplo, os seguintes juizos: a criana de 6 a 7 anos reconhece a simultaneidade das sadas e 
paradas, mas contesta que a gua tenha corrido tanto tempo num vaso como no outro. As idias relativas  
idade do lugar s mesmas contestaes: Se A nasceu antes de B, isso no significa que seja mais velho, e, 
se  mais velho, isso no exclui que B o iguale em idade ou mesmo o ultrapasse!

Essas noes intuitivas so paralelas quelas que se encontram no domnio da inteligncia prtica. Andr 
Rey mostrou como indivduos de idade igual, defrontando problemas de combinaes de instrumentos 
(tirar objetos de um tubo com ganchos, combinar translaes de desenhos, rotaes, etc.) apresentam 
igualmente condutas irracionais antes de descobrir essas solues adaptadas.35. Quanto s representaes 
sem manipulaes, tais como a explicao do movimento dos rios, das nuvens, da flutua-
4o dos barcos, etc., pudemos constatar que as ligaes causais desse tipo calcavam-se em atividade prpria: 
os movimentos fsicos mostram finalidade, uma fora dinmica interna: o rio toma impulso para passar 
sobre as pedras, as nuvens fazem o vento, que as empurra de volta, etc.36

Assim , pois, o pensamento intuitivo. Como o Pensamento simblico de ordem pr-conceptual, de que 
decorre diretamente, ele prolonga em certo sentido a inteligncia sensrio-motora. Assim como o ltimo 
assimila os objetos aos esquemas da ao, do mesmo modo a intuio  sempre, em primeiro lugar, uma 
espcie de ao executada em pensamento: transvasar, fazer corresponder, encaixar, seriar, deslocar, etc. 
so ainda esquemas de ao, aos quais a representao assimila o real. Mas a acomodao desses esquemas 
aos objetos, em vez de permanecer prtica, fornece os significantes imitativos ou plenos de imagens, que 
permitem precisamnte essa assimilao em pensamento. A intuio , pois, em segundo lugar, um 
pensamento com imagem, mais requintado que durante o perodo precedente, porque recai sobre 
configuraes

35 Andr Rey, VIntelligence pratique chez Penfant, Alcan, 1935.
36 La Causalit physique chez Venfant, Alcan, 1927.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             141

de conjunto e no mais sobre simples colees sincrticas simbolizadas por exemplares tpicos; mas ainda 
utiliza o simbolismo representativo e sempre apresenta, Pois, uma parte das limitaes que lhe so 
inerentes.

Essas limitaes so claras. Relao imediata entre um esquema de ao interiorizada e a percepo dos 
objetos, a intuio s chega a configuraes centradas nessa relao. Impedida de ultrapassar esse 
domnio das configuraes com imagens, as relaes que ela constri so, assim, ncomponveis entre si. 0 
indivduo n o chega  reversibilidade porque uma ao traduzida em simples experincia com imagem 
continua em sentido nico, e porque uma assimilao centrada numa configurao perceptiva tambm o , 
necessariamente. Da a ausncia de @ransitividade, porque cada centrao deforma ou abole as demais, e 
a ausncia de associatvidade, visto que as relaes dependem do caminho percorrido pelo pensamento 
para elabor-las. No todo, no h, pois, nem iden~ tidade certa dos elementos, nem conservao do todo,  
falta de composio transitiva, reversvel e associativa. Desse modo, pode-se tambm dizer que a intuio 
continua fenornenista, porque imita os contornos do real sem os corrigir, e egocntrica, porque 
constantemente centrada em funo da ao do momento: falta-lhe, por isso, o equilbrio entre a assimilao 
das coisas aos esquemas do pensamento, e a acomodao deste  realidade.

Mas esse estado inicial, que se acha em cada um doS domnios do pensamento intuitivo,  progressivamente 
corrigido graas a um sistema de regulaes que preludia as operaes. Dominada primeiro pela relao 
imediata entre o fenmeno e o ponto de vista do sujeito, a intuio evolui no sentido da descentrao. Cada 
deformao levada ao extremo acarreta a reinterveno das relaes desprezadas. Cada relacionamento 
feito favorece a possibilidade de um retorno. Cada desvio chega a interferncias que enriquecem os 
pontos de vista. Toda descentrao de uma intuio se traduz, assim, numa regulao, que tende na 
direo da reversibilidade, da composio transitiva e da associatividade, no todo, da conservao por 
coordenao dos pontos de vista. Donde as intuies articuladas cujo progresso se dirige no sentido de 
mobilidade reversvel e prepara a operao.

142             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

As operaes concretas

0 aparecimento das operaes lgco-aritinticas e espao-temporais suscita um problema de grande 
interesse quanto aos mecanismos prprios ao desenvolvimento do pensamento. No , com efeito, por 
simples con-*,eno, com base em definies previamente escolhidas, que  preciso delimitar o momento 
em que as intui es articuladas se transformam em sistemas operatrios. H coisa melhor a fazer do que 
decompor a continuidade do desenvolvimento em fases identificveis com critrios exteriores quaisquer: 
no caso do incio das operaes, o problema decisivo manifesta-se por uma espcie de equilibrao, 
sempre rpida, e por vezes sbita, que altera o conjunto das noes de um mesmo sistema, e que se trata 
de explicar em si mesma. H, no caso, algo de comparvel s bruscas estruturaes de conjunto descritas 
pela Teoria da Forma, salvo que, na ocorrncia, produzse o contrrio de uma cristalizao abrangendo o 
conjunto das relaes numa nica rede esttica: as operaes nascem, pelo contrrio, de uma espcie de 
degelo das estruturas intuitivas, e da sbita mobilidade que anima e coordena as configuraes at ento 
rgidas em graus diversos, no obstante suas articulaes progressivas. Assim  que o momento em que as 
relaes temporais se renem na idia de um tempo nico, ou aquele em que os elementos de um conjunto 
so concebidos como constituindo um todo invariante, ou ainda em que as desigualdades que caracterizam 
um complexo de relaes so seriados numa s escala, constituem momentos muito reconhecveis no 
desenvolvimento:  imaginao tateante, sucede, s vezes, bruscamente, um sentimento de coerncia e de 
necessidade, a satisfao de chegar a um sistema ao mesmo tempo fechado em si mesmo e infinitamente 
extensvel.

Por conseguinte, o problema  compreender segundo que processo interno se efetua essa pasagem de 
uma fase de equilibrao progressiva (o pensamento intuitivo) a certo equilbrio mvel atingido como, no 
limite da primeira (as operaes). Se a noo de grupamento, descrita no Captulo 2, tem 
verdadeiramente uma significao psicolgica,  precisamente neste ponto que ela deve nianifest-lo.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO            143

Dada a hiptese, pois, de que as relaes intuitivas dum sistema considerado sejam, em determinado mo@ 
mento, subitamente grupadas, a primeira questo  sa. ber em que cribrio interno ou mental se 
reconhecer o grupamento. A resposta  evidente: onde houver grupamento haver conservao de um 
todo, e essa conservao em si no ser simplesmente suposta pelo indivduo a ttulo de induo provvel, 
mas por ele afirmada como uma certeza de seu pensamento.

Tomemos quanto a isso o primeiro exemplo citado a propsito do pensamento intuitivo: o transvasamento 
das contas. Aps um longo perodo em que cada transvasamento  suscetvel de alterar as quantidades, 
aps uma fase intermediria (intuio articulada) em que certos transvasamentos so capazes de alterar o 
todo, ao passo que outros, entre vasos pouco diferentes, conduzem o sujeito a supor que o conjunto se 
conservou, chega sempre um momento (entre 6, 6 e 7; e 8 anos) em que a criana muda de atitude: no h 
mais necessidade de reflexo. Ela decide; at mesmo se espanta de que se lhe proponha a questo. Ela est 
certa da conservao. Que se ter passado? Se lhe perguntamos sobre suas razes, ela responcie que 
nada retirou nem acrescentou; mas os menores tambm sabiam, e no entanto no concluam pela 
identidade: a identificao no , pois, um processo primeiro, no obstante E. Meyerson, mas um resultado 
da assimilao pelo grupamento inteiro (produto da operao direta por seu inverso). Ou ela responde que 
a largura perdida pelo novo vaso  compensada em altura, etc. -

mas a intuio articulada j levava a descentraes de uma relao dada, sem que chegasse  coordenao 
simultnea das relaes nem  conservao necessria; ou ento, sobretudo, responde que um 
transvasamento de A em B pode ser corrigido pelo transvasamento inverso, e essa reversibilidade  
seguramente essencial, mas as criancinhas j admitiam, s vezes, um possvel retorno ao ponto de partida, 
sem que esse retomo emprico constitusse uma reversibilidade total. S h, pois, uma resposta legtima: as 
diversas transformaes invocadas -

reversibilidade, composio das relaes compensadas, identidade, etc. - apiam-se de fato umas nas 
outras, e  porque se fundem num todo organizado que cada qual  realmente nova, no obstante seu 
parentesco com a

144              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

relao intuitiva correspondente, j elaborada no nvel precedente.

Outro exemplo. No caso dos elementos ordenados ABC que se submetem a uma rotao de meia volta 
(1.8G graus), a criana descobre intuitivamente, e aos poucos, quase todas as relaes: que B fica 
invariavelmente entre A e C e entre C e A; que uma volta muda ABC em CAB e que duas voltas fazem 
voltar a ABC, etc. Mas as relaes descobertas umas aps as outras continuam intuies sem vnculo de 
necessidade. Por volta dos 7 e 8 anos de idade, j vemos crianas que antes de qualquer tentativa 
prevem: 1) que ABC se inverte em CBA; 2) que duas inverses restauram a ordem direta; 3) que trs 
inverses equivalem a uma, etc. No caso, ainda, cada unia das relaes pode corresponder a uma 
descoberta intuitiva, mas todas juntas constituem uma realidade nova, porque se tornou dedutiva e no mais 
consistindo de experincias sucessivas, concretas ou mentais.

Ora,  fcil ver que em todos esses casos, e eles so inmeros, o equilbrio mvel  atingido quando as 
seguintes transformaes se produzam simultaneamente: 1) duas aes sucessivas podem coordenar-se em 
uma nica; 2) o esquema de ao, j em operao no pensamento intuitivo, torna-se irreversvel; 3) um 
mesmo ponto pode ser atingido, sem ser alterado, por duas vias diferentes;
4) o retomo ao ponto de partida permite encontrar este idntico a si mesmo; 5) a mesma ao, ao se repetir, 
nada acrescenta a si mesma, ou  nova ao, com efeito cumulativo. Reconhecemos a uma composio 
transitiva, a reversibilidade, a associatividade e a identidade, com (em
5), seja a tautologia lgica, seja a iterao numrica, que caracterizam os grupamentos11 lgicos ou os 
grupos aritmticos.

Mas, o que  preciso compreender bem para atingir a verdadeira natureza psicolgica do grupamento, em 
contraste com sua formulao em linguagem lgica,  que essas diversas transformaes solidrias so, de 
fato, expresses de um mesmo ato total, que  um ato de descentrao completa, ou de converso inteira 
do pensamento. 0 prprio do esquema sensrio-motor (percepo, etc.), do smbolo pr-conceptual da 
prpria configurao intuitiva,  que todos eles esto sempre centrados num estado particular do objeto e 
de um ponto de vista, particular do sujeito; portanto, que eles do provas sem-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             145

pre, simultaneamente, tanto de uma assimilao egocntrica ao sujeito como de uma acomodao 
fenomenista a<) objeto. 0 prprio do equilbrio mvel que caracteriza o grupamento , pelo contrrio, que 
a descentra o, j preparada pelas regulaes e articulaes progressivas da intUiG, torna-se 
bruscamente sistemtica ao atingir seu limite: o pensamento no mais se liga, ento, aos estados particulares 
do objeto, mas limita-se a acompanhar as, transformaes sucessivas, segundo todos os seus desvios e seus 
retornos possveis; e ele no mais procede de um ponto de vista particular do sujeito, mas coordena todos 
os pontos de vista distintos em um sistema de reciprocidades objetivas. 0 gruparnento realiza, assim, pela 
primeira vez, o equilbrio entre a assimilao das coisas  ao do sujeito e a acomodao dos esquemas 
subjetivos s modificaes das coisas. De incio, com efeito, assimilao e acomodao atuam. em sentido 
contrrio, donde o carter deformante da primeira e fenomenista da segunda. Graas s antecipaes e 
reconstituies, prolongando nos dois sentidos as aes a distncias sempre maiores, desde as antecipaes 
e reconstituies curtas prprias da percep o, do hbito e da inteligncia sensrio-motora, at os 
esquemas antecipadores elaborados pela representao intuitiva, assimilao e acomodao. equilibram-se 
aos poucos.  o acabamento desse equilbrio que explica a reversibildade, do termo final das antecipaes 
e reconstituies sensrio-motoras e mentais, e com ela a composio reversvel, caracterstica do 
grupamento: o pormenor das operaes grupadas no exprime, com efeito, seno as condies reunidas, 
ao mesmo tempo da coordenao dos pontos de vista sucessivos do indivduo (com retorno possvel no 
tempo e antecipao de sua seqncia) e da coordenao das modificaes perceptveis ou representveis 
dos objetos (anteriormente, atualmente ou por transcurso ulterior).

De fato, os grupamentos operatrios que se constituem por volta de 7 a 8 anos de idade (s vezes um 
Pouco antes) chegam s seguintes estruturas: em primeiro lugar, eles conduzem s operaes lgicas de 
ajustamento de classes (a questo das contas castanhas A menos numerosas que as contas de madeira B  
resolvida POr volta dos 7 anos) e a seriao das relaes assirnt~. Da a descoberta da transitividade que 
fundamenta Os dcdues: A == B; B = C, logo A = C; ou A < B; B < C.

146              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

logo A< C. Alm do mais, to logo adquiridos esses gruparnentos aditivos, os grupamentos multiplcativos 
so imediatamente compreendidos sob a forma de correspondncias: sabendo seriar objetos segundo as 
rela es A, < B., < C, ..., o indivduo no mais achar difcil seriar duas ou vrias colees, tais como A2 < B2 
< C2- . ., correspondendo-se termo a termo: a uma seqncia de bonecos de dimenses crescentes que tenha 
ordenado, a criana de 7 anos saber fazer corresponder uma seqncia de bengalas e chapus, e mesmo 
encontrar, quando se mistura tudo, a que elemento de uma das seqncias corresponde este ou aquele 
elemento de outra (sendo que o carter multiplicativo desse grupo no acrescenta dificuldade alguma s 
operaes aditivas de seriao que acabam de ser descobertas) .

Mais ainda, a construo simultnea dos grupamentos de ajuste das classes e da seriao qualitativa acarreta 
o aparecimento do sistema dos nmeros. Sem dvida, a criana nova no espera essa generalizao 
operatria para construir os primeiros nmeros (segundo A. Descoetidres, ela elabora para si um novo 
nmero a cada ano, entre 1 e 6 anos de idade), mas os nmeros 1 a 6 so ainda intuitivos, porque ligados a 
configuraes perceptivas. Por outro lado, poder-se- ensinar a criana a contar, mas a experincia 
mostrou-nos que o emprego verbal dos nomes de nmeros continua sem grande relao com as prprias 
operaes numricas, sendo que es-

tas precedem s vezes a numerao falada ou lhe sucedem sem vnculo necessrio. Quanto s operaes 
constitutivs do nmero, isto ,  correspondncia biunvoca (com conservao da equivalncia obtida, no 
obstante as transformaes da figura), ou  interao simples da unidade (1 + 1 = 2; 2 + 1 = 3, etc.), elas nada 
mais exigem seno grupamentos aditivos de ajuste das classes e da seriao das relaes assimtricas 
(ordem), mas fundidos num nico todo operatrio, tal que a unidade 1 seja simultaneamente elemento de 
classe (1 compreendido em

2; 2 em 3, etc.) e de srie (o primeiro 1 antes do segundo 1, etc.). Na medida em que a pessoa encare os 
elementos individuais em sua diversidade qualitativa, ela pode, com efeito, reuni-los segundo suas 
qualidades equivalentes (construindo, ento, classes), ou orden-los de acordo com suas diferenas 
(construindo, ento, relaes asSiMtricas), mas no as pode grupar simultanea-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO              147

mente na medida em que equivalentes e diferentes. o n. mero , pelo contrrio, Uma coleo de objetos 
concebi. dos ao mesmo tempo como equivalentes e seriveis, sua& nicas diferenas reduzindo-se, ento, 
a sua posio de ordem: essa reunio da diferena e da equivalncia supe, nesse caso, a eliminao de 
qualidades, donde precisa@ mente a constituio da unidade homognea 1 e a passagem do lgico ao 
matemtico. Ora,  muito interessante verificar que essa pasagem efetua-se geneticamente no, prprio 
momento da construo das operaes lgicas : classes, relaes e nmeros constituem, assim, um todo 
psicolgica e logicamente indissocivel, cujos trs termos completam, cada um, os demais.

Mas essas operaes lgico-aritmticas constituem apenas um aspecto dos grupamentos fundamentais cuja, 
construo caracteriza a idade entre 7 e 8 anos. A essas, operaes, que renem os objetos para os 
classificar, seriar ou enumerar, correspondem, com efeito, as operaes constitutivas dos prprios objetos, 
objetos complexos e no entanto nicos tais como o espao, o tempo e os sistemas materiais. Ora, no 
surpreende que essas operaes, infralgicas ou espao-temporais, se grupem em correlao com as 
operaes lgico-aritmticas, visto que so as mesmas operaes, mas em outra escala: o ajuste dos objetos 
em classes e das classes entre si torna-se, no caso, o ajuste das partes ou pores num todo; a seriao, 
exprimindo as diferenas entre objetos, apresenta-se a sob. * forma de relaes de ordem (operaes de 
colocao) * de deslocamento, e o nmero, no caso, corresponde  medida. Ora, efetivamente, ao passo 
que se elaboram as classes, as rela es e os nmeros, v-se construir, de modo notavelmente paralelo, os 
grupamentos qualitativos geradores do tempo e do espao.  por volta dos 8 anos que as relaes de 
ordem temporal (antes e depois) se coordenam com as duraes (menos ou mais tempo), ao passo que os 
dois sistemas continuavam independentes no plano intuitivo: ora, to logo ligados num nico todo, elas 
engendram a noo de um tempo comum aos diversos movimentos de velocidades distintas (tanto interiores 
como exteriores).  tambm por volta dos 7 a 8 anos que se constituem sobretudo as operaes qualitativas 
que estruturam o espao: ordem de sucesso espacial e ajustamento dos intervalos ou distncias; 
conservao dos comprimentos, superfcies, etc; elaborao de um sistema de coordena-

148              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

das; perspectivas e sees, ete. Quanto a isso, o estudo da medida espontnea, que procede das primeiras 
estimativas por transportes perceptivos para chegar, por volta de 7 a 8 anos,  transitividade das 
congruncias operatrias (A--B; B=, donde, A=C), e a elaborao da unidade (por sntese da participao e 
do deslocamento), demonstra da maneira mais clara como o transcurso contnuo das aquisies perceptivas, 
depois intuitivas, chega s operes reversveis finais como a sua forma necessria de equilbrio.                   
                       p

Mas  importante notar que esses diferentes grupamentos lgico-aritmticos ou espao-temporais ainda 
esto longe de constituir uma lgica formal aplicvel a todas as noes e a todos os raciocnios. H, no caso, 
um ponto essencial a destacar, tanto para a teoria da inteligncia como para as aplicaes pedaggicas, se 
quisermos adaptar o ensino aos resultados da psicologia do desenvolvimento em oposio ao logicismo da 
tradio escolar. Com efeito, as mesmas crianas que chegam s operaes que acabamos de descrever 
so, em geral, incapazes delas quando deixam de manipular os objetos e so convidadas a raciocinar por 
simples proposies verbais. As operaes de que se trata aqui so, pois, operaes concretas% e no 
ainda. formais: sempre ligadas  ao, elas as estruturam logicamente, inclusive as expresses que a 
acompanham, mas em nada implicam a possibilidade de elaborar um discurso lgico independente da ao. 
Assim  que a incluso das classes est compreendida desde os 7 e 8 anos na questo concreta das contas 
(tenhase em mente o exemplo estudado antes), ao passo que um teste verbal de estrutura idntica s vem a 
ser resolvido muito mais tarde (ef. um dos testes de Burt: Algumas das flores do meu buqu so aniarelas% 
diz um menino a suas irms. A primeira responde: Ento, todas as flores so amarelas; a segunda 
responde: Uma parte  amarela; e a terceira: Nenhuma. Qual delas tem razo?).

H mais, porm. Os mesmos raciocnios concretos, tais como levando  conservao do todo,  
transitividade das igualdades (A=B=C) ou das diferenas (A<B<C ... ), podem ser manejados com facilidade 
no caso de um sistema determinado de noes (como a quantidade de matria) e ficar sem significao, nos 
mesmos indivduos, por outro sistema de noes (como o peso).  sobretudo

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             149

deste ponto de vista que  ilegtimo falar de lgica formal antes do fim da infncia: os grupamentos 
continuam relaiivos aos tipos de noes concretas (isto , de aes mentalzadas) que foram efetivamente 
estruturados, mas a estruturao de outros tipos de noes concretas, de natureza intuitiva mais complexa 
porque ainda apoiandose em outras aes, exige uma reconstruo dos mesmos grupamentos com 
defasagem no tempo.

Exemplo particularmente claro  o das noes da conservao do todo (ndices do prprio grupamento). 
Apresenta-se, assim,  pessoa duas bolotas de pasta de modelagem de formas, dimenses e pesos iguais, e 
depois se modifica uma delas (em espiral, etc.), perguntando se foram conservados a matria (mesma 
quantidade de pasta), o peso e o volume (sendo que este  avaliado no deslocamento da gua em dois 
vasos onde se mergulham os objetos). Ora, a partir dos 7 a 8 anos, a quantidade de matria  reconhecida 
como se conservando necessariamente, em virtude de raciocnios j descritos a propsito da conservao 
dos conjuntos. Mas at 9 e 10 anos as mesmas crianas contestam que o peso se conserve, apoiando-se em 
raciocnios intuitivos que elaboravam at
7 e 8 anos para motivar a no-conservao da matria. Quanto aos raciocnios que acabam de elaborar (no 
raro, alguns instantes antes) para demonstrar a conservao da substncia, em nada so aplicados ao peso: 
se a espiral  mais fina que a bolota, a matria se conserva porque esse afinamento  compensado pelo 
alongamento, mas o peso diminui porque, desse ponto de vista, o afinamento atua de modo absoluto! Por 
volta de 9 a 10 anos, a conservao do peso  admitida, em virtude dos mesmos raciocnios quanto  
matria, mas, quanto ao volume,  negada ainda antes dos 11 a 12 anos, e em virtude dos raciocnios 
intuitivos inversos! Alm do mais, as seriaes, as composies de igualdade, etc. acompanham a mesma 
ordem de desenvolvimento: aos 8 anos, duas quantidades de matria iguais a uma terceira so iguais entre 
si, mas i-io dois pesos (independentes da percepo do volume, evidentemente)! E assim por diante. A 
razo dessas defasagens deve ser procurada, naturalmente, nos caracteres intuitivos da substncia, do 
peso e do volume, que facilitam ou retardam as composies operatrias: uma mesma forma lgica ainda 
no , portanto, antes dos 11 a 12 anos, independente de seu contedo concreto.

150               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

As operaes formais

As defasagens cujo exemplo acabamos de ver so relativas s operaes de mesmas categorias, mas 
aplicadas a domnios distintos, de aes ou noes: apresentando-se durante o mesmo perodo, podem pois 
ser chamadas de defasagens horizontais. Por outro lado, a passagem das coordenaes sensrio-motoras 
s coordenaes representativas do lugar, como vimos, a reconstrues semelhantes, com defasagens, 
mas como estas no so mais relativas aos mesmos degraus podemos cham-las de verticais. Ora, a 
constituio das operaes formais, que comea por volta de 11 a 12 anos, necessita igualmente de uma 
reconstruo total, destinada a transpor os grupamentos concretos em um novo plano de pensamento, e 
essa reconstruo  caracterizada por uma srie de defasagens verticais.

0 pensamento formal expande-se durante a adolescncia. 0 adolescente, diferentemente da criana,  um 
individuo que reflete fora do presente e elabora teorias sobre todas as coisas, comprazendo-se sobretudo 
nas consideraes intempestivas. Por outro lado, a criana s reflete ao ensejo da ao em curso, e no 
elabora teorias, mesmo que o observador, notando o retorno peridico de reaes anlogas, possa 
discernir uma sistematizao espontnea em suas idias. Ora, esse pensamento refletido, caracterstico do 
adolescente, nasce a partir dos 11 a 12 anos, desde o momento em que o jovem se torna capaz de 
raciocinar de modo hipottico-dedutivo, isto , com base em simples pressuposies sem relao necessria 
com a realidade ou com as crenas do indivduo, confiando na inevitabilidade do prprio raciocnio (vi 
formae), em oposio ao acordo das concluses com a experincia.

Ora, raciocinar segundo a forma e sobre simples proposies implica operaes outras que raciocinar 
sobre a ao ou a realidade. 0 raciocnio referente  prpria realidade consiste em um grupamento de 
operaes de primeiro grau, por assim dizer, isto , de aes interiorizadas que, se tornaram componveis 
e reversveis. 0 pensamento formal, pelo contrrio, consiste em refletir (no sentido prprio) essas 
operaes, portanto em operar sobre operaes do segundo grau. Sem dvida, trata-se dos mesmos 
contedos operatrios: o problema consistir sempre em elassifi-car, seriar, enumerar, medir, colocar ou 
deslocar no espa-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             151

o ou no tempo, etc. Mas no so essas classes, sries, e relaes espao-temporais, na medida em que 
estruturaes da ao e da realidade, que sero grupadas pelas operaes formais. Sero as proposies 
que exprimem -ou refletem essas operaes. As operaes formais consistiro, pois, essencialmente, em 
implicaes (no sentido estrito do termo) e incompatibilidades estabelecidas entre proposies, sendo 
que estas exprimem classificaes, seraes, etc.

Compreende-se, ento, por que h defasagem vertical entre as operaes concretas e as operaes 
formais quando estas mesmas repetem, de certo modo, o contedo das primeiras: no se trata, 
absolutamente, com efeito, de operaes de mesma dificuldade psicolgica. Basta, assim, traduzir em 
proposies um simples problema de seriaes entre trs termos apresentados em desordem, para que 
essa adio serial se torne singularmente difcil, ao passo que ela  bem fcil a partir dos 7 anos de idade, 
sob a forma de seriao concreta e mesmo de coordenaes transitivas pensadas a propsito da ao. Entre 
os testes de Burt, encontramos o belo exemplo seguinte: Edith  mais clara (ou loura) que Suzana; Edith  
mais escura (ou morena) que Lili; qual  a mais escura das trs? Ora, s por volta dos 12 anos essa questo 
 resolvida. Antes dessa idade, encontramos raciocnios deste tipo: Edith e Suzana so claras. Edith e Lili 
so morenas, ento Lili  a mais morena. Suzana a mais clara e Edith fica entre as duas. Em outras palavras, 
a criana de 10 anos raciocina, no plano formal, como as criancinhas de 4 e 5 anos o fazem a propsito de 
varas a seriar, e s aos 12 anos relaciona em termos formais o que sabe fazer aos sete anos em termos 
concretos em relao a dimenses, e a causa disso  simplesmente que as premissas so dadas a ttulo de 
puras hipteses verbais e que a concluso deve achar-se vi formae, sem recor-

rer s operaes concretas.

V-se, assim, por que a lgica formal e a deduo matemtica ficam inacessveis  criana, parecendo 
constituir um domnio autnomo: o do pensamento puro, independente da ao. E, efetivamente, quer se 
tratasse dessa linguagem particular - a aprender como qualquer linguagem
- que so os signos matemticos (signos que nada tm de smbolos, no sentido definido h pouco), ou desse 
outro sistema de signos que so as palavras exprimindo simples proposies, as operaes hipottico-
dedutivas esto situa-

152               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

das em outro plano que no o do raciocnio concreto, porque  uma ao efetuada sobre signos destacados 
do real , algo inteiramente diferente da ao referente  realidada em si ou sobre os mesmos signos 
ligados a essa realidade. Eis por que a lgica, dissociando esse estgio final d(> conjunto da evoluo 
mental, limita-se, de fato a lhe axiomatizar as operaes caractersticas, em vez de recoloclas em seu 
contexto vivo. Era, de resto, sua funo, mas, essa funo ganha certamente em ser desempenhada 
conscientemente. Por outro lado, a lgica era estimulada nessa via pela prpria natureza das operaes 
formais que, sendo do segundo grau e operando apenas sobre signos, enveredam pelo caminho da 
esquematizao prpria da axiomtica. Cabe, porm,  psicologia recolocar o cnon das operaes formais 
em sua perspectiva real, e mostrar que n o poderia haver significao mental a no ser apoiando-se@ em 
operaes concretas de que recebe ao mesmo tempo a preparao e o contedo. Desse ponto de vista, a 
lgica formal no  uma descrio adequada de todo pensamento vivo: as operaes formais constituem 
exclusivamente a estrutura do equilbrio final, no sentido do qual tendem as operaes concretas quando 
elas se refletem em sistemas mais gerais que combinam entre si as proposies que os exprimem.

A hierarquia das operaes e sua diferenciao progressiva

Vimos que uma conduta  um intercmbio funcional entre o sujeito e os objetos, e pode-se seriar as 
condutas segundo uma ordem de sucesso gentica fundada nas distncias crescentes, no espao e no 
tempo, que caracterizam os trajetos sempre mais complexos seguidos por esses intercmbios.

Assimilao e acomodao perceptivas pressupem, assim, to-somente um intercmbio direto, de trajetos 
retilnios. 0 hbito tem trajetos mais complexos, porm mais curtos, estereotipados e de sentido nico. A 
inteligncia sensrio-motora introduz retornos e desvios; ela atinge o objeto fora do campo perceptivo e 
dos itinerrios habituais, e

estende, desse modo, as distncias iniciais no espao e no tempo, mas fica limitada ao campo da ao 
prpria. Com o incio do pensamento representativo e sobretudo com o progresso do pensamento intuitivo, 
a intelig ncia torna-se

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO               153

capaz de evocar os objetos ausentes e, por conseguinte, de se ligar aos resultados invisves, passados e, 
em parte, futuros. A essa altura, porm, ela procede mediante figuras mais ou menos estticas, imagens meio 
Individuais, meio genricas no caso do pr-conceito, configuraes representativas de conjunto cada vez 
mais bem articuladas no perodo intuitivo, mas sempre figuras, isto , instantneos da realidade mvel e 
portanto s representando alguns estados ou alguns itinerrios entre o conjunto de trajetos possveis: o 
pensamento intuitivo fornece, assim, um mapa do real (o que no sabia fazer a inteligncia sensrio-motora 
enredada no prprio real imediato), mas ainda plena de imagens, com grandes espaos em branco e sem 
coordenadas suficientes para passar de um ponto a outro. Com os grupamentos de operaes concretas, 
essas figuras se dissolvem ou se fundem no plano de conjunto, e um progresso decisivo se faz na conquista 
das distncias e da difereneao dos trajetos: no so mais os estados ou os itinerrios fixos que o 
pensamento apreende, mas as prprias transformaes, tais que de um ponto se possa sempre passar a 
outro, e reciprocamente. l@ toda a realidade que se torna acessvel. Mas ainda  apenas a realidade 
representada: com as operaes formais, chega a ser mais que a realidade, visto que o universo do 
possvel abre-se  construo e o pensamento torna-se livre em relao ao mundo real. A criao 
matemtica uma ilustrao desse ltimo poder.

Ora, ao enfocar agora o mecanismo      -dessa construo, e no mais apenas sua extenso progressiva, 
verifica-se que cada degrau  caracterizado por uma nova coordenao dos elementos fornecidos - j em 
estado de totalidades por sinal, mas de ordem inferior - pelos processos do nvel precedente.

0 esquema sensrio-motor, unidade prpria do sistema da inteligncia pr&simblica, integra a si os 
esquemas perceptivos e os esquemas decorrentes da ao habitual (sendo esses esquemas da percepo e 
do hbito da mesma ordem inferior, uns ligados ao estado presente do objetivo e os demais s 
transformaes elementares de estados).
0 esquema simblico integra a si os esquemas sensrinmotores com diferenciao das fun5es, acomodao 
imitativa prolongando-se em significantes com imagens e assimilao determinando os significados. 0 
esquema intuitivo , ao mesmo tempo, uma coordenao e uma diferen-

154              PSICOLOGIA DA INT-ELIGNCIA

ciao dos esquemas dotados de imagens. 0 esquema operatrio de ordem concreta  um gupamento de 
esquemas intuitivos, promovidos  categoria de operaes reversveis, devido ao, fato de seu prprio 
grupamento. Finalmente, o esquema formal nada mais , como vimos, que um sistema de operaes de 
segundo grau, portanto um grupamento que opera sobre grupamentos concretos.

Assim, cada uma dessas passagens de um desses nveis ao seguinte  caracterizada ao mesmo tempo por 
uma nova coordenao e por uma diferenciao dos sistemas que constituem a unidade no nvel 
precedente. Ora, essas diferenciaes sucessivas esclarecem, por sua vez, a natureza indiferenciada dos 
mecanismos iniciais, podendo-se, assim, simultaneamente, conceber uma genealogia dos grupamentos 
operatrios, por diferenciaes graduais, e uma explicao dos nveis pr-operatrios pela indiferencao 
dos processos em jogo: - .

Assim  que a inteligencia sensro-motora chega, como vimos no Cap. 4, a uma espcie de grupamento 
emp rico dos movimentos, caracterizado psicologicamente pelas condutas de retorno e desvio, e 
geometricamente por aquilo que Poincar chamava de grupo (experimental) dos deslocamentos. Mas  
evidente que nesse nvel elementar, anterior a qualquer pensamento, no se poderia conceber esse 
grupamento como um sistema operatrio, visto que  o sstema dos movimentos efetivamente realizados: 
ele , de fato, indiferenciado, sendo os deslocamentos de que ele trata, sempre, ao mesmo tempo, 
movimentos orientados no sentido de um objetivo com finalidade prtica. Poder-se-ia, pois, dizer que, 
nesse nvel, os grupamentos espao-temporais, lgico-aritmticos e prticos (meios e fins) constituem um 
todo global e que, por falta de diferenciao, esse sistema de conjunto no poderia constituir um 
mecanismo operatrio.

No fim desse perodo e no incio do pensamento representativo, o aparecimento do smbolo permite, pelo 
contrrio, uma primeira diferenciao: os grupamentos prticos, de uma parte (fins e meios), e a 
representao, de outra. Mas esta ltima  ainda indiferenciada, no podendo as operaes lgico-
matemticas dissociar-se das operaes espao-temporais. No nvel intuitivo, com efeito, no h classes nem 
relaes propriamente ditas, ambas permanecendo ao mesmo tempo conjuntos espaciais ou relaes 
espao-temporais: donde seu carter intuitivo e pr-opera-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO               155

trio. No nvel de 7 a 8 anos, pelo contrrio, o aparecimento dos grupamentos operatrios  caracterizado 
precisamente pela diferenciao ntida das operaes lgico-aritmticas que se tornaram independentes 
(classes, relaes e nmeros desespacializados) e operaes espao-temporas ou infralgicas. Finalmente, 
o nvel das -operaes formais assinala uma ltima diferenciao, entre as operaes ligadas  ao real e 
as opera es hipottico-dedutivas, referentes a puras implicaes entre proposies enunciadas a ttulos 
de suposies.

A determinao do nvel mentaV

Os conhecimentos adquiridos em psicologia da inteligncia deram ensejo a trs tipos de aplicaes, que, 
em si, no tm a ver com nosso tema, mas cujos ensinamentos teis devem ser assinalados a ttulo de 
verificao das hipteses tericas.

Sabe-se de que forma Binet, com vistas a determinar o grau de retardamento dos anormais, foi levado a 
imaginar sua notvel escala mtrica da inteligncia. Analista sutil dos processos do pensamento, Binet 
estava mais que ningum perfeitamente cnscio das dificuldades para a medida do prprio mecanismo da 
inteligncia. Mas, devido precisamente a esse sentimento de apreenso, recorreu a uma espcie de 
probabilismo psicolgico, reunindo, com Simon, as provas mais diversas e procurando determinar a 
freqnela dos xitos em fun o da idade: a inteligncia  ento avaliada pelos avanos ou retardos 
relacionados com a idade estatstica mdia das solues corretas.

 inegvel que esses testes de nvel de inteligncia, de um modo geral, proporcionaram o que deles se 
esperava; uma avaliao rpida e prtica do nvel global de um indivduo. , porm, no menos evidente 
que eles medem tosomente o Irendiment0% sem atingir as operaes criativas em si. Como muito bem o 
exprimiu Piron, a inteligncia assim concebida exprime essencialmente um juizo de valor sobre uma 
conduta complexa.

Por outro lado, multiplicaram-se os testes, desde Binet, e procurou-se diferenci-los em funo de 
diferentes aptides especiais. No domnio prprio da inteligncia, elaborou-se assim o teste de raciocnio, o 
de compreenso, o de conhecimentos, ete. 0 problema , ento, extrair as correlaes entre esses 
resultados estatsticos, na esperana de

156              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

dissociar e avaliar os diversos fatores em jogo no mecanismo Intimo do pensamento. Spearman e sua escola dedicaram-se 
especialmente a essa tarefa, mediante rigorosos mtodos estatsticos,37 e chegaram  hiptese de uma interveno de certos fatores 
constantes. 0 mais geral foi denominado por Spearman fator g, e seu valor est em relao com a inteligncia do indivduo. Mas, como esse 
mes mo autor insistiu, o fator g exprime simplesmente a inteligncia geral, isto , o grau de eficincia comum do conjunto de aptides do 
sujeito, quase que se poderia dizer a qualidade da organizao nervosa e psquica que faz com que um indivduo tenha mais facildade que outros 
para realizar determinado trabalho mental.

Por fim, procurou-se reagir de maneira diferente ao empirismo das simples medidas de rendimento, tentandose determinar as prprias opera 
es de que dispe determinado indivduo, sendo ento o termo da operao tomado num sentido limitado e relativo  construo gentica, como 
fizemos neste livro. Assim  que B. Inhelder utilizou a noo de grupamento no diagnstico do raciocnio. Ela pde mostrar que nos dbeis 
mentais a ordem de aquisio das noes de conservao da substncia, do peso e do volume est presente de modo integral: no se encontra a 
ltima das trs invariantes (de resto, presente apenas nos simples retardados e estranha ao dbil) sem as duas outras, nem a segunda sem a 
primeira, ao passo que se acha a conservao da substncia sem a noo de conservao de peso e volume, e a da substncia e do peso sem a 
do volume. Ela pde contrastar a debilidade com a imbecilidade, pela presena de grupamentos concretos (de que o imbecil  incapaz), e com o 
retardamento simples, pela incapacidade de raciocnio formal, logo, pela culminao da elaborao operatria.311 H, no caso da obra dessa 
autora, a aplicao de um mtodo que poderia ser desenvolvido na determinao dos nveis de inteligncia ern geral.

37 Clculo das diferenas qudruplas ou correlaes entre correlaes.
38 B. Inhelder, Le Diagnostic du rasonnement chez les dbiles mei&taux, Delachaux e Niestl, 1944.

6

Os Fatores Sociais do Desenvolvimento Intelectual

Desde o seu nascimento, o ser humano est mergulhado num meio social que atua sobre ele do mesmo 
modo que o meio fsico. Mais ainda que o meio fsico, em certo sentido, a sociedade transforma o indivduo 
em sua prpria estrutura, porque ela no s o fora a reconhecer fatos como tambm lhe fornece um 
sistema de signos inteiramente acabado, que modifica seu pensamento; ela lhe prope valores novos e lhe 
impe uma seqncia infinita de obrigaes. No h dvida alguma, portanto, de que a vida social 
transforma a inteligncia pela tripla mediao da linguagem (signos), do contedo dos intercmbios (valores 
intelectuais) e das regras impostas ao pensamento (normas coletivas lgicas ou pr-lgicas).

Sem dvida  necessrio que a sociologia enfoque a sociedade como um todo, embora esse todo, bem 
distinto da soma dos indivduos, constitua o conjunto das relaes ou das interaes entre esses indivduos. 
Cada relao entre indivduos (a partir de dois) de fato os modifica, e cons. titui j uma totalidade, de tal 
modo que a totalidade constituda pelo conjunto da sociedade  menos uma coisa, um ser ou uma causa do 
que um sistema de relaes. Mas essas relaes so extremamente numerosas e complexas, visto que 
constituem, de fato, uma trama continua na histria, pela atividade das geraes e suas influncias umas 
sobre as outras, tanto quanto um sistema sincrnco de

158              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

equilbrio a cada momento da histria. , pois, lcito adotar uma linguagem estatstica e falar da sociedade 
como de um todo coerente (do modo como uma Gestalt  resultante de um sistema estatstico de relaes). 
Apenas,  fundamental ter em mente o carter estatstico das expresses da linguagem sociolgica, porque, 
esquecendo-se esse fato, dar-se-ia s palavras um sentido mitolgico. Na sociologia do pensamento, pode-
se mesmo indagar se no haver proveito em substituir a linguagem global comum pela meno dos tipos 
de rela es em jogo (tipos tambm estatsticos, evidentemente).

Por outro lado, quando se trata de psicologia, isto , quando a unidade de referncia  o indivduo 
modificado pelas relaes sociais e no mais o conjunto ou os conjuntos de relaes como tais, torna-se 
totalmente ilegtimo contentarmo-nos com termos estatsticos demasiado gerais. Atuao da vida social  
uma noo exatamente to vaga como seria a de atuao do meio fsico se no a quisssemos 
pormenorizar. 0 ser humano, do nascimento  vida adulta,  objeto de presses sociais,  claro, mas essas 
presses so de tipos extremamente variados e distintos, e se exercem segundo certa ordem de 
desenvolvimento. Assim como o meio fsico no se impe de uma s vez nem num nico bloco  
inteligncia em evoluo, mas se pode acompanhar passo a passo as aquisies em funo da experincia, 
e sobretudo os modos, muito diferentes segundo o nvel, de assimilao e acomodao que regem essas 
aquisies, do mesmo modo o meio social d ensejo a interaes entre o indivduo em desenvolvimento e 
as circunstncias que o rodeiam, as quais so extremamente diferentes umas das outras, e cuja sucesso 
obedece a leis. So esses tipos de interao e essas leis de sucesso que a psicologia deve estabelecer 
cuidadosamente, sob pena de simplificar-se a tarefa at a abdicao em favor da sociologia. Ora, no existe 
qualquer razo de conflito entre esta cincia e a psicologia, desde que se reconhea o quanto a estrutura 
do indivduo  modificada por essas interaes: ambas as disciplinas tm a ganhar com um estudo que 
ultrapasse a anlise global para entrar na via da anlise das relaes.

A socializao da inteligncia individual

De acordo com o nvel de desenvolvimento do indivduo, os intercmbios que ele mantm com o meio 
social

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             159

so de natureza muito diversa, e modificam, por conse@ guinte, em contrapartida, a estrutura mental 
individual de modo tambm diferente.

Durante a fase sensrio-motora, o beb j est sujeita a mltiplas influncias sociais: so-lhe 
proporcionados os maiores prazeres que sua pouca experincia pode ter
- do alimento ao calor do afeto do ambiente - ele  abraado, sorriem para ele, brincam com ele, acalmam-
no; inculcam-se-lhe hbitos e regularidades relacionadas com sinais e palavras, e j se lhe probem certas 
atitudes, ralha-se com ele. Em suma, visto de fora, o beb de peito est no centro de uma multido de 
relaes que preludiam os signos, os valores e as regras da vida social ulterior. Mas, do ponto de vista do 
prprio sujeito, o meio social ainda no se diferencia essencialmente do meio fsico, pelo menos at o 
quinto estgio que assinalamos na inteligncia sensrio-motora (Cap. 4). Os sinais de que se valem em 
relao a ele no passam de signos ou ndices naquela fase de sua vida. As regras que se lhe impem ainda 
no so obrigaes de conscincia e se confundem, para ele, com as regularidades prprias do hbito. 
Quanto s pessoas, trata-se de quadros anlogos a todos aqueles que constituem a realidade, mas 
especialmente dinmicos, imprevistos e fontes de sentimentos mais intensos.
0 beb atua sobre eles como sobre as coisas, por gestos eficazes, fazendo com que continuem as aes 
interessantes, e por gritos diversos, mas ainda no h, no caso, qualquer intercmbio de pensamento, visto 
que a criana desse nvel ignora o pensamento, nem, por conseguinte, qualquer modificao profunda das 
estruturas intelectuas pela vida social ambiente.39

Com a aquisio da linguagem, por outro lado - isto , com os perodos simblico e intuitivo - novas 
relaes sociais aparecem, enriquecendo e transformando o pensamento do indivduo. Mas quanto a isso  
preciso distinguir trs questes.

0 sistema de signos coletivos, de fato, no cria a funo simblica, mas a desenvolve naturalmente, em 
propores que o indivduo por si s ignoraria. Todavia, o signo como tal, convencional (arbitrrio) e 
inteiramente

39 No ponto de vista afetivo,  sem dvida apenas no nvel da elaborao da noo de objeto que h projeo da afetividade sobre, as pessoas, 
concebidas ento, por sua vez, como centros de atuao independentes.

160              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

elaborado, no basta como meio de expresso para o pensamento da criana pequena: ela no se contenta 
em falar;  preciso que desempenhe o que pensa, que simbolize suas idias por meio de gestos ou de 
objetos, que represente as coisas por imitao, desenho e construo. Em suma, do ponto de vista da 
prpria expresso, a criana permanece, no incio, em uma situao intermediria entre o emprego do 
signo coletivo e o do smbolo individual, ambos, de resto, sendo sempre necessrios, mas o segundo bem 
mais necessrio s crianas que aos adultos.

Em segundo lugar, a linguagem transmite ao indivduo um sistema inteiramente elaborado de noes, 
classificaes, relaes; em suma, um potencial inesgotvel de conceitos que se reconstroem em cada 
indivduo no mo-delo multissecular que j moldou as geraes anteriores. Mas  bvio que a criana 
comea a tirar desse conjunto apenas o que lhe  conveniente, desprezando soberbamente tudo o que 
ultrapassa o seu nvel mental. Alm disso, o que ela retira desse acervo  assimilado segundo sua estrutura 
intelectual: a palavra ou expresso destinada a veicular um conceito geral s engendra, a princpio, um 
pr~conceito, semi-individual e semi-socializado (a palavra pssaro evocar, assim, o canrio da casa, 
etc.).

Em terceiro lugar, restam as prprias relaes que o sujeito mantm com seu meio, relaes, portanto, 
sincrnicas, em contraste com os processos diacrnicos'1 cuja influncia a criana sofre ao adquirir a 
linguagem e os modos de pensar que lhe esto ligados. Ora, essas relaes sincrnicas so o essencial no 
cio: conversando com as pessoas que lhe esto prximas, a criana ver, a cada instante, seus 
pensamentos aprovados ou contrariados, e descobrir um mundo imenso de pensamentos exteriores a ela, 
que lhe instruiro ou impressionaro de modos diversos. Do ponto de vista da inteligncia (o nico que nos 
interessa aqui), ela ser levada a um intercmbio cada vez maior de verdades obrigatrias (idias 
inteiramente feitas ou normas propriamente ditas de raciocnio).

Apenas, no caso, no se deve igualmente exagerar, nem confundir as capacidades de assimilao prprias 
do pensamento intuitivo com o que elas viro a ser no nvel operatrio. Vimos, com efeito, no que se refere 
 adaptao do pensamento ao meio fsico, que o pensa-

0 D.EsENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO             161

mento intuitivo dominante at o fim da primeira infncia (7 anos) caracteriza-se por um desequilbrio, ainda no 
reduzido, entre assimilao e acomodao. A relao intutiva resulta sempre de urna Ilcentrao11 do pensamento em 
funo da atividade prpria, em contraste com o grupamento de todas as relaes em jogo. assim, a equivalncia entre 
duas sries de objetos no  admitida seno relativamente  atividade de faz-las corresponder e se perde to logo essa 
ao  substituda por outra. Portanto, o pensamento intuitivo sempre d provas de um, egocentrismo deformante, 
sendo a relao admitida relativa  ao do sujeito, e no descentrada num sistema objetivo.40 Reciprocamente, e pelo 
prprio fato de que o pensamento intuitivo est a cada instante centrado numa relao dada,  fenomenista e s atinge 
do real a sua aparncia perceptiva: est, portanto,  merc das sugestes da experincia imediata, que ele copia e imita, 
em vez de corrigir. - Ora, a reao da inteligncia desse nvel ao meio social, em si,  exatamente paralela  sua reao ao 
meio fsico, o que, de resto,  bvio, visto que as duas espcies de experincia so ndissociveis na realidade.

Por um lado, por mais dependente que seja das influncias intelectuais ambientes, a criana nova as assimla a seu modo. 
Ela as reduz ao seu ponto de vista e as deforma, pois, sem o saber, pelo simples fato de que no distingue ainda o seu 
ponto de vista do ponto de vista dos outros, por falta de coordenao ou de grupamentos dos prprios pontos de 
vista. A criana , desse modo, egocntrica pela inconscincia de sua subjetivdade, no plano social como no plano fsico. 
Por exemplo, ela saber mostrar sua mo direita, mas confundir as relaes sobre o parceiro situado diante dela, incapaz 
de se situar de outra perspectiva, social como geometricamente; comprovamos, igualmente, como, em problemas de 
perspectiva, a criana primeiro atribui aos outros a sua prpria viso das coisas; nas questes de tempo, acontece at 
que uma criana, ao mesmo tempo declarando seu pai mais velho que ela, acredite que ele tenha nascido depois dela, 
por no se lembrar do que ele fazia antes! Em suma, a centrao, intuitiva, contrariamente  des-

40 Heur Walion, que criticou a noo de egocentrsmo, mantm contudo a idia em si, que ele exprime muito bem ao dizer que a criana 
nova pensa no modo optativo e no no modo indicativo.

162              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

centrao operatria, reveste-se, assim, de um primado inconsciente, e tanto mais sistemtico, do ponto de 
vista prprio. Esse egocentrismo intelectual, nos dois casos, nada mais  que falta de coordenao, uma 
ausncia de grupamento das relaes com os demais indivduos, assim como com as coisas. Isso tudo  
absolutamente natural: a supremacia do ponto de vista prprio, assim como a centrao intuitiva em funo 
da ao prpria no passam de expresso de uma indiferenciao inicial, de uma assimilao deformante, 
porque determinada pelo nico ponto de vista possvel inicialmente. Tal indiferenciao, com efeito,  
bvia, visto que a distino dos pontos de vista e sua coordenao pressupem um trabalho completo da 
inteligncia.

Mas, pelo fato de o egocentrismo inicial resultar de simples indiferenciao entre o ego e o alter, o sujeito 
acha-se exposto, exatamente durante -o mesmo perodo, a todas as sugestes e a todas as constries do 
meio ambiente, s quais se acomodar sem crtica, precisamente por no estar consciente do carter 
prprio de seu ponto de vista (assim acontece freqentemente s criancinhas no terem conscincia de 
imitar, acreditando terem tido a iniciativa do modelo, como tambm lhes acontece atribuir aos outros as 
idias que lhes so particulares). Eis por que o apogeu do egocentrismo coincide, no desenvolvimento, 
com o da presso dos exemplos e opinies do meio, e a mistura de assimilao ao eu e de acomodao aos 
modelos ambientes  tambm explicvel, da mesma forma que a do egocentrsmo e do fenomenismo 
prprios da intuio inicial das rela es fsicas.

Apenas,  bvio que nessas condies (que se resumem todas  ausncia de grupamento) as constries 
do meio no poderiam bastar para engendrar uma lgica no esprito da criana, mesmo que as verdades 
que elas impem fossem racionais em seu contedo: repetir as ideias corretasmesmo acreditando que elas 
emanam de si mesmo, no equivale a raciocinar corretamente. Pelo contrrio, para aprender com os outros 
a raciocinar logicamente,  indispensvel que se estabeleam entre as pessoas e a criana essas relaes 
de diferenciao e de reciprocidade smultneas que caracterizam a coordenao dos pontos de vista.

Em suma, nos nveis pr-operatrios que se estendem desde o aparecimento da linguagem, aos 7 - 8 anos

0 DESENVOLVIME NTO DO PENSAMFNTO           163

aproximadamente, as estruturas prprias do pensamento nascente excluem a formao das relaes sociais 
de cooperao que por si acarretariam a constituio de uma lgica: oscilando entre o egocentrismo 
deformante e a aceitao passiva dessas constries intelectuais, a criana ainda no , portanto, objeto de 
uma socializao da inteligncia que possa modificar-lhe profundamente o mecanismo.

 nos nveis da elaborao desses grupamentos de operaes concretas, depois sobretudo lormas, que se 
apresenta, por outro lado, em toda a sua acuidade, o problema dos papis respectivos do intercmbio social 
e das estruturas individuais no desenvolvimento do pensamento. A lgica verdadeira, que se constitui 
durante esses dois perodos, acompanha-se, com efeito, de duas espcies de caracteres sociais; trata-se, 
precisamente, de determinar se resultam do aparecimento dos grupamentos ou se so a causa deles. Por 
um lado,  medida que as intuies se articulam e acabam por se grupar operatoriam,@@nte, a criana se 
torna cada vez mais apta  cooperao, relao social distinta da constrio naquilo que pressupe uma 
reciprocidade entre indivduos que saibam diferenar seus pontos de vista. Na ordem da inteligncia, a 
cooperao  assim a discusso travada objetivamente (donde essa discusso interiorizada que  a 
deliberao ou reflexo), a colaborao no trabalho, a troca de idias, o controle mtuo (fonte da 
necessidade de verificao e de demonstrao), ete. @, portanto, claro que a cooperao est no ponto de 
partida de uma srie de condutas importantes para a constituio e o desenvolvimento da lgica. Por outro 
lado, a prpria lgica no consiste, unicamente, do ponto de vista psicolgico, que  o nosso, de um sistema 
de operaes livres: ela se traduz por um conjunto de estados de conscincia, de sentimentos intelectuais e 
de condutas, todos caracterizados por certas obrigaes s quais  difcil negar um carter social, seja ele 
primitivo ou derivado. Vista sob esse ngulo, a lgica comporta regras ou normas comuns:  a moral do 
pensamento, imposta e sancionada pelos outros. Assim  que a obrigao de no se contradizer no  
simplesmente uma necessidade condicional (um imperativo hipottico,,), para quem queira curvar-se s 
exigncias das regras do jogo operatrio: ela  tambm um imperativo moral (categrico), na medida em 
que exigida pelo intercmbio in-

164              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

telectual e pela cooperao. E, efetivamente,  primeiro para com os outros que a criana procura evitar a 
contradio. Assim como a objetividade, a necessidade de comprovao, a necessidade de conservar seu 
sentido das palavras e das idias, etc. so outras tantas obrigaes sociais como condies do pensamento 
operatrio.

Uma questo se apresenta, ento, necessariamente: ser o grupamento causa ou efeito da cooperao? 0 
grupamento  uma coordenao de operaes, logo, de aes acessveis ao indivduo. A cooperao  
uma coordenao de pontos de vista ou de aes que emanam, respectivamente, de diferentes indivduos. 
Seu parentesco , pois, evidente, mas ser esse desenvolvimento operatrio interior ao indivduo que o 
toma suscetvel de cooperar com oqtros, ou  a cooperao exterior, depois interiorzada nele, que o 
obriga a grupar suas aes em sistemas operatrios?

Grupamentos operatrios e cooperao

Impem-se, sem dvida, duas respostas distintas e complementares a essa questo. Urna  que, sem 
intercmbio de pensamento e sem cooperao com os outros, o indivduo no chegaria a grupar suas 
operaes num todo coerente: nesse sentido, o grupamento operatrio pressupe, portanto, a vida social. 
Mas, por outro lado, os prprios intercmbios de pensamento obedecem a uma lei de equilbrio, a qual, por 
sua vez no poderia ser seno um grupamento operatrio, visto que cooperar  tambm coordenar 
operaes. 0 grupamento , pois, uma form ade equilbrio de aes interindividuais como de aes 
individuais, e ele encontra, assim, sua autonomia no prprio seio da vida social.

Com efeito,  muito difcil compreender como o indivduo conseguiria grupar de maneira precisa suas 
operaes e, por conseguinte, transformar suas representaes intuitivas em operaes transitivas, 
reversveis, idnticas e associativas, sem intercmbio de pensamentos. 0 grupamento consiste, 
essencialmente, em libertar do ponto de vista egocntrico as percepes e as intuies espontneas CIO 
indivduo, para elaborar um sistema de relaes tais que se possa passar de um termo, ou de uma relao, a 
outro, seja de que ponto de vista for. 0 grupa-

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO              165

mento , pois, em seu princpio mesmo, uma coordenao dos pontos de vista, e isso significa, de fato, uma 
coordenao entre observadores, logo uma cooperao de vrios indivduos.

Suponhamos, entretanto, com o senso comum, que um indivduo superior, ao mudar indefinidamente de 
pontos de vista, chegue sozinho a coordenar entre si esses pontos de vista de molde a garantir seu 
grupamento. Mas como um s indivduo, mesmo dotado de experincia suficientemente vasta, poderia 
chegar a lembrar-se de seus pontos, de vista anteriores, isto , do conjunto das relaes, que ele percebeu, 
mas que no mais percebe? Se ele fosse capaz disso, teria conseguido constituir uma espcie de 
intercmbio entre seus atos sucessivos e diversos, isto , proporcionar a si, por convenes continuadas 
consigo mesmo, um sistema de notaes suscetveis de consolidar as lembranas e de traduzi-las numa 
linguagem representativa: ele teria, ento, realizado uma sociedade entre os seus diferentes eus1 De 
fato,  precisamente o intercmbio constante de pensamentos com os outros que nos permite descentrar-
nos dessa forma e nos garante a possibilidade de coordenar interiormente as relaes que difundem 
pontos de vista distintos. No se pode perceber, em particular, como, sem a cooperao, os conceitos 
poderiam conservar seu sentido permanente e sua definio: a prpria reversibildade do pensamento 
est, assim, relacionada a uma conservao coletiva, fora da qual o pensamento individual no poderia 
dispor seno de mobilidade infinitamente mais restrita.

Dito isso, porm, e tendo-se admitido que um pensamento lgico  necessariamente social,  claro tambm 
que as leis do grupamento constituem formas de equilbrio gerais, que exprimem to bem o equilbrio dos 
intercmbios interindividuais como o das operaes de que se torna capaz todo indivduo socializado 
quando raciocina interiormente, de acordo com as suas idias mais pessoais e mais originais. Dizer que o 
indivduo s chega  lgica graas  cooperao equivale, pois, a supor, simplesmente, que o equilbrio de 
suas operaes est subordinado a uma capacidade infinita de intercmbio com outrem, e portanto a uma 
reciprocidade total. Mas essa afirmao s pode ser evidente, visto que o grupamento j , precisamente, 
em si, um sistema de reciprocidades.

166             PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Mais ainda. Se indagarmos o que vem a ser um intercmbio de pensamentos entre indivduos, ns nos 
aperceberemos de que ele consiste, essencialmente, em um sistema de colocao em correspondncia; 
portanto, em
4 grupamentos bem definidos: a relao determinada, estabelecida do ponto de vista de A corresponde, 
aps o intercmbio,  relao do ponto de vista de B, e essa operao efetuada por A corresponde  
operao efetuada por B (seja ela equivalente ou simplesmente recproca). Essas correspondncias  que 
determinam, para cada posio enunciada por A ou por B, o acordo (ou, em caso de no-correspondncia, 
o desacordo) dos parceiros, a obrigao em que se encontram de conservar as proposies admitidas e a 
validade durvel dessas depois dos intercmbios. 0 intercmbio intelectual entre indivduos , pois, 
comparvel a uma imensa partida de xadrez que se jogasse sem parar e de tal modo que cada pea jogada 
num ponto acarretasse unia srie de jogadas equivalentes ou complementares por parte do adversrio: as 
leis do grupamento no so outra coisa seno as diversas reras que asseguram a reciprocidade dos 
jogadores e a coerncia de seu jogo.

Mais precisamente, cada grupamento interior aos indivduos  um sistema de operaes, e a cooperao 
constitui o sistema das operaes efetuadas em comum, isto ., no sentido prprio das cooperaes.

Entretanto, seria incorreto concluir que as leis do grupamento so superiores, ao mesmo tempo,  coopera 
 e ao pensamento individual: elas no constituem, repitamos, seno leis de equilbrio, e traduzem 
simplesmente essa forma particular de equilbrio que  atingida, de uma parte, quando a sociedade no mais 
exerce constries deformantes sobre o indivduo, mas anima e entretm o livre jogo de suas atividades 
mentais, e, de outra parte, quando esse livre jogo do pensamento de cada um no mais deforma o dos 
outros nem as coisas, mas respeita a reciprocidade entre as diversas atividades. Assim definida, essa forma 
de equilbrio no poderia ser considerada nem como resultado apenas do pensamento individual, nem 
como produto exclusivamente social: a atividade operatria interna e a cooperao exterior, no sentido, 
mais preciso dos termos, so os dois aspectos complementares de um mesmo e nico conjunto, visto que o 
equilbrio de um depende do equilbrio do outro. Alm

0 DESENVOL=NTO DO PENSAWNTO                167

do mais, como um equilbrio real jamais  totalmente atingido na realidade, resta encarar a forma ideal que ele assumiria ao 
culminar-se, e  esse equilbrio ideal que a lgica descreve axiomaticamente. 0 lgico opera, pois, no ideal (em contraste com o real) e nele tem o 
direito de deter-se, visto que o equilibrio de que ele trata jamais  inteiramente acabado, e devido a que  ininterruptamente projetado ainda mais 
alto,  medida que se efetuam novas construes. Quanto aos socilogos e aos psiclogos, s podem recorrer uns aos outros quando procuram 
saber de que forma esse equilbrio se realiza na realidade.

CONCLUSO

Rit~ Regulaes e Grupamentos

No todo, a inteligncia aparece como uma estruturao que imprime certas formas aos intercmbios entre o 
sujeito ou sujeitos e os objetos do meio ambiente, prximos ou distantes deles. Sua originalidade decorre, 
essencialmente, da natureza  das formas que ela elabora para esse fim.

A prpria vida j  criadora de formas% como disse Brachet.41 Certamente,  essas formas biolgicas so 
as do organismo, de cada   um dos seus rgos e dos intercmbios materiais que eles asseguram com o meio 
ambiente. Mas, com o instinto, as formas anatomo-fisiolgicas revestem-se de intercmbios funcionais, isto , 
de formas de conduta. Com efeito, o instinto no passa de um prolongamento funcional da estrutura dos 
rgos: o bico do picano prolonga-se em instinto percutor; uma pata escavadora em instinto de escavar, 
etc. 0 instinto  a lgica dos rgos, e  a esse ttulo que chega a conduta cuja realizao, no plano das 
operaes propriamente ditas, implicaria quase sempre uma inteligncia prodigiosa quando mesmo as 
formas podem parecer-lhe,  primeira vista, anlogas (como na procura do objeto fora do campo 
perceptivo ou a distncias diversas).

0 hbito, a percepo, constituem outras formas, como insistiu a teoria da Gestalt, delas extraindo as leis 
de sua organizao. o pensamento intuitivo tambm apre-

41 E, desse ponto de vista, os esquemas de assimilao que dirigem o desenvolvimento da inteligncia so comparveis aos organizadores que 
ocorrem no desenvolvimento embriolgico.

170               PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

senta novas formas delas. Quanto  inteligncia op2ratria, ela  caracterizada, como o vimos 
insistentemente, por essas formas mveis e reversveis que constituem os grupos e os grupamentos.

Se quisermos recolocar nas consideraes biolgicas de que partimos (Cap. 1) o que aprendemos da 
anlise das operaes da inteligncia, trata-se, pois, para concluir, de situar as estruturas operatrias no 
conjunto das formas possveis. Ora, = ato operatrio pode parecer de perto, por seu contedo, um ato 
intuitivo, um ato sensrio-motor ou perceptivo, e mesmo um ato instintivo: uma figura geomtrica pode, 
assim, ser o produto de uma construo lgica, de =a intuio pr-operatria, de uma percepo, de = 
hbito automatizado e mesmo de -um instinto construidor. A diferena entre os diversos nveis no se atm 
a esse contedo, isto ,  forma decerto modo materializada que  o resultado do ato@42 mas  forma do 
prprio ato e de sua organiza o progressiva. No caso da inteligncia reflexiva que chegou ao seu 
equilbrio, essa forma consiste em certo  grupamento de operaes. Nos casos escalonados entre a 
percepo e o pensamento intuitivo, a forma da conduta  a de um ajustamento, mais ou menos lento ou 
rpido (s vezes quase imediato), mas procedendo sempre por regulaes. No caso da conduta instintiva 
ou reflexa, trata-se, enfim, de um equipamento relativamente acabado, rgido, sem soluo de continuidade, 
e que funciona por repeties peridicas ou ritmos . A ordem de sucesso das estruturas ou formas 
fundamentais que se aplicam ao desenvolvimento da inteligncia seria assim: ritmos, regulaes e 
grupamentos.

As necessidades orgnicas ou instintivas que constituem os mveis das condutas elementares so, com 
efeito, peridicas e obedecem por isso mesmo a uma estrutura de ritmo: a fome, a sede, o apetite sexual, 
etc. Quanto aos equipamentos reflexos que permitem sua satisfao e constituem a subestrutura da vida 
mental, sabe-se bem hoje em dia que eles constituem sistemas de conjunto e--no resultam da adio de 
reaes elementares: a locomoo de um bpede, e sobretudo de um quadrpede (cuja

42 Deve-se notar que  justamente sobre essa forma exterior que mais insistiu a Teoria da Forma, o que devia lev-la a 
desprezar em demasia a construo gentica.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO               111

organizao d provas, segundo Graham Brown, de um ritmo de conjunto que domina e mesmo precede 
os reflexos diferenciados), os reflexos to complexos que         garantem a suco no recm-nascido, etc., e 
at os movimentos impulsivos que caracterizam o comportamento do lactente, apresentam um 
funcionamento cuja forma rtmica  evidente. Os comportamentos instintivos do animal, no raro to 
especializados, consistem tambm de ajustamentos bem determinados de movimentos que oferecem a 
imagem de certo ritmo, visto que se repetem periodicamente a intervalos constantes. 0 ritmo         
caracteriza, pois, os funcionamentos que esto no ponto de juno da vida orgnica e da vida mental, e isso 
 to verdadeiro que, mesmo no domnio das percepes elementares ou sensaes, a medida da 
sensibilidade pe em evidncia a existncia de ritmos primitivos, que escapam inteiramente  conscincia 
do indivduo; o ritmo  tambm a base de todo movimento, inclusive daqueles de que se compe o hbito 
motor.

Ora, o ritmo apresenta uma estrutura que vale a pena lembrar, para situar a inteligncia no conjunto das 
formas vivas, porque o modo de encadeamento que ele supe j preludia, de modo elementar, o que vir 
a ser a prpria reversibilidade, caracterstica das operaes superiores. Tenham-se em mente os reforos 
e inibies reflexos particulares, ou, em geral, uma sucesso de movimentos orientados em sentidos 
alternadamente contrrios, o esquema do ritmo exige sempre, de um modo ou de outro, a alternncia de 
dois processos antagnicos que funcionam um na direo A         B e o outro na direo inversa B --> A.  
certo que, num sistema de regulaes perceptivas, intuitivas ou relativas a movimentos coordem nados em 
funo da experincia, existem tambm processos orientados em sentidos inversos: mas eles se sucedem, 
ento, sem regularidade e em relao com deslocamentos de equilibrio provocados por uma situao 
exterior nova. Os movimentos antagnicos prprios do ritmo so, pelo contrrio, regulados pelo 
equipamento interno (e hereditrio), e apresentam, por conseguinte, uma regularidade muito mais rgida e 
sem soluo de continuidade. A diferen a  ainda maior entre o ritmo e as operaes inversas prprias 
da reversibilidade inteligente, que so intencionais e relacionadas a combinaes infinitamente mveis do 
gruparnento.

172              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

o ritmo hereditrio assegura, assim, certa conservao das condutas que no exclui, de modo algum, sua 
complexidade nem mesmo uma relativa maleablidade (exagerou-se a rigidez dos instintos). Mas, na medida 
em que se detm nos equipamentos inatos, essa conservao os esquemas peridicos d provas de uma 
indiferenciao sistemtica entre a assimilao dos objetos  atividade do indivduo, e a acomodao dessa 
atvidade  s possveis modificaes da situao exterior.

Com as aquisies em funo da experincia, a acomodao se diferencia  por outro lado, e, na mesma 
medida, os ritmos elementares SO integrados em sistemas mais vastos, que no mais oferecem periodicidade 
regular. Por outro lado, uma segunda estrutura geral apresenta-se, ento, a qual prolonga a periodicidade 
inicial, e consiste de regulaeS43. So elas que encontramos, da percepo s prprias intuies pr-
operatrias. Uma percepo, por exeMplG, constitui sempre um sistema de conjunto de relaes, e pode 
assim ser concebida como a forma mGmentnea de equilbrio de uma multido de ritmos sensoriais, 
elementares, reunidos ou interferindo entre si de maneiras diversas. Esse sistema tende a se conservar na 
medida em que totalidade, enquanto no mudam os dados exteriores; mas, uma vez que esses se 
modifiquem, a acomodao aos novos dados acarreta um deslocamento de equilbrio. S que esses 
deslocamentos no so iiimitadOS, e o equilbrio que se restabelece em funo da assimilao aos 
esquemas perceptivos anteriores d provas de uma tendncia a atuar em sentido inverso da mo. ,dificao 
exterior.44 H, pois, regulao, isto , interveno de processos antagnicos comparveis aos que j se 
manifestam nos movimentos peridicos, mas o fenmeno se produz, ento, em escala superior, muito mais 
complexa e mais ampla, e sem periodicidade necessria.

Essa estrutura caracterizada pela existncia das regulaes no  especfica da percepo.  aquela que 
encontramos nas correlaes prprias s aquisies motoras. De um modo geral, todo o desenvolvimento 
sensrio-mo-

43 Referimo-nos aqui a regulaes estruturais, evidentemente, e no a regulaes energticas, que caracterizam, segundo P. Janet e outros, a 
vida afetiva dos mesmos nveis.
44 Tenha-se em mente, por exemplo, a iluso de Deoboeuf, citada t)or ns neste trabalho.

0 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO               173

tor, at os diversos nveis da inteligncia sensrio-motora, inclusive, apresentam sistemas anlogos. S num 
caso privilegiado, o dos deslocamentos propriamente ditos, com retornos e desvios, o sistema tende a 
atingir a reversibilidade e prenuncia, assim, o gruparnento, mas com as restries que j examinamos. Nos 
casos gerais, pelo contrrio, uma regulao, ao mesmo tempo em que moderando e corrigindo as 
modificaes perturbadoras e que se efetuam, pois, em sentido inverso das transformaes anteriores, no 
atinge a reversibilidade total, por falta de ajustamento completo entre assimilao e acomodao.

No plano do pensamento nascente, em particular, as centraes intuitivas e o egocentrismo prprio das 
rela es sucessivamene construdas mantm o pensamento no estado ireversvel, como vimos (Cap. 5) a 
propsito das no-conservaes. As transformaes intuitivas s so compensadas, portanto, por um jogo 
de regula es, harmonizando aos poucos a assimilao e a acomodao mentais, e assegurando por elas 
mesmas a regulagem do pensamento no-operatrio, durante os tateios interiores da representao.

Ora,  fcil ver que essas regulaes, cujos diversos tipos se escalonam, assim, a partir das percepes e 
hbitos elementares at o limiar das operaes, procedem de ritmos iniciais de modo bastante contnuo. 
Convm, primeiramente, lembrar que as aquisies iniciais, sucedendo imediatamente o exerccio dos 
equipamentos hereditrios, apresentam ainda uma forma de ritmo: as reaes circulares, que esto no 
ponto de partida dos hbitos adquiridos de maneira dinmica, consistem de repeties com periodicidade 
bem visvel. As medidas perceptivas referentes a dimenses ou formas complexas (e no apenas  
sensibilidade absoluta) mostram ainda a existncia de oscilaes contnuas em torno de um ponto de 
equilbrio dado. Por outro lado, pode-se supor que componentes anlogos queles que determinam as 
fases alternativas e antagnicas prprias do ritmo (A -> B e B --> A) acham-se num sistema de conjunto 
suscetvel de regulaes, mas se apresentam, ento, simultaneamente e em equilbrio momentneo uns com 
os outros, em vez de atuarem alternadamente: eis por que, quando esse equilbrio se altera, h 
deslocamento, de equilibrio e aparecimento de uma tendncia a resistir s modificaes exteriores, isto , 
a moderar a transformao sofrida (como se diz em fsi-

174              PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

ca, no caso do conhecido mecanismo descrito por Le Chtelier). Pode-se, pois, conceber que, quando os 
componentes da ao constituem sistemas estticos de conjunto, os movimentos orientados em sentido 
inverso uns em relao aos outros (e cuja altemncia ensejava as fases distintas e sucesivas do ritmo) 
sincronizam-se e representam os elementos do equilbrio do sistema. Em caso de modificaes exteriores, 
o equilbrio se desloca por acentuao de uma das tendncias em jogo, mas essa acetnuao  cedo ou 
tarde limitada pela interveno da tendncia contrria: essa inverso de sentido  que define, ento, a 
regulao.

Compreende-se agora a natureza da reversibilidade pr& pria da inteligncia operatria, e a maneira pela 
qual as operaes inversas do grupamento procedem das regulaes, no apenas intuitivas, mas ainda 
sensrio-motoras e perceptivas. Os ritmos reflexos no so reversveis em seu aspecto de conjunto, mas 
orientados segundo um sentido definido: executar um movimento (ou um complexo de movimentos), cess-
lo e voltar ao ponto de partida para repeti-lo no mesmo sentido, tais so as suas fases sucessivas, e, se a fase 
de retomo (ou antagnica) inverter os movimentos iniciais, no se trata, no caso, de uma segunda ao 
tendo o mesmo valor que a fase positiva, mas de uma retomada que determina um recomeo orientado na 
mesma direo. Contudo, a fase antagonica do ritmo est no ponto de partida da regulao e, alm dessa 
ltima, das d4operaes inversas da inteligncia, e j se pode conceber todo ritmo como um sistema de 
regulaes alternativas e reunidas numa totalidade especfica de sucesso. Quanto  regulao, que 
constituiria assim o produto de um ritmo de conjunto cujos componentes se teriam tornado simultneos, ela 
caracteriza condutas ainda irreversveis, mas cuja reversibilidade progrediu em relao s precedentes. J 
no plano perceptivo, a inverso de uma iluso pressupe que uma relao (por exemplo, de semelhana) 
sobrepuje a relao inversa (diferena) a partir de certa exagerao desta ltima, e reciprocamente. No 
domnio do pensamento intuitivo, a coisa  ainda mais clara: a rel."o desprezada pela centrao da 
ateno, quando esta se liga a outra relao, domina por sua vez esta ltima qmndo o erro ultrapassa certos 
limites. A descentrao, fonte de regulao, chega nesse caso a um equivalente intuitivo das operaes 
inversas, em particular quando as antecipaes e reconsttUies representativas lhe aumentam o tamanho

0 DEsENVOLV=NTO DO PENSAMENTO               175

e a tornam quase instantnea, o que se produz cada vez mais no nvel das intuies articuladas (Cap. 5). Bastar, pois, 
que a regulao atinja a compensaes completas (a que tendem precisamente as intuies articuladas) para que a 
operao aparea por isso mesmo: as operaes no passam, com efeito, de um sistema de transformaes coordenadas 
e que se tornaram reversveis sejam quais forem suas combinaes.

, pois, no sentido mais concreto e mais preciso que se pode conceber os grupamentos operatrios da inteligncia como 
a forma de equilbrio final a que tendem as funes sensrio-motoras e representativas no curso de seu 
desenvolvimento, e essa concepo permite compreender a profunda unidade funcional da evoluo mental, ao mesmo 
tempo assinalando as diferenas de natureza que distinguem as estruturas prprias das etapas sucessivas. To logo 
atingida a reversibilidade completa, limite de um processo contnuo, mas limite com propriedades bem diferentes em 
relao s fases anteriores, visto que assinala a chegada ao prprio equilbrio, os agregados, at ento rgidos, tornam-se, 
com efeito, suscetveis de uma mobilidade de composio que assegura precisamente sua estabilidade, porque a 
acomodao  experincia acha-se a em equilbrio permanente, sejam quais forem as operaes efetuadas, com a 
assimilao promovida, por isso mesmo,  categoria de deduo necessria.

Ritmos, regulaes e lIgrupamento constituem, desse modo, as trs fases do mecanismo evolutivo que liga a inteligncia 
ao poder morfogentico da prpria vida, permitindo-lhe realizar as adaptaes, ao mesmo tempo ilimitadas e 
equilibradas entre si, impossveis de realizar no

plano orgnico.

Bibliografia Resumida

CAPfTULO 1

Bhler, K., Die Krise der P"chologie, Iena (Fisher), 2.a ed., 1929. Clarapde (org.), La psychologie de Vintelligence, Scientia (1917),

vol. 22, pp. 253-268. Kijhler, W., Gestalt Psychology, Nova York (Liverright), 1929. Uwin, K., Principles of Topological Psychology, Londres, (Mae-
Graw-

Hill), 1935. Montpellier, G. de, Conduites intelligentes et psychisme ehz Vanimal

et chez I'Homme, Louvain e Paris (Vrin), 1946.

CAPTuw 2

Binet, A., tude exprimentale de l'intelligence, Paris (Schleicher),

1903. Burloud, A., La pewge daprs les recherches exprimentales d#

Watt, de Messer et de Biihler, Paris (Alcan), 1927 (contm as referncias relativas a esses trs autores). Delacroix, H., La psychologie de Ia 
raison, in Trait de Psychologio

de Dumas, 2.a ed., t. I, p. 198-305 (Paris, Alcan, 1936). LiRdworky, I. Das Schlitssfolgernde Denken, Fribourg-en-Brisgau,

1916. Piaget, J., Classes, Relations et Nombres. Essai sur les Group7nevts

de Ia logistique et Ia rversibilit de Ia pense, Paris (Vrin),
1942. Selz, 0., Zur Ps-ychologie des prodQtktiven Devkens un des IrrumS,

Bonn, 1924.

CAPfTULo 3

Duncker, K., Zur P"chologie des produktiven Dewkens, Berlim, 1935 Guillaume, P., La Ps-ychologie de Ia Forme, Paris (Flammarion),

1937. KhIer, W., L'Intelligence des singes suprieurs (trad. Guillaume),

Paris (Alcan), 1928Piaget, J. e Lambercier M., Recherches sur le dveloppement des

perceptions, 1 a VII, Archives de Psychologie (Genebra), 1943-
1946.

178                PSICOLOGIA DA INTELIGNCIA

Wertheimer, M., Uber Schlussprozesse im produktivem Denken, Berlim,

1920.

cApTuLo 4

Clarapde (org.), La gense de 1'hypotiise, Archives de Psychologio (Genebra), 1934. Guillaume, P., La formation des Habitudes, Paris 
(Alcan), 1936. Hu11, C., Principles of Behaviour, Nova York (Appleton), 1943. Krecheviski, L, l'The Docile Nature o Hypothesis, Journal of 
Comp.

Psychology, 1933, vol. 15, p. 425-443. Piaget, J., La Naissance de Vintelligence chez Venfant, Neuchtel (Delachaux e Niestl), 1936. (Publicado 
em portugus por estx

Editora, sob o ttulo 0 Nascimento da Inteligncia na Criana.) Piaget, J., La Construction du Rel chez 1'enfant, ibid. 1937 (publi-

cado em portugus por esta Editora, sob o ttulo A Construo do Real na Criana.) Spearman, C., The nature of intelligence, Londres, 1923. 
Thorndike, E. L., The Fundamental of Learning, Nova York (Treach.

Col.), 1932. Tolman, C. E., A behaviouristic theory of ideas, Psychol. Rev.,

vol. 33, pp. 352-369 (1926).

CAPiTULOs 5 e 6

Bhler, C., Kindheit und Jugend, Leipzig (Hirzel), 1931. Bhler, K., Die Geistige Entwick1ung des Kindes, Iena (Fischer), 1918. Inhelder, B., Le 
diagnostic du raisonnement chez les dbiles mentaux,

Neuchtel (Delachaux et Niestl), 1945. Janet, P., L'Intelligence avant le language, Paris (Flammarion), 1935.
- Les dbuts de l'intelligence, ibid., 1936. Piaget, J., La Formation du symbole chez Venfant, Neuehtel (Dela-

chaux e Niestl), 1945. (Publicado em portugus por esta Editora, sob o ttulo A Formao do Smbolo na Criana.)
-  Le dveloppemewt de la notion de temps chez Venfant, Paris, (Presses Universitaires de France), 1946.
-  Les notions de mouvement et de vitesse chez VEnfant, Paris (Presses Universitaires de France), 1946. Piaget, J., e Szeminska, A., La Gense du 
nombre chez 1'enfant, Neu-

chtel (Delachaux et Niestl), 1941. (Publicado por esta Edtora, sob o ttulo A Gnese do Nmero na Criana.) Piaget, J., e Inhelder, B., Le 
dveloppement des quantits physiques

chez 1'enfant, ibidem, 1941. (Publicado por esta Editora, sob o ttulo 0 Desenvolvimento das Quantidades Fsicas na Criana.) Rey, A., L'Intelligevce 
pratique chez 1'enfant, Paris (Alcan), 1935. Wallon, H., De l'acte  la pense, Paris (Flammarion), 1942.
- L'Origine de la pense chez 1'enfant, Paris (Presses Universitaires

de France), 1945.

COMPOSTO E IMPRESSO POR TAVARES & TRISTO - GRAFICA E EDITORA DE LIVROS LTDA.,  RUA 20 DE ABRIL,
28, SALA 1.108, RIO DE JA-

NEIRO, R.J., PARA

ZAHAR EDITORES

(Continuao da 1.1 aba)

relaes abstratas,  no contexto socolgic que a inteligncia ir adquirir sua mxima potencialidade.

Neste livro, PIAGET volta, como CLAPARDE, a valorizar a af etividade, aspecto despreza@ em outras obras, 
reconhecendo o seu

papel na determinao de um objetivo pari a conduta, distintamente da inteligncia, que  encarada como 
fornecendo apenas meios (a tcnica) para atingi-lo. A dialtic@ de fins e meios leva necessariamente a uma 
escala de valores. Contudo, mesmo nesse campo sutil, o mestre suo no perde em especulaes estreis 
e se mantm estritamente nos limites da metodologia cientfica, amparando todas as suas asserti com 
demonstrao e prova.

Outras obras do autor nesta  mesma coleo

* Construo do Real na Criana (2.a ed
* Desenvolvimento das Quantidades F,

na Criana (2.< ed.)
* Equilibrao das Estruturas Cognitiva
* Formao do Smbolo na Criana (2.a Gnese das Estruturas Lgicas Elementan

com B. Inhelder (2.11 ed.) * Gnese do Nmero na Criana/ coi A. Szeininska (2.11 ed.) * Nascimento da 
Inteligncia na Criani
2.a ed.)

ZAHAR EDITORES a cultura a ervio do progressO M

RIO DE JANEIRO         -
